sábado, 4 de março de 2017

Tasaí Mari Alberta?

_ Tasaí Mari Alberta?
Foi o início do meu fim de semana.
Não me chamo Mari, nem sequer Maria, e entre Alberta e o meu nome são escassas as afinidades. Mas estava lá. As agruras da semana converteram-se a um sorriso: é bom ser a Mari Alberta de alguém! Lá nos pusemos a falar de tudo e de nada, como é do nosso jeito de falar das nossas vidas: sem véus. Às vezes partilhamos impropérios lançados à chuva para acabar a conversa com um "pois, precisamos da chuvinha para as nossas hortas" ou, se estivermos em dia de maior intelectualidade, lá sai uma tirada digna de publicação numa qualquer rede social: " se não houvesse dias de chuva, não saberíamos apreciar o sol!". Rimo-nos dos nossos disparates e depois fazemo-nos ao dia de alma lavada.

Depois de fazermos planos para sábado sabendo que pelo menos metade  não passará de boas intenções, ela tinha de ir e eu resolvi dar por feita aquela interminável tarde de sexta. Por momentos apeteceu-me assinar Mari Alberta no documento acabado de imprimir.

Lembrei, então, das outras pessoas que me pairam no coração e na vida e de quem frequentemente tomo o nome de Xica, Maria Ana, Engrácia, Paula Maria, Aninhas, Mariazinha, Alberta, Genoveva ou, em alturas de pretenso mau humor, outros nomes menos cristãos mas que apesar de tudo figuram na bíblia.

Podemos estar uns dias sem falar mas estamos presentes, fazemos uma rede invisível que tanto pode servir de suporte quando caímos como de impulso para o salto que precisamos dar. Às vezes embala-nos, tão somente. Podem chegar em forma de flores, receitas de caramelos, beijos, snoopys, tareia nas orelhas, mimos infinitos ou conversas sérias pela noite dentro; são as pessoas que fazem de mim uma pessoa melhor.

_Tou aqui, Maria Francisca! Tou aqui Maria Papoila, Ternura, Paixão, Riqueza, Ceriquinha, Salafrário e tantos outros que correria o risco de envergonhar se aqui colocasse os nomes dos nossos batismos molhados de forma mais espiritual.

Estou aqui. Vossa.

domingo, 29 de janeiro de 2017

agora é quase sempre janeiro

Há um rumor de nostalgia onde dantes havia magia. Esconderam-se os santos em jornais de notícias velhas, ofuscaram-se os brilhos com papel pardo, apagaram-se as luzes. Agora é quase sempre escuro.

Batem à porta,  batem-me à porta muita vezes, mas a aldraba tem pronúncia de desgraça. Por entre vidros embaciados e olhos toldados chegam as vozes do desgosto. A ceifeira, matreira, anda à solta apontando sem critério. Encontro-me de novo num cemitério. Tremo, agora é quase sempre frio.

Caem  da noite lembranças sem estrelas  de janeiros passados.  Tento passar despercebida enquanto espero. Agora estou quase sempre à espera.



segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

ausência

Ausência
é a palavra do momento.

Há vazios onde outrora algo sorriu
ausência do carinho de quem se foi
ausência da ternura de quem partiu
a ausência do amor de quem faltou

Ausência ...
E a vida vai-se fazendo.

domingo, 16 de outubro de 2016

São, de todas as cores

São:
como as nossas histórias, tretas e outras conversas
como novelos de lã, trapos e livros que escolhemos
os olhares, os sorrires, os gostares que nos damos
como os sonhos lindos e o mundo todo às avessas
são de todas as cores, são as folhas e flores
que na tua rua escolhi para ti


sábado, 15 de outubro de 2016

de novo

cai.
o verbo é cair

a primavera floresce, o verão chega
.... o outono cai

caem as folhas, as flores, os tons das cores
cai o cabelo, o brilho do olhar, cai a figura
caem ilusões, sonhos de estio, caem amores
cai a noite cedo, cai a chuva e a temperatura

caem deveres, segundas-feiras, caem as horas
cai o pano, o nevoeiro, a escuridão, o coração
caio em mim, caem-me também as palavras
dos pensares à mão caem linhas de emoção

a castanha amadurece, o frio chega
... o outono cai

que o verbo seja agora
colorir.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

saudade simples

hoje a saudade gritou o teu nome
pelas mãos me escorre o lamento
do vazio que agora mora em mim

hoje a minha saudade lembrou-te
no vago frio caído no  teu assento
à mesa, na casa, nesta vida assim

hoje a saudade de ti magoou-me
saber que o sentir desse momento
é deste não estar que não tem fim

quarta-feira, 20 de julho de 2016

neurose


para ninguém estranhar
para que não se diga que me perco nas teclas
que se mantenha a imagem de que escrevo histórias
a história de que um dia serei escritora
escrevo, escrevo sem parar

escrevo, escrevo e não digo nada
porque o que tenho para dizer aqui não cabe
é grande, é imenso, mal me cabe no pensamento
assim, debito frases contra o tempo
Escapam-se-me das mãos, as palavras

escrevo, digo, conto sem falar
como não entendem abro mão do sentimento
sei que nada mais será como antes
mas tudo pode ser alguma coisa
depois de lido o que deixo por contar