domingo, 30 de dezembro de 2012

ano velho

Não deito fora o ano velho; feitos e desfeitos continuarão a figurar no anuário da minha história. Apenas crio uma pausa: o marco simbólico onde aligeiro a bagagem para dar lugar a novos souvenirs. 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

dor de ser

Carrego uma dor no peito, uma dor na alma, uma dor em todo o meu ser. Fará parte de mim até que as lágrimas se esgotem. E depois disso, ainda.

 Acorda-a a mais leve brisa, o leito de um rio, o sal do mar, a palavra saudade.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

presente no natal

Gostava de oferecer prendas e escolhia do mais requintado para a fazer feliz. Mas era difícil; ou porque não deveria ter gasto tanto dinheiro ou porque, por pouco mais, comprava uma coisa melhor, ou porque não precisava daquilo mas antes de outra coisa... Cada vez se esmerava mais para conquistar a sua aprovação mas parece que nunca acertava. Em vez de um sorriso de contente _ que era o que ele mais queria _  ou de um agradecimento, havia sempre uma crítica à sua escolha.

Os olhos azuis marejavam-se de lágrimas que disfarçava. Poucas vezes reagiu mais assertivamente e houve cenas e amuos. Isso não: desistiu e começou a dar-lhe dinheiro para ela comprar o que quisesse. Nada romântico;  nem de perto se assemelhava com as histórias dos livros que lhe alimentaram o romantismo. Mas pelo menos não havia reparos ao que oferecia.

Um dia, a filha sublinhou a deselegância do envelopezinho branco, seria melhor ele comprar alguma coisa, pelo menos no natal. Só que já não era capaz de decidir: andava em círculos até poucas horas antes da ceia e acabava por lhe pedir que escolhesse a prenda de natal para ele oferecer à sua raínha.

Um dia deixou de estar presente. E a mulher daria a alma para ter um presente dele.


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

vida com vida

Espreitam fantasmas do natal passado, há sempre qualquer coisa que os traz de volta. Durante um tempo tentei desesperadamente esquecer, apagar, mas não vale a pena; fazem parte da minha vida, aceito-os para continuar. Quanto à dor que os acompanha, espero que ceda aos presentes do momento.

Quanto tempo dura um luto; um ano? Pelo menos é um marco de tempo psicológico importante. Se assim for, daqui a um ano talvez tenha um natal sem sobressaltos. Mas o futuro, aprendi, são sonhos que, a seu tempo, concretizamos ou não. E isso depende muito de nós, mas não só de nós.

Tenho raiva calada, muita de mim própria. Vai explodindo, aos poucos. Deixei de ter pena de mim, não tenho pena dos outros. Por alguns sinto desprezo e ao desprezo os deixo. Como comecei, há sempre qualquer coisa que os traz de volta à lembrança; seja! Por outros, tenho amor e tenho raiva e é assim que se está numa vida com vida!



quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

o helicópterozinho

Andava a namora-los fazia tempo; gostava de ter um daqueles helicópteros teleguiados. Tentava-se, por vezes, mas não custavam pouco e não se estava em tempo de gastar nessas coisas, podia o dinheiro faltar para outras. Mas cum raio, esforçava-se tanto, merecia um gosto de vez em quando. Falou nisso à família, mostrou até; ninguém parecia achar tola a ideia de ter um.

Veio o dia em que se decidiu. Contou, já a compra estava feita, e chegou logo a encomenda. Arranjou as pilhas e andou todo o resto do dia mortinho por chegar a casa.

_Olha mãe, olha ele a voar! E o pássaro caiu no meio da sala. Tentou uma e outra vez, melhorando os tempos que o aguentava no ar. _ Ai que ainda dou cabo disto! mas continuava a tentar. _Tenho que treinar lá fora, apanhar as correntes de ar. _Sim, e se cair, cai na relva! Só mais uma vez, e outra, e mais outra, e .... catrapum!

_Queres ver que dei cabo dele? apanhou-o do chão, zangado consigo próprio; uma pá da hélice tinha partido. Tentou juntá-la, foi consolado: _ consegues conserta-lo! _ Se conseguir comprar outra pá, respondeu desolado.

Baixou os olhos tristes, aquele homem de cinquenta anos, e sentou-se com desalento, qual menino que acabara de estragar o brinquedo pedido e atendido pelo pai natal.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

um friozinho nos ossos

Acordei a meio da noite com frio e dores friorentas; mais um cobertor na cama! De manhã, o nariz arrefeceu mal me levantei; encolhi-me, agasalhei-me, bebi quente o leite com café mas nem assim encontrei conforto. Aqueceu-me o duche esfumaçante, onde me deixei mais tempo que o habitual. Vesti à pressa o que me pareceu uma dezena de peças, agarrei na pasta e saí, arrefecendo o que tinha aquecido. O carro estava embaciado, demorou a aquecer_também ele_ e, enquanto me dirigia para o trabalho, concluí que o inverno chegou, novamente, antes do seu calendário! E, com um friozinho nos ossos, fiz-me à vida.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

prenda que cresce

Coisas para fazer enchem-me de planos o pensamento, de vontades o meu ser. Algumas, triviais, de que necessito para me situar neste universo desastrado que tenho feito à minha volta; outras, mais artísticas, que servem para embelezar a minha alma e o espaço por onde quer vaguear.

Quero rasgar más recordações, deitar fora coisas feias, embelezar outras. Transformar perdidos em achados, pintar, colar, tricotar, transbordo de querer fazer. Ao lado, livros para ler; os que tenho e os que alguém há-de ter. E surge o ensejo de cozinhar receitas acumuladas no guardar. E dá-las a provar.

A tudo isto se sobrepõe o desejo de amar, beijar e afagar, um a namorar, dois a aninhar. E sorrir, às vezes apetece-me tanto sorrir que até parece que não sou eu ... será esta a prenda de natal que dou a mim própria, mesmo que não consiga concretizar tanta imagem bonita que me vem à cabeça.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

este natal

Ouço de todos os lados pessoas a quem não apetece pensar, sequer, no natal que se aproxima. Conheço esse sentir mas não partilho os motivos. Terão razão para assim dizer os que não têm emprego, perderam a casa, muitas vezes a dignidade. Quem, não tendo posses para um jantar normal mais não possa do que sonhar com uma ceia de natal. Quanto aos outros, que se lamentam por ter que "cortar" nas prendas e na qualidade do bacalhau, não respeitam o que de mais nobre tem a quadra natalícia.

No natal passado, por esta altura dizia eu o mesmo, mas porque haveria um lugar vazio à mesa, uma prenda a menos para oferecer,  menos uma taça para brindar, um pai que faltava para abraçar. Eu, que era a grande promotora das actividades natalícias, evitava pensar nelas, evitava a dor. Sentia-me incapaz, doida por vezes, capaz de imaginar horrores e sem energia para os contrariar.

Mas, o que habitualmente eu fazia, foi feito pelos homens da casa com a ajuda dos avós; apareceu a árvore de natal, o bacalhau, os doces, as prendas, e, sobretudo, muito amor entre os presentes que mantiveram viva a memória do ausente, numa cadeira à mesa, vazia de vida mas rica em boas memórias.  O meu homem, então dividido, tudo fez para me proporcionar um natal bom: reconsiderou promessas, encheu-me as paredes de outras memórias, beijou-me as lágrimas,  acarinhou-me no colo e conduziu-me a um novo ano; este.

Neste natal as prendas serão simbólicas, algumas feitas por nós. Mas haverá uma coroa de natal à porta. A ceia não terá, provavelmente, tantos mimos como habitualmente; os que houver, serão partilhados e apreciados com gosto entre pessoas que se amam.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

mortes

Adorava meu pai. Admirava-o quando pequena, depois desenvolvemos uma cumplicidade que lhe permitia confessar o seu desespero ou piscar-me o olho, compensando assim a falta de momentos a sós que a dinâmica da família não facilitava. Por vezes uma troca de olhares bastava para nos compreendermos e foi num olhar que percebi que se despedia dos demais na sala, mas que havia coisas a dizer-me antes de estar pronto para se entregar. Fiz o momento acontecer e, a partir daí e até o final, os nossos olhares trocavam-se entendidos mas conformados. Apesar disso, a sua morte deixou um vazio de tamanha dor, um pouco de mim que morria também.

A minha amiga entregou-se à morte, na semana passada, após anos de luta contra o cancro, contra os prognósticos, contra ventos e marés.  Sentindo que tinha chegado o momento, despediu-se do cão, da casa, dos teres e haveres, escolheu e deixou pago o seu próprio funeral, consolou os amigos e partiu "para outra etapa" usando as suas próprias palavras. Deixou-nos uma carta de despedida, lembrança escrita do que partilhamos. Mais um pouco de mim que se vai com as memórias que ela tinha de nós.

Conheço uma mãe que vai agora acompanhar o corpo do filho a enterrar. O filho que festejou os 21 anos há menos de uma semana e que se foi da noite para o dia, num desastre estúpido como, aliás, o são todos. Não ouso, sequer, imaginar a imensidão da sua dor. Sem lugar para despedidas com vida, perde o mais importante de si; o menino que concebeu, pariu, mimou, amou talvez mais do que a si própria e que fazia parte, não só do seu passado, mas muito do seu futuro. Nunca devia uma mãe e um pai enterrar o seu menino!

Do amigo que acompanhou aquele filho na morte, não conheço mãe nem pai mas conheço a namorada, qual viúva inconsolável a quem, o que faltaria em partilha de vida a dois, sobrava em ilusões, em romance. Outra dor será, que felizmente não conheço mas que merece o meu pesar.

Soltam-se-me algumas lágrimas de homenagem, não sei se mais pelos que morreram se pelos que continuam a viver sem eles.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

blues

Há dias assim. hoje não.

Tempos houve em que sabia mais ou menos quando isto me iria acontecer, uma vez por mês. Estranhamente, mesmo sabendo porque me sentia assim, não via com menos gravidade o estado em que me encontrava. Dois dias depois sentia-me ridícula, apetecia-me pedir desculpa às pessoas por ter pensado o que pensei sobre elas. Começando por mim!

Recentemente, tive uma temporada completa, sentia-me assim dias seguidos. Aí, foi grave.

Atualmente nunca sei quando um blue vem por mim adentro nem quando o espavento. Quem me tem no meu melhor, lá me vai gramando neste pior. Desculpem qualquer coisinha.

Acordo cansada, olho no espelho uma coitada, vou-me vestir; não tenho nada. 
Não tenho ninguém a quem me veja abraçada. Estou só, abandonada,

O marido é aborrecido, cansado, não tem paciência para me aturar; vai deixar-me, quer outra mulher que tem tudo no sítio, que gosta de ouvir os noticiários e, apesar disso, anda sempre bemdisposta. Os filhos têm tudo desarrumado, não ligam nada ao que lhes digo, não precisam de mim. A mãe é chata, egoísta e se lhe ligo hoje a coisa acaba mal. Os amigos não estão para me aturar, nem eu a eles, é melhor ficar cada um com as suas coisas.

Vou para o serviço cansada, vejo no vidro uma falhada, vou trabalhar; não faço nada.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

a mesma estação

Tinham-se visto todos os dias durante a semana.  Agora, lado a lado, mão na mão, estavam prestes a separar-se pelo que lhes parecia uma eternidade. Ele tinha aquele olhar triste de criança só e a ela despedaçava-lhe o coração vê-lo assim, tanto como ficar sem ele. Animava-o, então, tentando mostrar o bom do que fariam um sem o outro e palrando disparates.

A estação dela era antes e despedia-se com o seu melhor sorriso, queria que ele se lembrasse dela com os olhos iluminados. Soltava as lágrimas ao som do apito da partida e fazia o resto do caminho em silêncio, com a cumplicidade de quem entendia de amores.

Quando ele lhe falou em casamento não se fez rogada e lembrou, sem dizer nada, que se acabavam as despedidas a cheirar a caminhos de ferro; passariam a chegar sempre na mesma estação!

fuga

Apetece-me gritar, mandar tudo à merda, deitar fogo a uns quantos papéis e sair porta fora. Fugir, até, e dar uns pontapés pelo caminho. Mas algures teria de abrandar e onde parasse, ia enfiar-me na cama para continuar a fuga. Até me aninhar num colo que me contenha, onde possa chorar sem medo de ser encontrada.

sonho com mãos

Estendem-se mãos até mim, nos meus sonhos recorrentes. Costumava acordar angustiada mas percebi, entretanto, que são mãos para mim, não para me sufocar. Deixo-me afagar, embalada num sono do qual não quero acordar.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

temores

Um ano atrás, receava o natal. evitava pensar nele, irritavam-me as músicas das lojas, as luzes das ruas, tudo, mas tudo, me lembrava de me esquecer. Fizeram-me o natal, não de alegria jubilosa e prendas deslumbrantes, mas um natal com amor e com ternuras tais que me permiti deixar a vida continuar pelo ano novo.

E é a entrada no ano novo que temo agora; primeiro será uma prova de fogo, depois, seguem-se balanços. É tempo de decisões, desejos, resoluções; é uma espécie de recomeço. E eu temo não estar à altura de fazer um novo ano acontecer.

cinzentos

É cinzento, a cor do inverno, mas nem todos os cinzentos são iguais; declina-se a estação que se aproxima, em tons de cinza por demais. Há cinzentos luminosos e com cheiro, qual sol a espreitar por entre o nevoeiro, ou na chuva um namoro com paixão. Há cinzentos mortos como o de um enterro, mesmo que de finado de verão. Cinzentos há que conferem discreta distinção, outros amesquinham com malfadado enfado.

Em malhas de cinzento matizado me agarro a qualquer mão; o inverno não tem que ser tão hediondo como fantasma exorcizado.

domingo, 18 de novembro de 2012

sol de novembro

Sol de novembro não é esperado diariamente pelo que é ainda mais apreciado. Ninguém diz que está pouco quente, desde que apareça, ou que está escaldante. É sempre quentinho, lindo e desejado. Apreciado até ao último raio, sem defeitos, deixa-nos na pele um arrepio quando esmorece e se despede, até qualquer dia!

sábado, 17 de novembro de 2012

dança de outono

Um mar de folhas estendeu-se no jardim, castanhas, laranjas, amarelas e douradas. Por entre elas, as gotas de chuva brilhavam sob aquele sol de outono, quente e doce. Ouvia-se o Tema de Amor de Ennio Morricone, que bem que soava combinado com a vista daquela maravilha! Então, dancei nas folhas como quem molha os pés na praia, espalhei-as como quem semeia felicidade.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

um mundo muito dele

comprava livros que já tinha lido, emprestados
porque queria te-los e reler
e não sei se o fazia
mas às vezes pegava neles e sorria

era capaz de passar uma tarde na livraria Lello
saía dez anos mais novo
uma vez esqueceu-se de mim
só quando saiu se lembrou que eu tinha entrado com ele
e acho que um dos sorrisos mais bonitos que lhe vi
foi quando voltou atrás e eu também estava esquecida de tudo
a ler
e levantei os olhos para ele, surpreeendida pelo ar preocupado
acho que nenhum de nós contou a ninguém, até hoje

por isso me custava tanto ver a alienação dos tempos finais
o desapego aos livros
pra mim foi o sinal
de que tinha entregue os pontos
e parado de sonhar
queria mesmo parar

terça-feira, 13 de novembro de 2012

beijo suspenso

Almoçaram juntos, como tantas vezes. Saíu mais cedo, ele ficou a pagar, ainda sentado na mesa junto à vidraça. Quando se virou, para descer as escadas, ergueu o braço para um último adeus, um até logo em forma de beijo na ponta dos dedos. Mas ele já olhava para outro lado, agarrado ao telemóvel. Baixou o braço e os olhos e seguiu escada abaixo, sentindo que descia também na vida. O beijo, esse ficou suspenso no ar, impregnado do seu perfume de mulher. Pode ser que alguém o leve.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

casa minha

A minha casa está cada vez mais bonita. Ganha cantos e recantos e com eles, em cada um deles, há histórias para contar. A manta da avó, a jarra da mãe, as máquinas do pai, os poemas do homem, os desenhos dos filhos, as pinturas dos amigos, as fotos e os sorrisos de todos, tudo, mas tudo isso,  fazem desta casa um lar. Juntamente com o cheiro a café ou a comida temperada na nossa cozinha e do perfume do jasmim e da terra molhada que entra, vindos do jardim, fazem maior a alma desta casa.

Cruzam-se bom-dias, sorrisos, conversas. Trespassam-se olhares zangados, fazem-se silêncios magoados, às vezes palavras duras. Há copos na banca, livros no sofá, cestas de roupa na casa-de-banho, sapatos descalçados na sala. Mas nenhuma casa de revista é tão bonita assim.

domingo, 11 de novembro de 2012

S. Martinho

Conhecido por partilhar a sua capa, expondo-se mais ao frio para que outro homem menos o sentisse,  Martinho fez mais na sua vida, decerto, para ser proclamado santo. Pequenos gestos, talvez, ou grandes feitos que fizerem dele o santo popular protetor dos pobres, em honra de quem se come castanhas e se bebe água-pé ou jeropiga.

Não se fala muito mais acerca dele mas é assim que acontece, normalmente, com as pessoas boas: são discretas e são solidárias, tão naturalmente como têm sede. Não dão a sua capa só porque está fora de moda ou apenas porque querem comprar uma nova. Não encomendam resmas de capas, de qualidade inferior, para os "pobrezinhos. Na hora em que há alguém que precisa, pode-se contar com elas para partilhar o que é seu, o que podem. Não se anunciam para mostrar a todos como são beneméritos, não se gabam com falsa modéstia do bem que fizeram nem tentam mandar na vida de quem ajudam como se lhes fosse devida subserviência. Não são pessoas perfeitas, nem querem ser santas.

Entre amigos, festejamos o S. Martinho. Todos e cada um de nós, conhecidas qualidades e defeitos, somos boas pessoas. Comemos as castanhas, bebemos o que se arranja e não há prémio pelas boas ações que não seja a nossa amizade. E não há discursos na nossa festa, apenas as bocas foleiras que trocamos.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

estou com cheia de frio

Mudou a hora este fim de semana. Como sempre, os relógios lá de casa resistem a atualizar-se e, de manhã, apanhei um susto que me fez sair da cama de um salto. Falso atraso, voltei para o ninho mas senti-o: o arrepio que anuncia o inverno. Respeitei-o, mais tarde, quando escolhi a roupa para sair mas, porta fora, voltei a sentir no rosto o frio anunciado. E agora, arrefeceram-me os pés.

É chegada a hora de preparar tudo para receber a estação que me dá cabo da cabeça e dos joelhos. Mesmo que a temperatura volte a subir já não saio de sapato fino e casaco leve, vou querer chá cinco vezes por dia, o pão aquecido, o aquecimento ligado, banho a escaldar.

Não maldigo tanto a chuva, como costumava praguejar. Aprendi a ver por entre as pingas da chuva e a apreciar as gotas, na vidraça. Mas o frio é outra conversa, faz-me querer hibernar. Como os ursos.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

certas dores

Há dores que nunca passam, faças o que fizeres, escolhas que direção que tomares, vás pelo sentido que fores. Doem e nada podes contra isso. Há quem se entregue a elas e delas faça a razão do seu viver, não se dando oportunidade de ter outras felicidades e outras dores, até. Escolhi diferente, seguir em frente, agarrar o que quero na vida, mesmo doendo. Se assim não fosse, mais fundo, ainda, magoaria e haveria muito mais dor. Raiva nenhuma apagaria este ardor.

Doi todos os dias um bocadinho, naquele pedacinho que se perdeu. Dizem que o tempo ajuda.  Talvez. Quanto tempo? Ao que parece, ninguém sabe.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

entrada breve no diário de uma pessoa

Sou frágil, sou forte, sou o que tenho que ser e o que posso. Sou o que sou. às vezes esforço-me para parecer mais como fui mas cansa tanto! Depois,  basta um gesto, um cheiro, um sentido apurado por uma memória qualquer e desfaz-se o castelo de cartas. Consigo refazê-lo, cada vez melhor e mais rápido mas desespero quando isso acontece.

Compreendo que vos custe ver-me assim. Os que estão mais alheios às minhas cambalhotas, acusam a idade de uma certa degradação. Para tudo é preciso arranjar explicação. fiquem com essa, se vos sossega.

Quanto a mim concentro-me nos próximos passos que quero dar:  organizar informação, pôr coisas em ordem, estabelecer categorias, arrumar gavetas e por ai fora. Se é certo que é preciso organizar a cabeça pra fazer estas coisas, fazê-las também contribui para me sentir mais arrumada por dentro. É importante que, quando vierem os intrusos, os vândalos da esperança, os ladrões de sonhos, eu saiba onde estão os ramos de alecrim, de oliveira e as giestas para os espaventar.

Leio o que escrevo, maluca seria como me chamaria tempos atrás ...

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

outubro outono

outubro vai adiantado, precipitando-se na chuva e no frio que se esperavam mais modestos, que deixassem por conta do vento o varrer da paisagem.

pedi uma chávena de chá, para quando chegasse a casa, e foi com as mãos geladas que agarrei a chávena. agradecida!
aspirei o aroma do chá quente e outros se mostraram nas memórias: canela, abóbora, lenha, pão acabado de cozer, bolos de forno, castanhas, marmelada.

os tons das minhas memórias andam entre os amarelos alaranjados e os castanhos avermelhados. como as paisagens evocadas. são quentes, os outonos passados. pelo menos amornados, como os meus acordares.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

do outro lado da barricada

Mais espaços, caminhos diferentes, mais pessoas, novas regras. agora aqui, logo ali, assim e assado ... a longo prazo talvez possa ser bom mas agora sinto-me escangalhada, falta-me camioneta pra tanta carreira.

Compreendo melhor as pessoas com doença mental (e não sou eu uma delas?) cujas estruturas se abalam facilmente com alterações, com mudanças. de repente, a respiração entope, o coração sai do peito, o estomago revolta-se. a memória falha, não sabemos para onde ir, o que dizer ... e sentimo-nos umas fracas de quem é improvável alguém gostar.

Nunca pensamos transpôr a barreira mas quando damos conta lá estamos, do outro lado. e custa sair como o carago. às vezes estamos já no cimo, quase, quase a dar a volta e tunga: caímos outra vez! mas entretanto ganha-se experiência na subida, onde nos agarrarmos, que merdas evitar, que jeitos dar ...

Nem balanço a mais, nem balanço a menos.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

haveria sempre saudade

Foge-me o chão quando pressinto a saudade, 
recupero a razão quando percebo 
que saudades haveria, 
se assim não fosse. 
de mim. 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

saí da minha zona

Saí. estive fora da minha zona de conforto que é um estar perto, ter uns braços à minha espera, um colo, um adormecer velado. é a segunda vez que acontece desde o renascimento. desta vez não estava só mas não tinha o aconchego da minha casa, não sei qual das vezes foi pior. inquieta, com todos os medos. mais doente da primeira vez, mais triste desta, talvez.

Vi, na cidade ora admirada, mais chão que céu. as avenidas eram estreitas, o ar atafegado, o rio sujo, as pessoas maradas: o meu olhar viciado. 

Valeu pela ciência e pela arte, reconheci o mérito e o belo no impacto do choque. aprendi. 

Valeu porque me perdi em jardins labirínticos mas fiz-me encontrar no ponto de partida. 

Estou exausta mas precisava de saber que era capaz de fazer isto.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

chuva

minha alma adivinhava o inverno e das minhas mãos saiu a chuva
é da noite, a minha chuva, sombria, triste, bonita

nem tudo tem de ser um arco-íris para ser belo.

sábado, 6 de outubro de 2012

mural de amizade

vieram uns quantos e outros se juntaram. dividiram telas, partilharam rolos e pincéis, usaram das mesmas tintas, brincaram, cantaram, inventaram, sujaram-se, lavaram e, no final, os olhos brilharam de orgulho na fotografia à frente das 17 telas de obra feita.

todas, irão compor um mural de cenas escuras, cores brilhantes, árvores, arco-íris, ondas e outros cenários mais ou menos abstratos. grandes, pequenos e assim-assim, quadros de amigos e amizade, feitos em mesas grandes que costumam ser o palco das refeições animadas. 

mais um sonho realizado. 

tudo em mim agradece estas cores que nos foram dedicadas e dou os parabéns, em especial ao criador deste dia, pois todo o processo foi em si,  uma bonita obra de arte.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

dejá vue

uma palavra, às vezes uma frase,
uma expressão
e o dejá vue leva-me, de novo,
para as catacumbas do meu inferno

memórias às vezes, o frio,
a solidão
tolhem o pouco em que  me movo
trazem-me as angústias do inverno

descobrir o poema

Sim, lembro-me
transformavas em poema
coisas que eu escrevia
como agora ...

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

outono

desde que me conheço que prefiro o verão às outras estações. escrevi muitas redações sobre a primavera e as flores e as andorinhas a chegar mas o meu coração palpitava por manhãs de nevoeiro a abrir-se para o sol, cheiros de mar,  de frutas e comboios que um dia me levariam para destinos onde a estação é ainda mais verão.

o verão é a minha paixão. quando vivido intensamente, recebo bem o outono que se segue com cheiro de fruta madura, o aconchego de um colo no sofá, castanhas quentes e até o regresso às rotinas familiares. sempre esperando, no entanto,  um novo verão, pois se se acaba a paixão caio logo no janeiro do meu descontentamento.

Esta noite tive frio, de manhã um arrepio. Soube, então, que mesmo que  temperatura volte a subir nos próximos dias, chegou o outono. Senti-o, serenamente.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

enxaqueca

É a terceira vez seguida que acordo cansada, guio-me pela estrada e arrasto-me pelo dia como posso: agoniada. Apesar do tratamento calar a dor lancinante, tenho o corpo todo inchado e a tempora latejante. Sempre que me apanho sozinha fecho os olhos, pouso a cabeça nas mãos e desejo-me num coma que me apague. O desconforto físico é só uma parte: sinto-me feia por dentro e por fora, antipática, tristonha, murcona. Sei que estou desiquilibrada e vou a pique cair no lado negro da alma, mas não faço nada. Toda a minha energia se concentra  em calar a dor e acalmar o desconforto que faz de mim um monstro.

De cada vez que fecho os olhos, desejo um colo que me conforte, uma mão que comprima esta agonia, mas a noite tarda em chegar, e às vezes esse aconchego nem acontece, passa ao lado, adiado. Outras vezes vem, de mansinho, e eu não consigo mostrar o reconhecimento devido a cada carinho.

Vai passar. Vai voltar.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

muro de lamentações

ouço-te mas tu não queres saber o que penso sobre o que me dizes. ou se já ouvi. por vezes descanso o meu pensamento noutras histórias mais felizes, enquanto falas, outras canso-me. mas tu não; precisas de te ouvir e eu sou o pretexto para não te pores a falar para as paredes. então eu sou parede.

falas, falas, às vezes choras: querias mais. mas não deixo que me transformes num muro de lamentações.

em cada rosto de mulher

há dias em que olho no espelho
e me reconheço. outros não.
nestes, olho o rosto de cada mulher
e adivinho o que não vejo.
em cada rosto de mulher me revejo.
pergunto, a cada rosto de mulher
se foi o que não fui.
em cada rosto me questiono.

evito, então, olhar o espelho
para não ter de enfrentar
o olhar
de mulher sentida

terça-feira, 25 de setembro de 2012

morresse eu hoje

morresse eu hoje,
amanhã aqui estaria o mesmo cheiro.
chorariam uns quantos mas
no lavar do chão outras pessoas viriam.
um dia ninguém estaria por perto
para se lembrar do meu estar.

morresse eu hoje,
amanhã ainda estaria a minha presença
por toda a minha casa.
chorariam, uns quantos tempos.
no lavar da alma outras pessoas viriam
mas lembrar-se-iam sempre do meu olhar.

domingo, 23 de setembro de 2012

setembro


O amarelo conquista a paisagem e o vento de sudoeste declina-o em tons de laranjas e castanhas, que se deixam cair em rituais de vindimas. é tempo de reencontros, de recomeços amadurecidos, de voltar à terra onde se faz a vida. 

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

amiga de todas as meninas

No primeiro dia de escola tive a companhia da minha mãe no caminho que foi curto para tantas recomendações: obedecer à sr.ª professora a  quem deveria tratar por minha senhora, estar com atenção aos trabalhos e brincar só no intervalo, no caso de me fizerem mal não bater, antes dizer  à srª professora, a tal a quem devia chamar minha senhora, ser amiga de todas as meninas (era uma escola só de raparigas), etc. Esta última pareceu-me bem, digna de quem andava já a aprender a doutrina de jesus e mostrava uma tendência para gostar de pessoas muito diferentes umas das outras.

Não tinha muito jeito para brincar com raparigas mas lá aprendi a macaca e a jogar ao elástico e tudo o que então estava na moda na escola centenária. Acabei por ser amiga de todas as meninas, excetuando uma ou outra ranhosa que embirrou comigo (ou eu com ela), e dos meninos que assaltavam o nosso recreio, também.

Contudo, comecei a reparar que algumas amigas que iam lá a casa brincar, no fim da escola, eram tratadas por você e com inhas acrescentadas ao nome próprio, enquanto que outras, entre as quais uma conhecida efetivamente por Sãozinha, eram chamadas de nina a quem se perguntava "tu de quem és"? As primeiras eram convidadas a lanchar, incentivadas a voltar e levavam a algibeira da bata cheia de cumprimentos para os paizinhos, enquanto que outras não passavam do jardim e eram convidadas a irem embora passado pouco tempo de chegarem,  pois as respetivas mães provavelmente estariam à espera delas. Nesses casos eu lanchava sózinha. 


Nunca me responderam satisfatóriamente, as mulheres lá de casa, a propósito disto mas percebi depressa que o princípio era o mesmo de quem afirma convictamente que somos todos iguais mas que quando diz que é muito amiga de alguém, isso significa coisas diferentes consoante as pessoas em questão. Relativamente a uns, quer dizer que se visitam, fazem coisas em conjunto, trocam lembranças nos aniversários. Quanto a outros, significa que se dá muitas roupas usadas e com quem se conversa para lhes dar um estímulo, porque somos muito boas pessoas e somos amigos de todos, pobres e ricos, brancos e pretos.

Por falar nisso, não havia muitas "pessoas de cor" lá na terra quando eu era criança mas tive duas amigas castanhas, quando adolescente. Uma, com quem eu ia todos os dias ao supermercado a seguir ao almoço, era protegida de uma vizinha e não me iam proibir de acompanhar só porque era pretinha, não é verdade? Era referida como uma "jóia" de moça mas nunca foi convidada para lanchar. A outra, amiga em tempo de férias, também era muito boa rapariga, mas nunca me deixaram sair com ela à noite porque enfim, era mais velha, muito vivida ... (tinha a idade de outras com quem eu saía na altura).

Por entre estas e outras, alguma coisa de valor ficou das palavras que sempre me disseram. Não afirmo que sou desprovida de preconceitos e não pretendo ser  amiga de todas as meninas, mas respeito-as.

borboletas no estômago

Sou ansiosa desde que me conheço, tenho mais ansiedade social do que a maioria das pessoas e, contudo, saía-me bem a escondê-la, mesmo que com comportamentos, digamos ... estranhos. preferia passar por antipática ou, pelo contrário, entusiástica, a demonstrar que qualquer coisa me deixava com borboletas no estômago.

Um noite, já casada, fui com umas amigas de liceu a um bar de karaoke, muito na voga, então. A certa altura chamaram o meu nome para o palco: eu gelei. Nunca me furtei a cantar ao pé da família e dos amigos mais chegados mas, assim, publicamente NÃO. E uma delas, que me conhece desde o 1º ano de catequese admirou-se e comentou que me tinham metido ao barulho porque nunca tinham percebido que eu era tímida(!).

Desde essa altura já dancei e abanei maracas num bar de hotel, a acompanhar o musico entertainer. Aí, para além do namorado, ninguém me conhecia, é mais fácil. Estar com desconhecidos pode ter o conforto do grupo de amigos intimos.
Conhecidos é que são uma porra: não nos conhecem bem mas acham que sim, temos que voltar a cruzar-nos com eles mais vezes, são conhecidos de outros que também nos conhecem, fazemos cerimónia uns com os outros, enfim, é desconfortável.

É nestas situações que elas voltam, as borboletas. no estômago, na cabeça, nos pés. E eu já não as escondo tão bem.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

escondi-me dentro de mim

Escondi-me dentro de mim
para que me procurasses,
calei-me na sombra,
à espera que assim
me descobrisses.

Erro meu, que a seu tempo
tentei desenganar.
Dei-me, então, abri e
deixei esvoaçar
pétalas do que sou.

Mas estavam já desbotadas,
gastas no meu esperar
e no cansaço do olhar
com que me conheces
gestos e aromas.

do que desconheces,
não exploras,
pois estás parado na maresia
e não  me reconheces
a essência.


sábado, 15 de setembro de 2012

duas garrafas e muita conversa

Estava uma noite de verão, como poucas por cá. fomos para fora, para o nosso pequeno paraíso, com uns pedaços de pão que transformamos em jantar e acompanhamos com um sabor branco adocicado, bem fresco. O amarelo trémulo das velas mostrou-se à altura da conversa que se iniciou em torno de conceitos de romantismo e acabou no mais pessoal.

Senti que ajustamos expetativas e nos tornamos um pouco mais claros, naquela noite de pouco luar. do que discordamos então, ficou algo a macerar e, se nos incomodamos por sermos mais sinceros, acabamos mais entrelaçados. Senti, depois de duas garrafas de vinho e muita conversa.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

360º

Vi o filme, outro dia, e tenho-me lembrado dele muitas vezes. Mostra um suceder de escolhas que, feitas em determinado momento por uma pessoa, têm repercussões nas vidas de muitas outras até tocar  cada personagem inicial, após encontros e desencontros vários. É também uma história de amores e de traições, umas consumadas físicamente, outras não.

Os efeitos em cadeia mostram-se determinados e não determinantes, nas decisões de cada um e, no final, todos tomam as rédeas à sua vida e mostram-se melhores pessoas do que no início do filme.

Há vidas assim.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

setembros antigos II

Tenho dificuldade em adormecer, inventario de novo o que tenho que levar para o Algarve. Bolas, esqueci-me dos chinelos de praia; levanto-me e ponho-os na mala. Amanhã partimos cedo, eu e os pais. As despedidas por cá estão feitas, os amigos deles já lá estão desde o dia 1.

Fui à praia muitas vezes com os amigos, este verão, ora com uns, ora com outros, consoante as férias que faziam com os pais. Agora que inicia Setembro e todos estão de volta, é a minha vez de ir embora! Fica o namoro morno em banho-maria, quinze dias é muito tempo, se calhar ele já não me vai ligar ... E eu, gostarei dele, ainda? Porque é que estou tão entusiasmada por ir encontrar o Miguel lá em baixo? Tantas dúvidas! Espero um dia apaixonar-me mesmo de verdade e não as ter. E elas (ELAS) o que irão fazer estes dias?

Para mim, serão quinze dias de rotinas que já conheço: Meia-Praia até ao meio-dia; duche; restaurante; esplanada das laranjeiras; sesta; muda de roupa; jantar em casa do arquiteto; passeio noturno a pé; onze e meia regresso aos quartos. O meu costuma ser o que fica virado para a baía, do qual me escapo nos finais da tarde, para vaguear por Lagos. Para a hora da sesta, levo um monte de livros.

Compensar-me-ei da monotonia na água quente daquele mar e no entusiasmo das saídas noturnas, clandestinas, com o pessoal de lá. show me the way to the next wiskhey bar ... ainda faz eco, desde setembro passado.

Lá para dia 20 estarei de volta pra esgotar as novidades nas semanas que ainda teremos antes das aulas começarem. Ah, porra, ia esquecendo o meu rádio, volto a levantar-me para o enfiar na mala. Já quase não tenho tempo para dormir; até logo, férias no Algarve!

domingo, 9 de setembro de 2012

setembros antigos I

Acordei estremunhada, como todos os dias. mas hoje cheira diferente: a cera e a lixívia. Lembro-me: estou em casa! A Rosa e a prima Júlia devem ter vindo preparar tudo ontem, antes de regressarmos. Passamos dois meses na praia onde o ar era uma mistura  boa de cheiro de mar e de linhas do comboio. mas sabe bem estar aqui e assim que a avó fizer torradas, volta tudo ao normal. Corro para ela, descalça, ontem cheguei ensonada, não lhe dei beijinhos que chegue. mal me vê faz aqueles olhos de sorriso, abre os braços e senta-se para que eu lhe salte para o colo. tem as pernas fracas, não pode comigo em pé. além disso, estou muito grande.

Percorro devagarinho cada divisão da casa, levo um ralhete por andar descalça, vais ficar doente! calço-me e vou ver as galinhas, as pombas, os piriquitos. Agora não há coelhinhos. O tanque está cheio, tenho que ir procurar o barco no saco da praia, para o pôr nesta água. Espero que a prima Júlia esvazie o tanque antes de virem os primos, para podermos ir todos lá para dentro brincar.

A mãe quer vestir-me o bibe mas tenho calor, estou habituada a andar de fato de banho e lá era mais fresco. lembro-me dos amigos da praia. alguns virão visitar-nos no Inverno mas o Xano e a Xanda, só os volto a ver para o ano e é deles de quem tenho, já, saudades. Dantes o sr. Reis é que era o meu namorado mas agora é o Xano. Molhei-me toda a chafurdar na água, eu bem te disse para vestires o bibe, agora vais adoecer! 

Se eu ficasse doente de todas as vezes que a mãe ou a mana ameaçam, acho que já tinha morrido, mas, realmente, fico muitas vezes com febre e dores de garganta horríveis. E os primos vêm daqui a uns dias, assim que estiver tudo arrumado, e não quero mesmo adoecer agora.

Na casa da praia não me custa dormir a sesta, deve ser porque que o ar do mar cansa, ouvi dizer, mas aqui não consigo. Deixo-me ficar um bocado quieta, vou brincar com os carrinhos, com as bonecas e com tudo o que não me deixaram levar de férias. Pego em dois livros da Anita e vou enroscar-me na avó que descansa. Como tive saudades dela! Tenho calor e vou lá para fora encavalitar-me no pessegueiro. O ar está quente, doce das uvas e dos figos maduros, espreguiço-me e deixo-me ficar.

Estou contente por estar de volta a esta casa. Daqui a dois dias começa a encher-se de gente, outra vez: os primos de férias até outubro, os tios a virem nos fins de semana, (gosto muito deles que também são meus padrinhos e são brincalhões), velhotas de visita à avó que também esteve fora, os outros primos e as tias que vêm ver televisão...

A avó vai-se fartar de apanhar e comer uvas connosco,  fazer bolos da vaqueiro e pão com manteiga, açucar e canela. A mãe vai voltar a servir a comida em travessas enfeitadas, a mana vai experimentar vestidos, penteados e músicas. E o pai vai chegar a casa a sorrir todos os dias, neste verão que ainda vai durar mais um mês.


sábado, 1 de setembro de 2012

setembro entra de mansino

setembro entra de mansinho, quase sem dar por ele. prolonga-se férias por mais um pouco,
atrasam-se preocupações e rotinas, amanhã é domingo. vai saber bem estar de volta a casa, espolinhar no seu conforto antes de me fazer ao resto do caminho.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

entre pedras de gelo

por entre pedras de gelo surgem  filmes antigos com personagens que admiro, outras que odeio e que, no entanto já fiz.  mas não se trata apenas de uma carreira cinematográfica, é a vida! e a escolha de papéis são as decisões que tomamos, com tudo o que demais desinquietam.

por entre pedras de gelo fazem-se e desfazem-se nós na garganta, disfarçam-se lágrimas salgadas de dores e de alegrias, tudo misturado, num cocktail.

por entre pedras de gelo bebo, mas não para esquecer qualquer desgosto, bebo com gosto.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

com pé na vida

Descanso com um livro na mão, fechei-o para os olhar, dois homens grandes que me enchem de ternura. irmão e marido, brincam com raquetes e maquinas fotográficas sorrindo para mim de quando em vez. Um dedica-se ao filho, o outro dedica-se a nós e à praia. aposto que são lindas, as imagens escolhidas naquela Nikon, terão as cores que sinto. fecho os olhos e continuo a vê-los, no antes e no agora.

Estou quase deitada mas participo em tudo o que fazem, estou ali para eles e para os outros que não vieram hoje, estou estou de pé para a vida. Encho-me do sol daquela beira-mar, entendo a surdina das gaivotas e deixo-me ser feliz no momento.

Tenho pé neste mar.


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

simples

apetece-me adormecer
e acordar no mar alto
sem regresso marcado

acusa e recusa

Zanga-me, dececiona
quando alguém aponta o dedo,
rebaixa, deprecia,
acusa,
recusa
tentar perceber
que se pode pensar
diferente de si,
sem ser menor.

não me quero

não me quero, assim
transtornada
mas sou,
sensível à nortada
que apagou em mim
a chama frágil
de quem
ainda há pouco se perdia
no caminho para casa.

sábado, 18 de agosto de 2012

etiqueta de férias


quando fecho os olhos, estou num final de tarde à beira da água, há uma brisa muito suave com cheiro da maresia que nos envolve. sim, estamos dois, pelo menos. em agosto nunca estamos sós.

quando vejo agosto real,  reparo que cada vez se distancia mais do agosto lembrado, do agosto sonhado. o sol mistura-se com relva em vez de areia e as noites trazem os rumores da televisão.

sonho em ir de malas aviadas para encontros marítimos ou outros cenários, descansar e cansar-me com o desconhecido, sentir saudades de casa e aí voltar com a ambiguidade característica do retomar um novo ano.

faço uma quebra de rotinas que me faz bem, momentos de ar livre que me dão prazer, sestas sem relógio que me tiram do sério, alivio-me de roupa e de tarefas aborrecidas, arrepio-me com brindes gelados, em tudo ponho a etiqueta de férias.

bilhetes de saída

Juntei os escritos destes dias passados, um apontamento aqui, uma nota ali, um pensamento rabiscado na conta do supermercado. Dispersos, não trazidos aqui antes por descontração a que me permiti,  agora os reúno na preguiça deste pedaço de manhã.

Aparecerão a seu tempo, mas por agora divago na diferença de percepção que traduzem sobre mim, sobre ti, sobre eles, correndo todos os pronomes pessoais e impessoais.

Vejo-os, a esses rabiscos das ultimas semanas, como  bilhetes de saída de parques temáticos onde não quero estar .

Sinto-me regressar a mim, virada do avesso, é certo. mas no avesso o tecido está  melhor, menos desbotado, menos poído,  renovado. aparecem as costuras, quais cicatrizes, mas é mesmo assim que saio.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

agosto

agosto traz férias a gosto, amarelos do sol, azuis frescos de mar, ondas de calor, rodelas de verde em copos gelados, vermelhos de melancia no final do dia. agosto lembra areia nos pés, cabelos molhados e barulho do mar. as noites, quentes, trazem o sabor do sal na pele e o cheiro de apaixonados.

outro agosto escalda em searas de trigo que se fazem de amarelos mais loiros. é o agosto de quem nunca foi ao mar ou apenas o conhece de visita.  pessoas que se levantam cedo para os campos e a eles voltam ao entardecer. nas pausas, apreciam a frescura no verde das poucas árvores e das águas dos regatos, riachos e rios que passam, em direção ao mar. férias, talvez mais tarde.

anuncia-se agostos em cartazes de monumentos longínquos e de tentações em piscinas de hotel com uma mão cheia de estrelas. é o agosto de poucos, de cada vez menos.

tenho agosto dos que ficam e  no seu sítio se entregam às férias, saindo para livros novos, chamando amigos para petiscos de verão, entrando no fresco de uma cerveja gelada, permitindo-se um desvario aqui, outro acolá. anda-se descalço na relva e, ás vezes, vai-se ao encontro da maresia.

e há o agosto dos que simplesmente ficam. sentados, quase ansiando para que os dias passem depressa, é o agosto dos que nunca conheceram o prazer e apenas conhecem a vida de visita. molham os pés numa bacia, dentro de casa, e despejam a água sem imaginar que, essa sim, chegará ao mar.


quinta-feira, 2 de agosto de 2012

compras

Fomos às compras, nós duas. Fartámo-nos sempre de fazer compras, quer seja na baixa ou nos centros comerciais. Entramos em tudo o que é loja, miramos, mexemos no que nos chama a atenção, trocamos impressões ou disfarçamos risos, perguntamos se tem maior, mais pequeno ou doutra cor, saímos e abalamos rumo à loja seguinte. Ocasionalmente lá compramos alguma coisa, mas muitas vezes voltamos a casa sem mais novidades do que as que vimos. São compras de olho, como ela diz. Fazem-nos bem pelo arejo, pela companhia, pela cumplicidade de amigas partilhada entre as blusas da Zara e os livros da Bertrand.

Ontem alargamos os horizontes a uma grande loja, eu fiz questão de empurrar o carrinho das compras e ela armou-se em patroa. Logo deu com uma criada desbocada e trocamos meia-duzia de galhardetes que envolviam fraldas descartáveis. Nem nos esforçamos por conter os risos, qual de nós se importava com o que pensavam os demais clientes no corredor das batatas fritas?

Desta vez compramos mesmo, duas mulheres contentes  com um verniz das unhas e uns ganchos para o cabelo. Ah, e frango para o jantar, que se antecipava animado porque estariam todos à mesa.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

pequenas coisas, em agosto

Entrou agosto na minha vida, carregando um desgosto maior que em agosto algum, alguma vez imaginei. Há desgostos certos na vida, já os conheço, outros acreditamos que nos serão alheios. Mas não. Abalam-nos irremediavelmente, o que quer que façamos depois, eles lá estão. Então há que escolher: matar e morrer ou viver com eles. Decidi viver. Deixo que o tempo seja meu aliado, a memória retrata as coisas de forma diferente, melhor, se nos permitirmos.

Parei de procurar ser feliz. Nessa busca do Santo Graal deixamos passar ao lado pequenas coisas que nos fazem felizes, que nos fazem estarmos felizes. E eu escolho estar feliz muitas vezes, certa de que me acharei miserável noutras.

Deixei de ter a pretensão de querer fazer os outros felizes. Tudo farei para que, aqueles que estiverem ao meu alcance, estejam felizes muitas vezes. Não o estarão sempre, aceito. Por muito que os ame, que os estime, não tenho o dom de fadar. Apenas tenho o poder da magia de pequenas coisas. ou grandes, por vezes.

Lembro, agora, gostos de agostos passados.

O cheiro a mar, a creme Nivea e a caminhos de ferro. Pão com manteiga aquecida no sol, batatas fritas "olha a batatinha", bolacha americana da sr.ª Ana. As primeiras braçadas pelos braços da mãe e depois juntas, a nadar. O pai caminhando na areia e os astronautas na lua, a dar na televisão.

O jogo do prego, gelados  e amores de praia. Amizades de noites quentes e bebidas frescas, danças da moda ou um violão.

Telefonemas desejados, visitas ansiadas, beijos enamorados. Um abraço antecipando um enlace, sôfrego de paixão. Duas mochilas, uma tenda, muitos risos e uns enlatados. Barrigas grandes de amor, vida e emoção. Pés pequeninos na areia à descoberta do verão.
Quatro mochilas, duas tendas, um pôr-de-sol e passos dados.

Um poema chamando-me para a vida, outro chamado pequenas coisas.



terça-feira, 31 de julho de 2012

eu gosto é do verão

Eu gosto é do verão,
de passearmos de prancha na mão
(..... )
e ao fim do dia, bem abraçados, 
a ver o pôr-do-sol, 
patrocinados
por uma bebida qualquer

acabei de  ouvir esta música e, como sempre, lembrei-me de ti, amigo. era lindo o sorriso com que cantavas o refrão e, nesse jeito de gozo, nos dizias que, também tu, gostavas do verão.

sempre respeitei a tua decisão, agora consigo compreendê-la.

Saudades

magnífica

Levanto-me para o último dia de Julho. tal como esperava, foi um mês difícil. conflituoso, cansado.

esforcei-me por estar à altura das exigências do trabalho, quase que o consegui. mas a energia aplicada foi demais e falhou-me depois: voltei a trocar palavras duma forma assustadora, não me concentro nas tarefas, perigosa demais na condução, desoriento-me no espaço e acentuou-se a descoordenação motora. Assusta-me.

tenho uma força de vontade férrea para sair da minha zona de conforto, ou seja, a minha cama, mas não consigo controlar as lágrimas que teimam em soltar-se onde quer que seja, à frente de quem quer que seja. Assusta-me esta falta de controle de mim mesma.

ontem zanguei-me. não tive pena de mim, não tive pena de ninguém. Não está certo e pronto. também não fiquei desesperada por se zangarem comigo.

tenho desperdiçado tanto  tempo. tempo, do qual tenho consciência ser precioso. Mas quanto mais penso nisso mais desperdiço. e fico sem força pra fazer diferente no momento seguinte. talvez não seja tempo desperdiçado, disseram-me. Pois desperdiçado será o que deixar escorregar por entre os dedos a partir de agora.

termina julho e eu cansada, assustada, cheia de medos e receios. sinto-me só nesta cruzada de me vencer a mim própria. mas, olhando para trás, vejo a distância que percorri e sinto um certo orgulho.

continuarei a ter altos e baixos em agosto. se calhar sempre. quem aguentar as descidas, levará também o melhor de mim no topo. Quando lá estou, sou magnífica.


segunda-feira, 30 de julho de 2012

história breve

Chegou de mansinho, quando deu por eles já ele lá estava. deu muito, pediu pouco. ela pouco pediu, deu o que pode. e cada um teve o que teve. nunca lhe fechou a porta, nem para entrar, nem para a prender. e aberta ficou, se quisesse voltar.

o teu olhar

teu olhar não descansa nos meus olhos
porque tu sabes
que do que a tua boca cala
passa muito no teu olhar

não sei ler para além da ponta da emoção
sei quando olhas brilhante, mostrando uma alma feliz
meço a raiva com que fuzilas os maus
reconheço a meiguice de quem olha com amor
vejo a tristeza e a nostalgia no olhar baço, perdido
que agora evitas poisar em mim
para que não te leia o pesar

medo das férias

Aproximam-se as tão e por todos desejadas férias. de que eu necessito tanto, tanto. mas tenho medo, desta vez. medo de mim. sem a obrigação de me levantar e arranjar para sair de casa. sem ter um rumo já traçado para onde virar o carro. tenho medo de me saturar dos cantos da casa que é o meu lar, do páteo que adoro, da água que bebo. medo de que se cansem de mim. medo que me dececionem.

Fico por conta própria, face a face com as minhas cenas maradas. É com elas que tenho que enfrentar todos esses medos: uns dias vou conseguir, outros não. é melhor preparar-me e ter rimel à prova de água. tenho conseguido domar as feras da minha inquietação mas há coisas em mim que não consigo controlar. é o que mais me assusta e é difícil aprender a viver com isso. tão ansiosa torno-me asfixiante, tão vacilante pareço uma ponte insegura.

Mas até as pontes inseguras precisam de férias. mesmo que tenham medo delas.

terça-feira, 24 de julho de 2012

um conto de fadas sem fadas

Era uma vez uma princesa chamada Encantada. Como todas as princesas dos contos, tinha um príncipe encantador: chamava-se Divino e tinha vindo de um reino vizinho. Mas o príncipe andava muito ocupado, a lutar em várias batalhas. Ganhava-as todas, menos a de a conquistar. Não que estivesse em causa o seu coração, Encantada tinha-lho dedicado desde que se conhece princesa, no tempo em que tinham sido muito felizes.  mas a vida das princesas, tal como a das outras pessoas, dá voltas e reviravoltas e, no meio das revoltas, Encantada deu por si sozinha, perdida e achada numa torre do castelo que tinham mandado construir.

Divino aparecia de vez em quando, no meio das suas batalhas, dizia que a amava mas não lhe sustentava o olhar. e partia novamente, com o pensamento, para qualquer outro lugar.

Encantada não podia sair pela porta, onde a esperavam enormes dragões. Também não sairia pelo balcões, pois maquiavélicas serpentes aguardavam que estivesse em baixo para a envenenar. Então, lançava cordas de lençóis, mandava trinados pelos pássaros, atirava perfumes pelas flores, gritava no vento, chorava na chuva, brilhava no sol. mas Divino andava mesmo nas nuvens. e não chegava para a resgatar.

Não valia a pena chamar as fadas, essas só serviriam para os cegar ainda mais com os seus brilhos de mágicas. a princesa teria que desencantar o seu encantamento e Divino havia de a encontrar.

Como todos os contos de princesas, este tem um final feliz. Se lá não chegamos, ainda, é porque a história não acabou.




quarta-feira, 18 de julho de 2012

no jardim, sem luar

corre um aragem ténue, uma brisa do campo, por cima da relva, arrefecendo um pouco o corpo suado de calor e desejo. solto o pensamento e deixo-o partir para trás daqueles montes, serpenteando obstáculos, circulando, alongando-se. sinto-me orgulhosa do meu dia, dos feitos que consegui, desvalorizando o que se amontoa pelos cantos, à minha espera. mas a solidão arrasta a nostalgia e no pensar entrelaçam-se lembranças e projetos, desilusões e promessas, olhares  e sorrisos. solta-se a lágrima, quente, salgada, queima os lábios desta boca calada.

liga-se a rega, refresca e traz-me o cheiro da terra molhada deste jardim que é, agora, só meu. e eu, que nem o queria, que teria preferido outros regalos, nele me perco e nele me encontro, faz parte do meu dia. e destas noites. nele me embalo até adormecer.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

noites quentes

Está uma noite quente, como eu gosto. lembro noites quentes em que toda a família dormia na varanda do quarto dos pais. lembro noites quentes imaginadas nos braços de um amor que chegaria para me levar para um mundo distante, mágico. lembro noites escaldantes, o filme. lembro outras noites escaldantes. lembro esplanadas, passeios de mãos dadas. lembro também noites abandonadas. noites quentes passadas como outras noites quaisquer, acorrentadas.

Sonho agora com noites cá fora, neste mesmo baloiço, mas estaremos dois. de mãos dadas e beijos que não se fazem rogados. beijos de verão, apaixonados. sonho com noites mais quentes ainda, sem esta aragem, só um calor que me leva a procurar mais calor, num qualquer hotel num sul latino. Imagino sedes saciada com sabores adocicados, euforias de ritmo, explosões.

Vou procurar a música, nas noites quentes deste verão, quem sabe dançar descalça ou ouvir, apenas, com o coração. vou em busca das magias de mundos  diferentes, se as encontrar será nas noites quentes. Virão?

sábado, 14 de julho de 2012

as minhas cores

Comecei em leques de verde. verde dum chão de relva, verde do meu olhar, verde da esperança, verde das estações quentes, verde amarelo, verde azulado, verde. Chamei o mar com os azuis esverdeados e logo se colou o céu com azulados de cristais. Misturei azuis apaixonados. Então, pôs-se o sol em matizes de amarelo e vermelho de fogo. Finalmente, salpiquei o meu mundo de terra, em tons de areia.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

há, de haver

Há um vestido que finalmente foi à lavandaria. Há um casaco de homem que o acompanhou. Há decisões que se tomam. Há contas que se saldam. Há pesadelos de que se acorda. Há sonhos partilhados. Há um adormecer acarinhado. Há uma família a fazer-se.  Há emoção que se confessa. Há um  presente com tempo. Há amor. Há amizade. Há paixão. 

Há vida em mim.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

siestas

Nunca antes fui mulher de madrugadas, ver o nascer do sol decorria de uma noite de folia, seguido do adormecer. Agora acorda-me a aurora e é com a sensação de pouco dormida que começo o dia.

Estará na altura de adotar a sesta mas não vislumbro tão cedo rumar a vida para sul, onde esse hábito é sinónimo de qualidade de vida e não de preguiça, velhice ou doença.

Gosto das siestas de Gabriel Garcia Marquez, aliás alimentam algumas das minhas fantasias antigas ... mas isso fica para outro dia.

domingo, 8 de julho de 2012

dia de festa na aldeia

Foi uma semana pouco descansada, para sábado tínhamos planos de fora, domingo seria o dia de descanso. Assim começou, dois virados para o jardim no conforto de um canto de lar, enquanto a rapaziada dormia até ser hora da mesa.  À tarde fui em busca de sol, cheiros e sons de jardim mas, hoje,  a voz dos dos passarinhos, fregueses das nossa árvores, era abafada pela música da festa da aldeia.

Vim para dentro ao fim de pouco tempo e fechei as janelas, congratulando-me, mais uma vez, pela qualidade dos vidros duplos.

Nos próximos tempos, será assim. Se não há festa na nossa aldeia, haverá na outra ou naquela mais além. E o repertório será o mesmo, não se vislumbrando descobrir "quem é o pai da criança", cujo desconhecimento de identidade parece ser o mais apregoado nos arraiais.

Não sou contra festas populares, dêem-me um S. João e par que dance, que eu até marcho e bailarico. Mas é um martírio, este programa todos os fins de semana de senhoras da saúde, do rosário e das dores. E duvido que nossa senhora goste destas músicas.

planos furados

Ontem, o sábado planeado virou-se do avesso. Agarramos esse pano virado ao contrário e pintamos a manta. Mais tarde, a chuva cedeu lugar a uma bonita luz, coada pela cortina da nossa janela.

julho amornado

entre  julho recordado e  julho projetado,
vai este julho amornado.
vai cansado.

quero sentir julho à noite refrescado,
quero ver julho animado,
fazer julho conversado.

logo chega agosto e julho será passado!

naquele bocadinho


naquele bocadinho
em que ficamos depois
ter-te-ia dado a lua
e dois ou tres sóis

era o que quisesses
era o que pedisses
ter-te-ia dado

naquele bocadinho
em que ficamos os dois

sexta-feira, 6 de julho de 2012

tenho raízes e asas

Espreitava o sol nesta manhã cinza e eu, sem saber porquê, carreguei um mau presságio que me entontecia a razão. Já tinha experimentado estas sensações anteriormente e nunca tinham sido em vão. Contudo, ignorei e fiz planos.

Mas visitaram-me poemas passados, não permitidos, e reabriram feridas na alma. ainda fazem dano e tomo, então, a decisão de lhes fechar a porta, definitivamente. tenho agora uma boa oportunidade para tal, sem ter que dar explicações.

Não posso ir ao mar de cada vez que quero lavar a alma e o rio, esse já não me acalma.

Serenou-me a água de cada lágrima temperada de sal e mágoa. Não gosto de mim como estou mas conheço o meu sou e tento dar-lhe espaço para crescer, depois de podado. Tenho raízes e asas, posso procurar o sol e a chuva.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

cinzas de verão

está cinzento no meu jardim e na minha alma. mas há pinceladas de amarelo neste cinzento, os verdes das arvores impõe-se e as flores, mais pequenas, chamam a minha atenção. são cinzas de verão, este quadro que eu vejo, esta vida que eu sinto.

domingo, 1 de julho de 2012

julho

Hoje o mar falou alto, o vento abanou-me e o sol amoleceu-me.
Tirei retratos de momentos; não ficaram tremidos, tal como temia.

sábado, 30 de junho de 2012

amigas de sempre

Já não a via há 6 ou 7 anos. Apareci-lhe de surpresa, agarrou-me num abraço e chorou. choramos. de alegria, de saudade, do afirmar de uma amizade. Os olhos dos próximos também se humedeceram, contentes por nos terem proporcionado aquele momento feliz.

Já não há via há 16 ou 17 anos, falamos por telefone uma vez, no entretanto. Foi surpresa para as duas, o encontro que se precipitou num abraço e soltamos um grito, uma espécie de uivo animal de reconhecimento.

Já não estávamos há muito, amigas que partilharam o dia-a-dia durante dois anos e alguns fins de semana por mais outro. Começamos por nos admirar mutuamente, como profissionais competentes, o resto surgiu pelos sentires. Não se sabe bem como começaram estas amizades, sabemos que ainda são.

Uma acolheu-me na sua família, deu um calor de lar à minha solidão e eu entrei como a irmã que não teve.  Então foram conversas de serão, foram risos, foram choros, foi a bébé, entretanto nascida, no meu colo de tia. A outra, irmã de mais sete, passava a semana, tal como eu, sozinha numa cidade onde não havia espaço para gargalhadas brotadas do coração. Demo-nos, primeiro no caminho de regresso a casa, depois em fins de tarde prolongados de alegria de viver.

Sem lamentações pelas ausências, contamos coisas do tempo em que estivemos fora, como se de semanas se tratasse: os filhos que cresceram e o rumo que tomaram, os familiares que morreram, as casa e as vidas que se reconstruíram, de tudo falamos como se  não houvesse longes. E rimos, rimos tanto, com vontade, com a alma toda!

São assim, as amigas de sempre.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

férias

Frase batida, banal, sinto-a entranhar até aos ossos: preciso de férias! Férias de Verão!

Não é só não ir ao trabalho; é deixar de acordar nos mesmos tetos, de ver a mesma paisagem, de usar os mesmos objetos. Férias é sentir outros cheiros, saborear outros temperos, tomar outras estradas, dar as mãos noutras esplanadas. É beijar noutras águas, embalar noutros ventos, fazer amor noutras camas. É gostar de partir e gostar de voltar. E no entretanto admirar, apreciar, amar cada momento e em cada momento. Parece-me que, afinal, preciso de uma lua-de-mel!

este verão

Vai ser dificil, este verão.

Chega com ares de trovoada, inquieta-nos.
não nos deixa ver claro, com tanta luz.
faz-nos querer estar onde não estamos.

Como continuará, depende
da nossa vontade
da nossa força de vontade
em viver verão
e das verdades
do nosso coração.

Se levarmos a felicidade
por diante do outono
terá sido um bom verão.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

vou em frente

o corpo pede cama
a cabeça, almofada
escuro e silêncio.
então fico deitada

mas tenho medo:
quanto mais sossegada,
mais retrocedo
na estrada minada.

contrario piratas do pensamento
sem grande força, sem alento
mas penso em nós, no momento

penso em nós dois, quatro, a gente
lembro sorrisos de agora, contente.
E porra pra mim se não vou em frente.


almoço breve

foi breve o nosso almoço,
foi leve o nosso abraço,
mas o sorriso que trouxeste,
ainda o tenho no regaço

segunda-feira, 25 de junho de 2012

a rede

Tenho ouvido, da boca de outros, palavras que eu costumava dizer-lhes. Vêm de pessoas que outrora se irritavam quando era eu a proferi-las. que as depreciavam ou que as ignoravam. Precisaram de as ouvir de outras bocas, para as validar. E agora repetem-mas.

Ouço-me repetir a outros as palavras que não me digo e que julgava desgastadas.

Não são palavras ocas, vãs. de uns para outros, estas palavras fazem uma rede que nos dá  algum equilíbrio. E, se porventura cairmos a rede está lá. não nos magoamos tanto, não nos deixamos morrer.

domingo, 24 de junho de 2012

lutos

Há vários tipos de luto, surgiu em conversa. pensei nisso. há lutos que já fiz.

Os mais difíceis são aqueles em que não há rituais que ajudem a chorar e andar.  não se partilha os marcos do tempo, ninguém nos consola. não são lutos de mortes físicas, são antes perdas que nem se sabe quando e como começaram. compreendemos mas não aceitamos, queremos seguir mas há baraços a atrasar-nos os passos.

 E o tempo, nestas situações, é mais traiçoeiro: leva e traz.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

chega o verão

Hoje faria anos. mas já não faz. Desde sempre, esta data tinha um duplo e feliz significado para mim: o seu aniversário, em que aproveitava para o mimar de forma especial, e o começo do verão, a minha estação preferida. Curiosamente, a sua mãe tinha nascido no dia em que começa a primavera mas essa coincidência entre aniversários e estações do ano não continuou pela família.

Ambos tiveram vidas grandes, sempre muito amados e respeitados. Venceram a custa de muito trabalho, tendo como estandarte a honra e a honestidade. De olhares e sorrisos parecidos, tinham aquela cumplicidade de terem vivido só os dois muitos anos,  o que eu tanto admirava mas que era alvo de ciúme, tanto por parte do pai como da mulher.

A mãe, mulher de várias profissões, tinha mais pelo na venta. ele precisava mesmo que lhe chegasse a mostarda ao nariz para se virar do avesso.

Ambos sofreram e morreram com a mesma doença, aproximadamente com a mesma idade. Mãe e filho, avó e pai, as ultimas imagens que tenho dos seus rostos quase se sobrepõem. Acho que gostariam de saber disso.

Agora, março apenas traz a primavera, e na data de hoje apenas festejo a chegada do verão. mas haverá sempre um carinho a afagar estas manhãs.

Chega o verão,
estação do sol e do cheiro a mar, do cheiro dos caminhos de ferro e do chão quente na sola dos pés. verão das tardes longas e das noites quentes. verão de viagens e de bebidas frescas numa varanda qualquer.

Chega a estação quente.
dos romances de verão, intensos mas efémeros.  dos romances antigos, cúmplices, confortáveis, que se intensificam no calor das mãos dadas numa vida a dois. dos amores renascidos que em que a paixão dos primeiros ilumina o amor terno dos segundos.

Chega o verão. de todos os que o querem.

domingo, 17 de junho de 2012

saudades bonitas

Penso em ti, no teu último suspiro, um ano atrás a esta hora.

Estou com a mãe, caminhamos, falamos de ti e da saudade. Ela chora, abraça-me, fala, fala, sabes como é... De repente deixo de a ouvir. e vêem-me à memória saudades bonitas.

Aquela vez, tinha eu poucos anos e mania que era grande, tentei saltar do muro por cima dos arbustos e "aterrei" mesmo no meio de uma roseira maior do que eu. Era difícil deslocar-me dali sem me espetar ainda mais e eu, assustada com a gritaria à minha volta, nem me atrevia a chorar. Acocoraste-te, falaste-me baixinho, asseguraste que iria doer um bocadinho mas que ia tudo correr bem. continuaste a falar, já nem me lembro de quê, só o tom da tua voz era importante... tiraste-me com jeitinho do meio das rosas, deitaste-me na relva, mandaste firmemente toda a gente para dentro e, com uma pinça, retiraste todos os espinhos da minha pele e da minha alma. Ias soprando para aliviar a dor e no final riste-te e eu chorava e ria ao mesmo tempo, dorida mas aliviada, feliz.

Não sei porque me lembrei disto gora, não será por acaso.

Atolei-me outra vez no meio dos picos e estou a sair, com jeitinho. Vou retirando um a um, uns estão mais encravados, mais fundos, mas a tua voz recorda-me que dói um bocadinho mas tudo vai correr bem.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

canja de galinha da avó

Cresci num mundo em que as pessoas tinham uma ou duas avós que eram uma espécie de feiticeiras com poção mágica secreta e tudo. Curavam todos os males: dentes a nascer, constipações, birras, desfeitas de amigos, desgostos de amor, dores de barriga, dores da alma. Não havia nada que uma canja de galinha da avó não curasse.

Tive a sorte de ter duas avós adeptas dessa magia, cada qual com a sua poção secreta. Uma tinha uma receita de aldeia que sabia maravilhosamente a galinha e a fumo. A outra fazia uma canja que sabia a galinha de casa, reconfortante. as duas poções eram feitas com muito carinho para quem se destinava. era o ingrediente mágico, o que curava e consolava.

Não tentasse alguém fazer mal aos seus petizes, aquelas duas eram capazes de feitiços menos gostosos contra os ofensores ...

Mas aquelas canjas! era mesmo uma que me apetecia agora. para me consolar...

quinta-feira, 14 de junho de 2012

O último aniversário

Faltava menos de uma semana para o que pensávamos ser o teu derradeiro aniversario. Eram entradas e saidas do hospital, era controlar isto, equilibrar aquilo, mas ninguém desistia.

Combinamos que eu voltaria na sexta-feira e ficava até ao dia de anos. Na quarta fui arranjar-me, cabelo, unhas, algumas compras, sabia que depois não haveria tempo para essas coisas. Já na rua, vi que tinha uma chamada não atendida da tia. Gelei. Procurei um lugar para me sentar na galeria comercial e ali fiquei tempos infinitos, quieta, sozinha, sem retribuir a chamada. Depois, fui para casa e pintei as unhas dos pés de vermelho, assim contrariando o luto eminente.

Nessa noite planeamos procurar ajuda profissional para casa, em vez de te internar. Na noite seguinte sonhei com a avó que sorridente prometia acolher-te. E tu não pudeste esperar, morreste na sexta, sózinho, no hospital, umas horas antes de nós chegarmos.

A despedida, tínhamos feito com troca e meia de palavras e uma entrega de olhares, na semana anterior, numa tarde em que conseguimos ficar só os dois. Acabamos serenos, de mãos dadas no sofá,  com a certeza de um amor de toda a vida.

Fui ao teu funeral com as unhas pintadas de vermelho, os sapatos taparam, a minha alma não se importou e a tua também não, estou certa. Há coisas que perderam a importância perante o desgosto de ficar sem ti.

Na terça-feira farias anos, afinal o último aniversário tinha sido um ano antes. Ainda bem que, na altura, não o sabíamos.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Valeu a pena

Entraste de novo naquele hospital que odiavas. No outro davam-te esperança, neste pressentias a morte a acercar-se de ti, cada vez mais perto. Seria ali que morrerias. Fui contigo, só podia ficar mais um pouco. mas tu tinhas dores, estavas inquieto, assustado. beijei-te como a um menino, dei-te a mão até a morfina fazer efeito mas tu não paravas de perguntar pela tua raínha. Pedi para a deixarem tomar o meu lugar, fizeram melhor: chamaram-na também. e tu, assim que a viste, levantaste a mão num aceno, olhaste-me sorrindo e deixaste-te, só então, adormecer.

Disseram-me que era preciso tomar decisões, prolongar a tua agonia ou apenas palear as dores. Aguardei a chamada do hospital ponderando sozinha o que ninguém deveria ser chamado a decidir. Veio o teu sobrinho dar-me colo no meu desespero e amparar-te se saísses, teu genro pôs-se a caminho.

Nesse dia reagiste bem ao tratamento e, com as dores acalmadas trouxemos-te para casa sem mais questões da parte dos médicos. Já da tua parte surgiu a questão pronta: onde vamos jantar hoje? Dececionou-te não poder ir jantar fora pelo adiantado da hora, mas respondeste, assim, a todas as nossas dúvidas. Valeu a pena.

Uns dias mais tarde, ainda foste almoçar fora e ver o mar.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

desassossego de pessoa

Um dos melhores na arte da poesia ficou também conhecido pela sua labilidade emocional. deprimido? bipolar? psicótico? multipla personalidade? não se sabe ao certo, nem interessa.

Felizmente que a poesia é o que se sobrepõe, quando de Pessoa se fala. sem o resto, não se teria revelado o génio.

FERNANDO PESSOA, in O LIVRO DO DESASSOSSEGO (excerto)

Não compreendo o meu espírito - como através dele compreender?
Não possuímos nem o corpo nem uma verdade - nem sequer uma ilusão. Somos fantasmas de mentiras, sombras de ilusões, e a nossa vida é oca por fora e por dentro.
Conhece alguém as fronteiras à sua alma, para que possa dizer - eu sou eu?
Mas sei que o que eu sinto, sinto-o eu.
Quando outrem possui esse corpo, possui nele o mesmo que eu? Não. Possui outra sensação.
Possuímos nós alguma coisa? Se nós não sabemos o que somos, como sabemos nós o que possuímos?

Não encontro melhores palavras para descrever o desassossego que de tempos a tempos me assombra.

sábado, 9 de junho de 2012

aniversários

Encontramos o nosso amor e damos um abraço para a vida. Todos os meses desde então, naquele dia do mês, sentimos um carinho no calendário e no coração. O primeiro aniversário é vivido com uma tal intensidade! são também assinaladas ternamente aquelas datas em que pela primeira vez fomos um: o primeiro beijo, o aniversário de cada um, a primeira vez que nos entregamos por inteiro quando fizemos amor, o primeiro natal ...

De cada filho que temos, contamos os dias até ao primeiro mês, as semanas até aos dois meses e todos os meses até ao primeiro aniversário, vivido com a máxima emoção: o primeiro bolo, a primeira vela, a primeira prenda de anos ... no meio, o primeiro natal, o primeiro carnaval, as primeiras férias na praia.

Morre um querido. Contamos os dias de dor até à primeira semana, as semanas até ao primeiro mês e depois todos os meses, aquele dia. Vem o primeiro aniversário que já não conta, o primeiro dos nossos em que não nos canta, o primeiro natal sem ele, a primeira páscoa ...
E, tal como os primeiros aniversários transbordam de emoções, também a marca do primeiro ano sobre a morte as intensifica.

Quando se aproxima,  desassossega-se a angústia que tentamos combater todo este tempo,  reforça-se o vazio deixado em tantos lados, soltam-se as lágrimas em correntes anteriormente controladas, é a tristeza que transborda, é a saudade que se faz mais.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

chuvas de verão

pingas ruidosas caem no chão,
águas grossas e mornas
libertam o cheiro da terra molhada,
antecipam no ar a trovoada
e ateiam o fogo da paixão
nos corpos namorados

chuvas de verão
incendeiam o coração

segunda-feira, 28 de maio de 2012

um ano

Lembrei-me de mim, um ano atrás. Como estou diferente! Muita coisa aconteceu num ano! 

Acontece sempre muita coisa num  ano. Neste, foi a profundidade de vários acontecimentos que marcou a diferença, que exigiu de mim muita coragem, força, sabedoria... Para tudo houve remédio menos para a morte.

Neste entretanto de meses, abalou-se a minha segurança, minou-se a confiança, em mim e nos outros, perdeu-se uma certa ingenuidade. Estou a aprender a viver com tudo isso e voltar a deixar acontecer momentos de felicidade que, sei agora, não é um estado de vida.

Hoje, doeu-me a falta de uma voz, magoou-me a dor de outra, mas as vozes que me rodearam falaram doçuras e cantaram bem alto amor e amizade.

Chorei amargos passados mas agarrei o que hoje me oferecem e, em vários momentos senti-me feliz.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

águas

Hoje fui ao rio. Mas o rio já não me sossega. Já não é só de amores de que me falam as suas águas. Serenas, confrontam-me com a ingenuidade perpetuada da rapariga que chegou há 30 anos, com a solidão mal disfarçada e com as minhas fraquezas.
O que o rio leva não volta, vai com as suas águas.  E as águas que hoje passam não são mais as mesmas de ontem.

Hoje preciso da revolta do mar do norte, para com o barulhar das ondas abafar os gritos do meu pensamento, para salpicar de sal o meu destempero. Dizem que o que tiram ao mar, o mar vem buscar. Mas o que o mar leva,  o mar devolve, se soubermos procurar. Vai e vem, revisita-nos, as suas águas renovam-se.

Imagino o mar por detrás das minhas serras verdes, onde agora o sol se prepara para ceder lugar à noite.

Vou também lavar o cheiro do dia para  que a noite me encontre uma pessoa melhor.

domingo, 20 de maio de 2012

dias que passam são horas que vão

Dias que passam são horas que vão. Algumas voltam na memória: umas na saudade e afagam-nos o sentir, outras trazem ondas da dor com que as vivemos outrora. Muitas horas permanecem esquecidas enquanto não lhe atribuímos significado. Voltarão ou não.

Nessas memórias assenta muito do que vivemos hoje. Contudo, se ficamos parados nelas, o presente também será esquecido pois não há espaço para o que teria significado mais tarde. Não deixamos acontecer o momento, não fazemos o momento.

É ao vivermos bem, hoje, que fazemos um futuro melhor: uma vida cheia de momentos que têm importância e sentido.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

bom tempo

Anunciava-se o bom tempo e preparei o corpo para ele. Chegou e calcei as sandálias desnudando os pés, desejosos de se expor a um mundo de cores quentes. Mas não mostro a alma, ainda cansada de tanta invernia. Essa ainda está insegura, à procura do seu lugar neste corpo que me foge ao juízo.

terça-feira, 8 de maio de 2012

quero fugir por amor

Quero fugir. Não sei bem de quê, não sei bem pra onde. Mas sinto uma vontade, uma necessidade mesmo, do meu cavaleiro me raptar do castelo inseguro e cinzento que ergui, para fugir comigo. Por amor.

Traria um ramo de rosas vermelhas, cor da paixão, e, uma a uma, íamos deixando cair no caminho, para encontrarmos o regresso, quando quisessemos. E havíamos de querer voltar.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Vó M

Quando me conheci já fazia parte do meu dia o teu elegante porte preto de falas meigas. Tinhas nas mãos o mimo que o teu coração gerava e que chegava para todos oito, amavas quem se deixava amar de uma forma especial: um porque era o mais velho e ajuizado, uma porque era a mais doce e frágil, outra porque era a mais carente e infeliz, um porque era o mais castiço e irresponsável, outro porque mais te derretia em meiguices e atenções, um porque era o mais travesso e divertido, outro porque era o mais pequeno e amuado. Quanto a mim, era aquela em quem mais te revias e projetavas.

Adorávamos ir em ranchada para o teu quarto, abria-se o gavetão de baixo da tua cómoda e lá convivíamos com as fotografias de familiares que estavam no céu ou no Brasil. Para nós, pequenos, ambos ficavam para os mesmos lados, depois do mar. Sentada na cama, com todos à volta, encantavas-nos com histórias contadas com timbre de canção e  cantavas com a nostalgia do Fado. A tua interpretação da Samaritana emudecia-nos pela magnitude da voz e do sentimento. Só quando a ouvíamos nos lembrávamos que também tu podias ter motivos para estar infeliz. Mas até isso fazia bonitas as tuas canções e os nossos momentos.

Eu tinha o privilégio de acordar com o som da tua voz e adormecer com o carinho da tua mão. Olhavas-me todos os dias cheia de ternura e orgulho,  com o teu jeito lindo, sereno mas vivo, e eu deixava que me amasses como sendo tua filha duas vezes.

Havia ocasiões em que tinha de fazer de adulta quando deveria ser (e era) criança, frequentemente as altas expetativas a meu respeito traziam-me criticas quando merecia elogios, outras vezes mulheres mal-amadas competiam pelo amor que me era destinado. Sempre estiveste atenta nessas situações, oferecendo-me o teu colo, onde havia amor e justiça. Quando adoecia, lá estavas sentada na beira cama sem dramas, combatendo febre e infeções com histórias da carochinha, cantigas do gato preto, pico-pico-sardanico, cartadas de burro ou de bisca. E quando eu ia à rua, vinhas dar uma mirada final na toilette, sorrindo no até logo.

Choramos juntas, longe dos outros, por sair daquela que foi a casa da infância de todos. Parte de nós ficou no pessegueiro em que eu andava a cavalo, nos cedros de que tanto gostavas, no tanque do nosso talho de couves, no corredor do "minha mãe dá licença". Os azulejos modernos e o envernizado do chão da casa nova não compensaram a falta de recantos e encantos que ficaram para trás.

Escapava-te muito das notícias da TV ou do jornal mas compreendias a evolução dos nossos mundos melhor do que muitos dos mais novos e letrados.  Percebias e explicavas os meus avanços adolescentes, tornando mais benevolente o olhar paterno. Revivias na minha rebeldia a tua juventude e encorajavas a minha irreverência, sem contudo me poupares à critica sincera, quando merecida. Quando saí de casa, rejubilavas com os fins de semana em que aparecia e depois, era num sorriso que levantavas a mão para o adeus. Um domingo, como em tantos outros, despedimo-nos ao cimo das escadas e senti o impulso de voltar atrás para mais um beijo e para o que seria o nosso último abraço.

Pedias a Deus que quando chegasse a hora, te levasse como a um  passarinho. Assim foi, há mais de vinte anos, neste dia.

Não conheceste os meus filhos mas eles conhecem-te: a parte que sobrou em mim e em todos nós que te lembramos e contamos as histórias que aqui não ficam.

Fui sempre a tua menina, estarás sempre comigo, Vó M.


terça-feira, 1 de maio de 2012

chega maio, por entre as nuvens

Passadas duas semanas de nascer, houve festa em minha honra: o meu batizado. Mês e meio depois a família mudou de casa, já pequena para a sua dimensão e ambição. Ficaram para trás vizinhos amigos num reinado onde minha irmã era princezinha. Nessa altura, a avó veio morar connosco e repartir o colo diário entre uma bebé de dois meses e uma garota de sete anos. Esta, logo depois entrou na escola. Foi uma revolução na vida daquela mana e, ao longo da nossa  convivência fraterna (ainda hoje), tudo o que acontece sem o seu controle, ou seja, tudo o que vai contra os seus interesses, é atribuído à minha existência.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

saímos sem destino

Ontem chovia, fazia frio, eu a querer voltar para a cama sabendo que não devia,  eu a querer sair pra passear e a não querer por não saber onde. chamou-me ele à razão, já que a razão andava longe de mim. Se há coisa em que somos bons é sair sem destino e destina-lo no caminho. Assim é. E foi tão bom ouvi-lo dizer que somos bons em alguma coisa, nós dois. Somos bons em muitas coisas, juntos, mas ouvi-lo da sua boca torna-o inequivocamente verdade.

E de casacos, cachecol, banda de lã na cabeça,  orientámo-nos para o mar. As nuvens afastaram-se do nosso caminho e foi numa esplanada que almoçamos, aquecidos por um sol de final de abril, caminhamos na maresia de mãos dadas e ao vento nos abraçamos. Registamos todos os momento com os corações e muitos deles com a Nikon. Comemos farturas num muro de pedra, qual ritual domingueiro que em nós se diferencia pelo carinho apaixonado daquele namoro. E foi tudo tão bom.

Faz-me pensar que, tal como neste domingo, não importa se muitas vezes não temos o destino assinalado no mapa: saímos para a vida de mãos dadas e coração aberto e juntos encontraremos o onde. As nuvens afastar-se-ão.

Não é o lugar que escolhemos que nos faz bem, nós é que queremos estar bem no onde escolhido pelo caminho.

sábado, 28 de abril de 2012

voltar a vós

Neste desentorpecer de sentidos, emoções e sentimentos, confrontei-me com dores maiores do que as imaginadas. Durante o meu "coma", a vida continuou para os outros e agora não sei bem, por vezes,  qual é o meu lugar no regaço de cada um dos que me são queridos. Vou reencontrando o meu espaço em alguns corações, noutros levarei mais tempo. Aos que não voltar é porque não me merecem.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

abril ensombrado

O Abril deste ano ensombrou as cores da primavera com temperaturas invernosas a acompanhar as águas habituais. Fez-se um 25 desconsolado, os cantos de liberdade têm  a voz embargada de contra-revolução.
No meu canto, encolho-me de frio, agasalho-me de amor e resisto às águas que teimam em brotar de minha alma, às vezes sem razões conscientes. Agarro com os sentidos os sinais da primavera que vence no meu jardim o  contratempo, despontando em flores, matizes novos de verde e trinados esvoaçantes por aqui e por ali. Reforçam a minha convicção de que vou alcançar o verão na sua plenitude.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O Exótico Hotel Marigold

Que vais fazer hoje à tarde? teclava Romi. Sei lá... lia-se de resposta, mas o que me apetecia mesmo era dormir uma sesta. Nem penses, vamos... nã queres ir ao cinema? ver o quê? sei lá, vemos o que está em cartaz e escolhemos. À tarde ou à noite? à noite já sabes que me dá o sono! a que horas sais? às cinco. Então eu vejo o que há ao final da tarde e depois ligo-te.

Ligou-lhe. As 16.50 passava O Exótico Hotel Marigold. A outra saiu mais cedo e Joana já não foi deitar a depressão debaixo do edredon. Em vez disso, envolveram-se com as personagens, com elas questionaram o que é a lealdade numa relação, valores, conceitos e preconceitos. Riram com os "artistas", riram as duas, projetaram o seu futuro e saíram sem medo de envelhecer.

Foram, depois, comer tostas mistas com os homens e com os filhos, com pena, apenas, deles não terem visto o filme com elas.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Sina

Citando Torga:


O dia amanheceu feliz.
Queria subir aos montes,
Queria beber nas fontes,
Queria perder-se nos largos horizontes.
Mas a vida não quis.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

cansada

Cansada. sinto-me cansada. estou cansada. até para ler. Faço um esforço. faço algo, pequeno, simples. volto prá cama. estou cansada. estou sozinha. fico quieta.
Tenho fome. levanto-me. como um pão e uma mão cheia de comprimidos. volto pra cama.
O meu amor vela por mim à distância. Fez um poema que quero realizar e dá-me esperanças, dá-me certezas. Por ele, faço mais um esforço para combater esta letargia. vou pró sofá. faço uma coisa bonita, romântica, espero que ele goste. mas estou cansada. volto prá cama. preciso dormir mas o sono não pega. mais um esforço: sento-me, escrevo. amanhã publico. hoje estou cansada. deito-me.
Apesar de tudo, hoje não é dos meus dias piores. Só estou cansada. E tenho tanta coisa pra fazer! Por isso mesmo é que estou cansada. E pouco faço; estou cansada.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

a pulseira

Há pequenas coisas que são símbolos das nossas decisões, das nossas escolhas e que, por serem materiais, concretas, nos ajudam a lembrar os nossos propósitos, sermos firmes nas nossas resoluções. Será talvez o principio das alianças de comprometimento sentimental.

Outros compromissos, e muito mais os que fazemos com nós próprios, precisam também de uma espécie de aliança para nos lembrar a direção que queremos, quando a bússula interna treme.

Uma pulseira. tenho uma pulseira com esse propósito. daquelas pirosas, podia-se chamar pulseira da felicidade, por exemplo.

Venho notando que as coisas pirosas, lamechas, ridículas são muitas vezes ricas em alegria e outras emoções. Ridículas, dizia Pessoa, das cartas de amor.

terça-feira, 3 de abril de 2012

pintei as unhas de laranja

Tem sido difícil  pôr-me fora da cama. Mas hoje levantei-me com o firme propósito de ir cortar o cabelo. Faz maravilhas, por fora e por dentro da cabeça.

Mas a grande diferença, hoje, foi nas unhas. A manicure, que me conhece e estima há muito, recusou-se aplicar as cores desmaiadas que normalmente escolho para as mãos. Pediu para deixar pintar as unhas de cor-de-laranja, se não gostasse, logo se tirava.

Gostei. Talvez um pouco piroso, é certo. Mas quando olhei para o resultado final, não foi as mãos de uma mulher deprimida que vi. foi as mãos de uma mulher alegre, com "garra", que vai dar as voltas que tiver que dar para seguir caminho.

Saí com as mãos pintadas de laranja. Aí vou eu, aguardem-me mais um pouco. Devagar mas vou-me à vida.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Exorcismos

Sempre digo aos outros que ao falar das coisas que nos incomodam elas adquirem outra perspectiva, e é bom conversar com alguém, bla bla bla ....

Com as coisas que me incomodavam no mais intimo do meu ser, tenho-as calado, temendo que ao falar, elas se tornem reais a tal ponto que as não consiga suportar,  não ser capaz de dar a volta por cima para continuar a viver e deixar viver.

Ontem, do outro lado da secretária, exorcisei alguns fantasmas. Depois, numa esplanada exorcisei outros.

Foi um dia sofrido mas foi um dia bom.


segunda-feira, 26 de março de 2012

Piratas

Tomo firmes propósitos de andar de queixo levantado, de deixar na penumbra o que não quero iluminar  para não ofuscar as verdades merecedoras da minha devoção. mas assaltam-me pensamentos com olho de vidro e cara de maus, tomam o navio do meu estado e desgasto-me a contaria-los.

Faltam-me as armas femininas da partilha com outra, do prisma da amiga, da espada da amiga para combater.
Mas há coisas que não quero desvendar.

Forço o amparo de quem não está apenas no papel de amigo mas que, por isso mesmo, não tem as armas certas para a luta que travo com esses piratas que me atormentam.


sábado, 24 de março de 2012

carrocel de feira

Imaginava a vida como um carrocel mágico. Montados no nosso cavalinho aí vamos nós! Há altos e baixos nesse carrocel, nessa vida, faz e desfaz oitos, mas quando passa no mesmo ponto já vai mais alto, preenchido com novas emoções, sentimentos, conhecimentos, experiências, formando, assim, uma espiral em direção ao céu.

Sinto-me a viver num carrocel de feira: circular. Altos e baixos, vou-os passando e retorno ao mesmo lugar, na mesma dimensão com que por ali passei.


sexta-feira, 23 de março de 2012

primavera

Começou esta semana, a primavera. Não tem data certa para começar, a 21 de março, como aprendi na escola centenária. De qualquer modo, tenho estado fora. Já se instalou no jardim, mas só hoje é que a primavera tem autorização de entrar lá em casa.

E desejo que entre em mim: que o cinzento se faça verde e amarelo, o azul ganhe o brilho do céu e do mar e eu me vista de laranja e vermelho. Entra, primavera, faz favor de entrar!

segunda-feira, 19 de março de 2012

Pai: gosto muito de ti!

Olá Pai!

Hoje, choro a dor da tua ausência e as memórias de mim que levaste contigo.
As memórias de nós, cá estão. E essas, fazem-me sorrir docemente.

Como costumo dizer-te, pelo menos a cada 19 de Março: Pai, gosto muito de ti!


quarta-feira, 14 de março de 2012

escrever

Puxei o teclado para mim para escrever sem destino e lembrei-me, então, de como gostei de aprender a escrever.
Agarrava no lápis com a sofreguidão de um primeiro amor e desenhava traços e círculos numa construção de palavras e logo frases que primeiro significavam coisas, passaram a ser capazes de contar acontecimentos e conhecimento até que puderam ser elas próprias factos, ideias, sentires ...

Depois, nem o martírio do aparo e do tinteiro me abrandaram no prazer da escrita. As nódoas azuis na bata matinalmente imaculada pela lixívia, eram as testemunhas do correr feliz do aparo pelo caderno de linhas vigiado pela sr.ª Dona Lucinda.

E um dia passei a escrever sonhos lindos, parecidos com as histórias que entretanto aprendera a ler.

E escreveram-se diários sem conta: amizades feitas e desfeitas, amores e desencontros, acontecimentos e tudo o mais que fosse digno de registo fechado à chave. Muitas cartas, também: para os primos do Brasil por encomenda da avó, para amigos estrangeiros conhecidos através de outros, emigrantes, postais de férias, de aniversário e, mais tarde, as cartas de amor!
Pelo meio umas contribuições para os jornais da escola, para a secção infantil  da "crónica feminina" cuja editora era a Susana, (que será feito dela?) e para uma revista juvenil que não sobreviveu`a revolução.

O meu pai ensinou-me a escrever à máquina numa Royal, agora objecto de decoração e de memórias. Mais tarde, rendi-me sem grande esforço aos teclados dum Xpectrum, dum  Mac e outros que se lhes seguiram.

Tenho que escrever, no trabalho. E faço-o com agrado.
Mas o gosto da escrita pela escrita, a escrita que nesse prazer me ajuda a encontrar novos sentidos, retomei-o recentemente. Por conselho amigo, logo abraçado.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

vão caindo as penas

Vão-me caindo as penas, neste levantar de mulher cansada.
Ergo-me devagar pois de cada vez que me levanto um pouco, algo me derruba.

E levanto-me outra vez. E levantar-me-ei sempre, enquanto houver quem me mereça.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

dar a volta por cima

Cantando Betânia:

Chorei, não procurei esconder
Todos viram, fingiram
Pena de mim, não precisava
Ali onde eu chorei
Qualquer um chorava
Dar a volta por cima que eu dei
Quero ver quem dava
Um homem de moral não fica no chão
Nem quer que mulher
Venha lhe dar a mão
Reconhece a queda e não desanima
Levanta, sacode a poeira
Dá a volta por cima

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

tremores, temores e felicidades

Tal como a ave nascida que em pouco se põe muito, tremo agora. Tremo de frio e de medos, de felicidades também. Saída de um casulo emocional, ainda não consegui pôr ordem no mundo cá fora. Nesse mundo, onde deixei à deriva barcos e marinheiros da minha vida. Levantei-me para sacudir a poeira mas há tanto para fazer! 

5/2/2012


FÉNIX


A história de Fénix sempre me fascinou. Há um momento de cada ano em que tenho vontade de nascer outra vez, não das cinzas tal como a dita a quem dedico o nome destas escritas, mas de um entorpecimento que atinge o seu auge em Janeiro. Não gosto de Janeiro.
Este ano, a minha necessidade de renascer é mais profunda, o meu entorpecimento começou mais cedo e foi mais fundo no meu ser, em Junho, quando a esperança acabou. Faltas-me, pai!
Esgotou-se-me a vontade de apreciar o sol e a energia que me manteve morna era a vossa, de ti, de vós rapazes meus, discretos a amparar a minha alma, de vós primos e amigos.
Mais uma vez Janeiro foi-me mau. Acabou. E com Fevereiro chegaram novas esperanças e a  vontade imensa de passar a limpo algumas escritas esborratadas. E voltar a mim.

2/2/2012