segunda-feira, 30 de abril de 2012

saímos sem destino

Ontem chovia, fazia frio, eu a querer voltar para a cama sabendo que não devia,  eu a querer sair pra passear e a não querer por não saber onde. chamou-me ele à razão, já que a razão andava longe de mim. Se há coisa em que somos bons é sair sem destino e destina-lo no caminho. Assim é. E foi tão bom ouvi-lo dizer que somos bons em alguma coisa, nós dois. Somos bons em muitas coisas, juntos, mas ouvi-lo da sua boca torna-o inequivocamente verdade.

E de casacos, cachecol, banda de lã na cabeça,  orientámo-nos para o mar. As nuvens afastaram-se do nosso caminho e foi numa esplanada que almoçamos, aquecidos por um sol de final de abril, caminhamos na maresia de mãos dadas e ao vento nos abraçamos. Registamos todos os momento com os corações e muitos deles com a Nikon. Comemos farturas num muro de pedra, qual ritual domingueiro que em nós se diferencia pelo carinho apaixonado daquele namoro. E foi tudo tão bom.

Faz-me pensar que, tal como neste domingo, não importa se muitas vezes não temos o destino assinalado no mapa: saímos para a vida de mãos dadas e coração aberto e juntos encontraremos o onde. As nuvens afastar-se-ão.

Não é o lugar que escolhemos que nos faz bem, nós é que queremos estar bem no onde escolhido pelo caminho.

sábado, 28 de abril de 2012

voltar a vós

Neste desentorpecer de sentidos, emoções e sentimentos, confrontei-me com dores maiores do que as imaginadas. Durante o meu "coma", a vida continuou para os outros e agora não sei bem, por vezes,  qual é o meu lugar no regaço de cada um dos que me são queridos. Vou reencontrando o meu espaço em alguns corações, noutros levarei mais tempo. Aos que não voltar é porque não me merecem.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

abril ensombrado

O Abril deste ano ensombrou as cores da primavera com temperaturas invernosas a acompanhar as águas habituais. Fez-se um 25 desconsolado, os cantos de liberdade têm  a voz embargada de contra-revolução.
No meu canto, encolho-me de frio, agasalho-me de amor e resisto às águas que teimam em brotar de minha alma, às vezes sem razões conscientes. Agarro com os sentidos os sinais da primavera que vence no meu jardim o  contratempo, despontando em flores, matizes novos de verde e trinados esvoaçantes por aqui e por ali. Reforçam a minha convicção de que vou alcançar o verão na sua plenitude.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O Exótico Hotel Marigold

Que vais fazer hoje à tarde? teclava Romi. Sei lá... lia-se de resposta, mas o que me apetecia mesmo era dormir uma sesta. Nem penses, vamos... nã queres ir ao cinema? ver o quê? sei lá, vemos o que está em cartaz e escolhemos. À tarde ou à noite? à noite já sabes que me dá o sono! a que horas sais? às cinco. Então eu vejo o que há ao final da tarde e depois ligo-te.

Ligou-lhe. As 16.50 passava O Exótico Hotel Marigold. A outra saiu mais cedo e Joana já não foi deitar a depressão debaixo do edredon. Em vez disso, envolveram-se com as personagens, com elas questionaram o que é a lealdade numa relação, valores, conceitos e preconceitos. Riram com os "artistas", riram as duas, projetaram o seu futuro e saíram sem medo de envelhecer.

Foram, depois, comer tostas mistas com os homens e com os filhos, com pena, apenas, deles não terem visto o filme com elas.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Sina

Citando Torga:


O dia amanheceu feliz.
Queria subir aos montes,
Queria beber nas fontes,
Queria perder-se nos largos horizontes.
Mas a vida não quis.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

cansada

Cansada. sinto-me cansada. estou cansada. até para ler. Faço um esforço. faço algo, pequeno, simples. volto prá cama. estou cansada. estou sozinha. fico quieta.
Tenho fome. levanto-me. como um pão e uma mão cheia de comprimidos. volto pra cama.
O meu amor vela por mim à distância. Fez um poema que quero realizar e dá-me esperanças, dá-me certezas. Por ele, faço mais um esforço para combater esta letargia. vou pró sofá. faço uma coisa bonita, romântica, espero que ele goste. mas estou cansada. volto prá cama. preciso dormir mas o sono não pega. mais um esforço: sento-me, escrevo. amanhã publico. hoje estou cansada. deito-me.
Apesar de tudo, hoje não é dos meus dias piores. Só estou cansada. E tenho tanta coisa pra fazer! Por isso mesmo é que estou cansada. E pouco faço; estou cansada.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

a pulseira

Há pequenas coisas que são símbolos das nossas decisões, das nossas escolhas e que, por serem materiais, concretas, nos ajudam a lembrar os nossos propósitos, sermos firmes nas nossas resoluções. Será talvez o principio das alianças de comprometimento sentimental.

Outros compromissos, e muito mais os que fazemos com nós próprios, precisam também de uma espécie de aliança para nos lembrar a direção que queremos, quando a bússula interna treme.

Uma pulseira. tenho uma pulseira com esse propósito. daquelas pirosas, podia-se chamar pulseira da felicidade, por exemplo.

Venho notando que as coisas pirosas, lamechas, ridículas são muitas vezes ricas em alegria e outras emoções. Ridículas, dizia Pessoa, das cartas de amor.

terça-feira, 3 de abril de 2012

pintei as unhas de laranja

Tem sido difícil  pôr-me fora da cama. Mas hoje levantei-me com o firme propósito de ir cortar o cabelo. Faz maravilhas, por fora e por dentro da cabeça.

Mas a grande diferença, hoje, foi nas unhas. A manicure, que me conhece e estima há muito, recusou-se aplicar as cores desmaiadas que normalmente escolho para as mãos. Pediu para deixar pintar as unhas de cor-de-laranja, se não gostasse, logo se tirava.

Gostei. Talvez um pouco piroso, é certo. Mas quando olhei para o resultado final, não foi as mãos de uma mulher deprimida que vi. foi as mãos de uma mulher alegre, com "garra", que vai dar as voltas que tiver que dar para seguir caminho.

Saí com as mãos pintadas de laranja. Aí vou eu, aguardem-me mais um pouco. Devagar mas vou-me à vida.