segunda-feira, 28 de maio de 2012

um ano

Lembrei-me de mim, um ano atrás. Como estou diferente! Muita coisa aconteceu num ano! 

Acontece sempre muita coisa num  ano. Neste, foi a profundidade de vários acontecimentos que marcou a diferença, que exigiu de mim muita coragem, força, sabedoria... Para tudo houve remédio menos para a morte.

Neste entretanto de meses, abalou-se a minha segurança, minou-se a confiança, em mim e nos outros, perdeu-se uma certa ingenuidade. Estou a aprender a viver com tudo isso e voltar a deixar acontecer momentos de felicidade que, sei agora, não é um estado de vida.

Hoje, doeu-me a falta de uma voz, magoou-me a dor de outra, mas as vozes que me rodearam falaram doçuras e cantaram bem alto amor e amizade.

Chorei amargos passados mas agarrei o que hoje me oferecem e, em vários momentos senti-me feliz.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

águas

Hoje fui ao rio. Mas o rio já não me sossega. Já não é só de amores de que me falam as suas águas. Serenas, confrontam-me com a ingenuidade perpetuada da rapariga que chegou há 30 anos, com a solidão mal disfarçada e com as minhas fraquezas.
O que o rio leva não volta, vai com as suas águas.  E as águas que hoje passam não são mais as mesmas de ontem.

Hoje preciso da revolta do mar do norte, para com o barulhar das ondas abafar os gritos do meu pensamento, para salpicar de sal o meu destempero. Dizem que o que tiram ao mar, o mar vem buscar. Mas o que o mar leva,  o mar devolve, se soubermos procurar. Vai e vem, revisita-nos, as suas águas renovam-se.

Imagino o mar por detrás das minhas serras verdes, onde agora o sol se prepara para ceder lugar à noite.

Vou também lavar o cheiro do dia para  que a noite me encontre uma pessoa melhor.

domingo, 20 de maio de 2012

dias que passam são horas que vão

Dias que passam são horas que vão. Algumas voltam na memória: umas na saudade e afagam-nos o sentir, outras trazem ondas da dor com que as vivemos outrora. Muitas horas permanecem esquecidas enquanto não lhe atribuímos significado. Voltarão ou não.

Nessas memórias assenta muito do que vivemos hoje. Contudo, se ficamos parados nelas, o presente também será esquecido pois não há espaço para o que teria significado mais tarde. Não deixamos acontecer o momento, não fazemos o momento.

É ao vivermos bem, hoje, que fazemos um futuro melhor: uma vida cheia de momentos que têm importância e sentido.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

bom tempo

Anunciava-se o bom tempo e preparei o corpo para ele. Chegou e calcei as sandálias desnudando os pés, desejosos de se expor a um mundo de cores quentes. Mas não mostro a alma, ainda cansada de tanta invernia. Essa ainda está insegura, à procura do seu lugar neste corpo que me foge ao juízo.

terça-feira, 8 de maio de 2012

quero fugir por amor

Quero fugir. Não sei bem de quê, não sei bem pra onde. Mas sinto uma vontade, uma necessidade mesmo, do meu cavaleiro me raptar do castelo inseguro e cinzento que ergui, para fugir comigo. Por amor.

Traria um ramo de rosas vermelhas, cor da paixão, e, uma a uma, íamos deixando cair no caminho, para encontrarmos o regresso, quando quisessemos. E havíamos de querer voltar.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Vó M

Quando me conheci já fazia parte do meu dia o teu elegante porte preto de falas meigas. Tinhas nas mãos o mimo que o teu coração gerava e que chegava para todos oito, amavas quem se deixava amar de uma forma especial: um porque era o mais velho e ajuizado, uma porque era a mais doce e frágil, outra porque era a mais carente e infeliz, um porque era o mais castiço e irresponsável, outro porque mais te derretia em meiguices e atenções, um porque era o mais travesso e divertido, outro porque era o mais pequeno e amuado. Quanto a mim, era aquela em quem mais te revias e projetavas.

Adorávamos ir em ranchada para o teu quarto, abria-se o gavetão de baixo da tua cómoda e lá convivíamos com as fotografias de familiares que estavam no céu ou no Brasil. Para nós, pequenos, ambos ficavam para os mesmos lados, depois do mar. Sentada na cama, com todos à volta, encantavas-nos com histórias contadas com timbre de canção e  cantavas com a nostalgia do Fado. A tua interpretação da Samaritana emudecia-nos pela magnitude da voz e do sentimento. Só quando a ouvíamos nos lembrávamos que também tu podias ter motivos para estar infeliz. Mas até isso fazia bonitas as tuas canções e os nossos momentos.

Eu tinha o privilégio de acordar com o som da tua voz e adormecer com o carinho da tua mão. Olhavas-me todos os dias cheia de ternura e orgulho,  com o teu jeito lindo, sereno mas vivo, e eu deixava que me amasses como sendo tua filha duas vezes.

Havia ocasiões em que tinha de fazer de adulta quando deveria ser (e era) criança, frequentemente as altas expetativas a meu respeito traziam-me criticas quando merecia elogios, outras vezes mulheres mal-amadas competiam pelo amor que me era destinado. Sempre estiveste atenta nessas situações, oferecendo-me o teu colo, onde havia amor e justiça. Quando adoecia, lá estavas sentada na beira cama sem dramas, combatendo febre e infeções com histórias da carochinha, cantigas do gato preto, pico-pico-sardanico, cartadas de burro ou de bisca. E quando eu ia à rua, vinhas dar uma mirada final na toilette, sorrindo no até logo.

Choramos juntas, longe dos outros, por sair daquela que foi a casa da infância de todos. Parte de nós ficou no pessegueiro em que eu andava a cavalo, nos cedros de que tanto gostavas, no tanque do nosso talho de couves, no corredor do "minha mãe dá licença". Os azulejos modernos e o envernizado do chão da casa nova não compensaram a falta de recantos e encantos que ficaram para trás.

Escapava-te muito das notícias da TV ou do jornal mas compreendias a evolução dos nossos mundos melhor do que muitos dos mais novos e letrados.  Percebias e explicavas os meus avanços adolescentes, tornando mais benevolente o olhar paterno. Revivias na minha rebeldia a tua juventude e encorajavas a minha irreverência, sem contudo me poupares à critica sincera, quando merecida. Quando saí de casa, rejubilavas com os fins de semana em que aparecia e depois, era num sorriso que levantavas a mão para o adeus. Um domingo, como em tantos outros, despedimo-nos ao cimo das escadas e senti o impulso de voltar atrás para mais um beijo e para o que seria o nosso último abraço.

Pedias a Deus que quando chegasse a hora, te levasse como a um  passarinho. Assim foi, há mais de vinte anos, neste dia.

Não conheceste os meus filhos mas eles conhecem-te: a parte que sobrou em mim e em todos nós que te lembramos e contamos as histórias que aqui não ficam.

Fui sempre a tua menina, estarás sempre comigo, Vó M.


terça-feira, 1 de maio de 2012

chega maio, por entre as nuvens

Passadas duas semanas de nascer, houve festa em minha honra: o meu batizado. Mês e meio depois a família mudou de casa, já pequena para a sua dimensão e ambição. Ficaram para trás vizinhos amigos num reinado onde minha irmã era princezinha. Nessa altura, a avó veio morar connosco e repartir o colo diário entre uma bebé de dois meses e uma garota de sete anos. Esta, logo depois entrou na escola. Foi uma revolução na vida daquela mana e, ao longo da nossa  convivência fraterna (ainda hoje), tudo o que acontece sem o seu controle, ou seja, tudo o que vai contra os seus interesses, é atribuído à minha existência.