sábado, 30 de junho de 2012

amigas de sempre

Já não a via há 6 ou 7 anos. Apareci-lhe de surpresa, agarrou-me num abraço e chorou. choramos. de alegria, de saudade, do afirmar de uma amizade. Os olhos dos próximos também se humedeceram, contentes por nos terem proporcionado aquele momento feliz.

Já não há via há 16 ou 17 anos, falamos por telefone uma vez, no entretanto. Foi surpresa para as duas, o encontro que se precipitou num abraço e soltamos um grito, uma espécie de uivo animal de reconhecimento.

Já não estávamos há muito, amigas que partilharam o dia-a-dia durante dois anos e alguns fins de semana por mais outro. Começamos por nos admirar mutuamente, como profissionais competentes, o resto surgiu pelos sentires. Não se sabe bem como começaram estas amizades, sabemos que ainda são.

Uma acolheu-me na sua família, deu um calor de lar à minha solidão e eu entrei como a irmã que não teve.  Então foram conversas de serão, foram risos, foram choros, foi a bébé, entretanto nascida, no meu colo de tia. A outra, irmã de mais sete, passava a semana, tal como eu, sozinha numa cidade onde não havia espaço para gargalhadas brotadas do coração. Demo-nos, primeiro no caminho de regresso a casa, depois em fins de tarde prolongados de alegria de viver.

Sem lamentações pelas ausências, contamos coisas do tempo em que estivemos fora, como se de semanas se tratasse: os filhos que cresceram e o rumo que tomaram, os familiares que morreram, as casa e as vidas que se reconstruíram, de tudo falamos como se  não houvesse longes. E rimos, rimos tanto, com vontade, com a alma toda!

São assim, as amigas de sempre.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

férias

Frase batida, banal, sinto-a entranhar até aos ossos: preciso de férias! Férias de Verão!

Não é só não ir ao trabalho; é deixar de acordar nos mesmos tetos, de ver a mesma paisagem, de usar os mesmos objetos. Férias é sentir outros cheiros, saborear outros temperos, tomar outras estradas, dar as mãos noutras esplanadas. É beijar noutras águas, embalar noutros ventos, fazer amor noutras camas. É gostar de partir e gostar de voltar. E no entretanto admirar, apreciar, amar cada momento e em cada momento. Parece-me que, afinal, preciso de uma lua-de-mel!

este verão

Vai ser dificil, este verão.

Chega com ares de trovoada, inquieta-nos.
não nos deixa ver claro, com tanta luz.
faz-nos querer estar onde não estamos.

Como continuará, depende
da nossa vontade
da nossa força de vontade
em viver verão
e das verdades
do nosso coração.

Se levarmos a felicidade
por diante do outono
terá sido um bom verão.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

vou em frente

o corpo pede cama
a cabeça, almofada
escuro e silêncio.
então fico deitada

mas tenho medo:
quanto mais sossegada,
mais retrocedo
na estrada minada.

contrario piratas do pensamento
sem grande força, sem alento
mas penso em nós, no momento

penso em nós dois, quatro, a gente
lembro sorrisos de agora, contente.
E porra pra mim se não vou em frente.


almoço breve

foi breve o nosso almoço,
foi leve o nosso abraço,
mas o sorriso que trouxeste,
ainda o tenho no regaço

segunda-feira, 25 de junho de 2012

a rede

Tenho ouvido, da boca de outros, palavras que eu costumava dizer-lhes. Vêm de pessoas que outrora se irritavam quando era eu a proferi-las. que as depreciavam ou que as ignoravam. Precisaram de as ouvir de outras bocas, para as validar. E agora repetem-mas.

Ouço-me repetir a outros as palavras que não me digo e que julgava desgastadas.

Não são palavras ocas, vãs. de uns para outros, estas palavras fazem uma rede que nos dá  algum equilíbrio. E, se porventura cairmos a rede está lá. não nos magoamos tanto, não nos deixamos morrer.

domingo, 24 de junho de 2012

lutos

Há vários tipos de luto, surgiu em conversa. pensei nisso. há lutos que já fiz.

Os mais difíceis são aqueles em que não há rituais que ajudem a chorar e andar.  não se partilha os marcos do tempo, ninguém nos consola. não são lutos de mortes físicas, são antes perdas que nem se sabe quando e como começaram. compreendemos mas não aceitamos, queremos seguir mas há baraços a atrasar-nos os passos.

 E o tempo, nestas situações, é mais traiçoeiro: leva e traz.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

chega o verão

Hoje faria anos. mas já não faz. Desde sempre, esta data tinha um duplo e feliz significado para mim: o seu aniversário, em que aproveitava para o mimar de forma especial, e o começo do verão, a minha estação preferida. Curiosamente, a sua mãe tinha nascido no dia em que começa a primavera mas essa coincidência entre aniversários e estações do ano não continuou pela família.

Ambos tiveram vidas grandes, sempre muito amados e respeitados. Venceram a custa de muito trabalho, tendo como estandarte a honra e a honestidade. De olhares e sorrisos parecidos, tinham aquela cumplicidade de terem vivido só os dois muitos anos,  o que eu tanto admirava mas que era alvo de ciúme, tanto por parte do pai como da mulher.

A mãe, mulher de várias profissões, tinha mais pelo na venta. ele precisava mesmo que lhe chegasse a mostarda ao nariz para se virar do avesso.

Ambos sofreram e morreram com a mesma doença, aproximadamente com a mesma idade. Mãe e filho, avó e pai, as ultimas imagens que tenho dos seus rostos quase se sobrepõem. Acho que gostariam de saber disso.

Agora, março apenas traz a primavera, e na data de hoje apenas festejo a chegada do verão. mas haverá sempre um carinho a afagar estas manhãs.

Chega o verão,
estação do sol e do cheiro a mar, do cheiro dos caminhos de ferro e do chão quente na sola dos pés. verão das tardes longas e das noites quentes. verão de viagens e de bebidas frescas numa varanda qualquer.

Chega a estação quente.
dos romances de verão, intensos mas efémeros.  dos romances antigos, cúmplices, confortáveis, que se intensificam no calor das mãos dadas numa vida a dois. dos amores renascidos que em que a paixão dos primeiros ilumina o amor terno dos segundos.

Chega o verão. de todos os que o querem.

domingo, 17 de junho de 2012

saudades bonitas

Penso em ti, no teu último suspiro, um ano atrás a esta hora.

Estou com a mãe, caminhamos, falamos de ti e da saudade. Ela chora, abraça-me, fala, fala, sabes como é... De repente deixo de a ouvir. e vêem-me à memória saudades bonitas.

Aquela vez, tinha eu poucos anos e mania que era grande, tentei saltar do muro por cima dos arbustos e "aterrei" mesmo no meio de uma roseira maior do que eu. Era difícil deslocar-me dali sem me espetar ainda mais e eu, assustada com a gritaria à minha volta, nem me atrevia a chorar. Acocoraste-te, falaste-me baixinho, asseguraste que iria doer um bocadinho mas que ia tudo correr bem. continuaste a falar, já nem me lembro de quê, só o tom da tua voz era importante... tiraste-me com jeitinho do meio das rosas, deitaste-me na relva, mandaste firmemente toda a gente para dentro e, com uma pinça, retiraste todos os espinhos da minha pele e da minha alma. Ias soprando para aliviar a dor e no final riste-te e eu chorava e ria ao mesmo tempo, dorida mas aliviada, feliz.

Não sei porque me lembrei disto gora, não será por acaso.

Atolei-me outra vez no meio dos picos e estou a sair, com jeitinho. Vou retirando um a um, uns estão mais encravados, mais fundos, mas a tua voz recorda-me que dói um bocadinho mas tudo vai correr bem.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

canja de galinha da avó

Cresci num mundo em que as pessoas tinham uma ou duas avós que eram uma espécie de feiticeiras com poção mágica secreta e tudo. Curavam todos os males: dentes a nascer, constipações, birras, desfeitas de amigos, desgostos de amor, dores de barriga, dores da alma. Não havia nada que uma canja de galinha da avó não curasse.

Tive a sorte de ter duas avós adeptas dessa magia, cada qual com a sua poção secreta. Uma tinha uma receita de aldeia que sabia maravilhosamente a galinha e a fumo. A outra fazia uma canja que sabia a galinha de casa, reconfortante. as duas poções eram feitas com muito carinho para quem se destinava. era o ingrediente mágico, o que curava e consolava.

Não tentasse alguém fazer mal aos seus petizes, aquelas duas eram capazes de feitiços menos gostosos contra os ofensores ...

Mas aquelas canjas! era mesmo uma que me apetecia agora. para me consolar...

quinta-feira, 14 de junho de 2012

O último aniversário

Faltava menos de uma semana para o que pensávamos ser o teu derradeiro aniversario. Eram entradas e saidas do hospital, era controlar isto, equilibrar aquilo, mas ninguém desistia.

Combinamos que eu voltaria na sexta-feira e ficava até ao dia de anos. Na quarta fui arranjar-me, cabelo, unhas, algumas compras, sabia que depois não haveria tempo para essas coisas. Já na rua, vi que tinha uma chamada não atendida da tia. Gelei. Procurei um lugar para me sentar na galeria comercial e ali fiquei tempos infinitos, quieta, sozinha, sem retribuir a chamada. Depois, fui para casa e pintei as unhas dos pés de vermelho, assim contrariando o luto eminente.

Nessa noite planeamos procurar ajuda profissional para casa, em vez de te internar. Na noite seguinte sonhei com a avó que sorridente prometia acolher-te. E tu não pudeste esperar, morreste na sexta, sózinho, no hospital, umas horas antes de nós chegarmos.

A despedida, tínhamos feito com troca e meia de palavras e uma entrega de olhares, na semana anterior, numa tarde em que conseguimos ficar só os dois. Acabamos serenos, de mãos dadas no sofá,  com a certeza de um amor de toda a vida.

Fui ao teu funeral com as unhas pintadas de vermelho, os sapatos taparam, a minha alma não se importou e a tua também não, estou certa. Há coisas que perderam a importância perante o desgosto de ficar sem ti.

Na terça-feira farias anos, afinal o último aniversário tinha sido um ano antes. Ainda bem que, na altura, não o sabíamos.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Valeu a pena

Entraste de novo naquele hospital que odiavas. No outro davam-te esperança, neste pressentias a morte a acercar-se de ti, cada vez mais perto. Seria ali que morrerias. Fui contigo, só podia ficar mais um pouco. mas tu tinhas dores, estavas inquieto, assustado. beijei-te como a um menino, dei-te a mão até a morfina fazer efeito mas tu não paravas de perguntar pela tua raínha. Pedi para a deixarem tomar o meu lugar, fizeram melhor: chamaram-na também. e tu, assim que a viste, levantaste a mão num aceno, olhaste-me sorrindo e deixaste-te, só então, adormecer.

Disseram-me que era preciso tomar decisões, prolongar a tua agonia ou apenas palear as dores. Aguardei a chamada do hospital ponderando sozinha o que ninguém deveria ser chamado a decidir. Veio o teu sobrinho dar-me colo no meu desespero e amparar-te se saísses, teu genro pôs-se a caminho.

Nesse dia reagiste bem ao tratamento e, com as dores acalmadas trouxemos-te para casa sem mais questões da parte dos médicos. Já da tua parte surgiu a questão pronta: onde vamos jantar hoje? Dececionou-te não poder ir jantar fora pelo adiantado da hora, mas respondeste, assim, a todas as nossas dúvidas. Valeu a pena.

Uns dias mais tarde, ainda foste almoçar fora e ver o mar.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

desassossego de pessoa

Um dos melhores na arte da poesia ficou também conhecido pela sua labilidade emocional. deprimido? bipolar? psicótico? multipla personalidade? não se sabe ao certo, nem interessa.

Felizmente que a poesia é o que se sobrepõe, quando de Pessoa se fala. sem o resto, não se teria revelado o génio.

FERNANDO PESSOA, in O LIVRO DO DESASSOSSEGO (excerto)

Não compreendo o meu espírito - como através dele compreender?
Não possuímos nem o corpo nem uma verdade - nem sequer uma ilusão. Somos fantasmas de mentiras, sombras de ilusões, e a nossa vida é oca por fora e por dentro.
Conhece alguém as fronteiras à sua alma, para que possa dizer - eu sou eu?
Mas sei que o que eu sinto, sinto-o eu.
Quando outrem possui esse corpo, possui nele o mesmo que eu? Não. Possui outra sensação.
Possuímos nós alguma coisa? Se nós não sabemos o que somos, como sabemos nós o que possuímos?

Não encontro melhores palavras para descrever o desassossego que de tempos a tempos me assombra.

sábado, 9 de junho de 2012

aniversários

Encontramos o nosso amor e damos um abraço para a vida. Todos os meses desde então, naquele dia do mês, sentimos um carinho no calendário e no coração. O primeiro aniversário é vivido com uma tal intensidade! são também assinaladas ternamente aquelas datas em que pela primeira vez fomos um: o primeiro beijo, o aniversário de cada um, a primeira vez que nos entregamos por inteiro quando fizemos amor, o primeiro natal ...

De cada filho que temos, contamos os dias até ao primeiro mês, as semanas até aos dois meses e todos os meses até ao primeiro aniversário, vivido com a máxima emoção: o primeiro bolo, a primeira vela, a primeira prenda de anos ... no meio, o primeiro natal, o primeiro carnaval, as primeiras férias na praia.

Morre um querido. Contamos os dias de dor até à primeira semana, as semanas até ao primeiro mês e depois todos os meses, aquele dia. Vem o primeiro aniversário que já não conta, o primeiro dos nossos em que não nos canta, o primeiro natal sem ele, a primeira páscoa ...
E, tal como os primeiros aniversários transbordam de emoções, também a marca do primeiro ano sobre a morte as intensifica.

Quando se aproxima,  desassossega-se a angústia que tentamos combater todo este tempo,  reforça-se o vazio deixado em tantos lados, soltam-se as lágrimas em correntes anteriormente controladas, é a tristeza que transborda, é a saudade que se faz mais.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

chuvas de verão

pingas ruidosas caem no chão,
águas grossas e mornas
libertam o cheiro da terra molhada,
antecipam no ar a trovoada
e ateiam o fogo da paixão
nos corpos namorados

chuvas de verão
incendeiam o coração