sexta-feira, 28 de setembro de 2012

outono

desde que me conheço que prefiro o verão às outras estações. escrevi muitas redações sobre a primavera e as flores e as andorinhas a chegar mas o meu coração palpitava por manhãs de nevoeiro a abrir-se para o sol, cheiros de mar,  de frutas e comboios que um dia me levariam para destinos onde a estação é ainda mais verão.

o verão é a minha paixão. quando vivido intensamente, recebo bem o outono que se segue com cheiro de fruta madura, o aconchego de um colo no sofá, castanhas quentes e até o regresso às rotinas familiares. sempre esperando, no entanto,  um novo verão, pois se se acaba a paixão caio logo no janeiro do meu descontentamento.

Esta noite tive frio, de manhã um arrepio. Soube, então, que mesmo que  temperatura volte a subir nos próximos dias, chegou o outono. Senti-o, serenamente.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

enxaqueca

É a terceira vez seguida que acordo cansada, guio-me pela estrada e arrasto-me pelo dia como posso: agoniada. Apesar do tratamento calar a dor lancinante, tenho o corpo todo inchado e a tempora latejante. Sempre que me apanho sozinha fecho os olhos, pouso a cabeça nas mãos e desejo-me num coma que me apague. O desconforto físico é só uma parte: sinto-me feia por dentro e por fora, antipática, tristonha, murcona. Sei que estou desiquilibrada e vou a pique cair no lado negro da alma, mas não faço nada. Toda a minha energia se concentra  em calar a dor e acalmar o desconforto que faz de mim um monstro.

De cada vez que fecho os olhos, desejo um colo que me conforte, uma mão que comprima esta agonia, mas a noite tarda em chegar, e às vezes esse aconchego nem acontece, passa ao lado, adiado. Outras vezes vem, de mansinho, e eu não consigo mostrar o reconhecimento devido a cada carinho.

Vai passar. Vai voltar.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

muro de lamentações

ouço-te mas tu não queres saber o que penso sobre o que me dizes. ou se já ouvi. por vezes descanso o meu pensamento noutras histórias mais felizes, enquanto falas, outras canso-me. mas tu não; precisas de te ouvir e eu sou o pretexto para não te pores a falar para as paredes. então eu sou parede.

falas, falas, às vezes choras: querias mais. mas não deixo que me transformes num muro de lamentações.

em cada rosto de mulher

há dias em que olho no espelho
e me reconheço. outros não.
nestes, olho o rosto de cada mulher
e adivinho o que não vejo.
em cada rosto de mulher me revejo.
pergunto, a cada rosto de mulher
se foi o que não fui.
em cada rosto me questiono.

evito, então, olhar o espelho
para não ter de enfrentar
o olhar
de mulher sentida

terça-feira, 25 de setembro de 2012

morresse eu hoje

morresse eu hoje,
amanhã aqui estaria o mesmo cheiro.
chorariam uns quantos mas
no lavar do chão outras pessoas viriam.
um dia ninguém estaria por perto
para se lembrar do meu estar.

morresse eu hoje,
amanhã ainda estaria a minha presença
por toda a minha casa.
chorariam, uns quantos tempos.
no lavar da alma outras pessoas viriam
mas lembrar-se-iam sempre do meu olhar.

domingo, 23 de setembro de 2012

setembro


O amarelo conquista a paisagem e o vento de sudoeste declina-o em tons de laranjas e castanhas, que se deixam cair em rituais de vindimas. é tempo de reencontros, de recomeços amadurecidos, de voltar à terra onde se faz a vida. 

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

amiga de todas as meninas

No primeiro dia de escola tive a companhia da minha mãe no caminho que foi curto para tantas recomendações: obedecer à sr.ª professora a  quem deveria tratar por minha senhora, estar com atenção aos trabalhos e brincar só no intervalo, no caso de me fizerem mal não bater, antes dizer  à srª professora, a tal a quem devia chamar minha senhora, ser amiga de todas as meninas (era uma escola só de raparigas), etc. Esta última pareceu-me bem, digna de quem andava já a aprender a doutrina de jesus e mostrava uma tendência para gostar de pessoas muito diferentes umas das outras.

Não tinha muito jeito para brincar com raparigas mas lá aprendi a macaca e a jogar ao elástico e tudo o que então estava na moda na escola centenária. Acabei por ser amiga de todas as meninas, excetuando uma ou outra ranhosa que embirrou comigo (ou eu com ela), e dos meninos que assaltavam o nosso recreio, também.

Contudo, comecei a reparar que algumas amigas que iam lá a casa brincar, no fim da escola, eram tratadas por você e com inhas acrescentadas ao nome próprio, enquanto que outras, entre as quais uma conhecida efetivamente por Sãozinha, eram chamadas de nina a quem se perguntava "tu de quem és"? As primeiras eram convidadas a lanchar, incentivadas a voltar e levavam a algibeira da bata cheia de cumprimentos para os paizinhos, enquanto que outras não passavam do jardim e eram convidadas a irem embora passado pouco tempo de chegarem,  pois as respetivas mães provavelmente estariam à espera delas. Nesses casos eu lanchava sózinha. 


Nunca me responderam satisfatóriamente, as mulheres lá de casa, a propósito disto mas percebi depressa que o princípio era o mesmo de quem afirma convictamente que somos todos iguais mas que quando diz que é muito amiga de alguém, isso significa coisas diferentes consoante as pessoas em questão. Relativamente a uns, quer dizer que se visitam, fazem coisas em conjunto, trocam lembranças nos aniversários. Quanto a outros, significa que se dá muitas roupas usadas e com quem se conversa para lhes dar um estímulo, porque somos muito boas pessoas e somos amigos de todos, pobres e ricos, brancos e pretos.

Por falar nisso, não havia muitas "pessoas de cor" lá na terra quando eu era criança mas tive duas amigas castanhas, quando adolescente. Uma, com quem eu ia todos os dias ao supermercado a seguir ao almoço, era protegida de uma vizinha e não me iam proibir de acompanhar só porque era pretinha, não é verdade? Era referida como uma "jóia" de moça mas nunca foi convidada para lanchar. A outra, amiga em tempo de férias, também era muito boa rapariga, mas nunca me deixaram sair com ela à noite porque enfim, era mais velha, muito vivida ... (tinha a idade de outras com quem eu saía na altura).

Por entre estas e outras, alguma coisa de valor ficou das palavras que sempre me disseram. Não afirmo que sou desprovida de preconceitos e não pretendo ser  amiga de todas as meninas, mas respeito-as.

borboletas no estômago

Sou ansiosa desde que me conheço, tenho mais ansiedade social do que a maioria das pessoas e, contudo, saía-me bem a escondê-la, mesmo que com comportamentos, digamos ... estranhos. preferia passar por antipática ou, pelo contrário, entusiástica, a demonstrar que qualquer coisa me deixava com borboletas no estômago.

Um noite, já casada, fui com umas amigas de liceu a um bar de karaoke, muito na voga, então. A certa altura chamaram o meu nome para o palco: eu gelei. Nunca me furtei a cantar ao pé da família e dos amigos mais chegados mas, assim, publicamente NÃO. E uma delas, que me conhece desde o 1º ano de catequese admirou-se e comentou que me tinham metido ao barulho porque nunca tinham percebido que eu era tímida(!).

Desde essa altura já dancei e abanei maracas num bar de hotel, a acompanhar o musico entertainer. Aí, para além do namorado, ninguém me conhecia, é mais fácil. Estar com desconhecidos pode ter o conforto do grupo de amigos intimos.
Conhecidos é que são uma porra: não nos conhecem bem mas acham que sim, temos que voltar a cruzar-nos com eles mais vezes, são conhecidos de outros que também nos conhecem, fazemos cerimónia uns com os outros, enfim, é desconfortável.

É nestas situações que elas voltam, as borboletas. no estômago, na cabeça, nos pés. E eu já não as escondo tão bem.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

escondi-me dentro de mim

Escondi-me dentro de mim
para que me procurasses,
calei-me na sombra,
à espera que assim
me descobrisses.

Erro meu, que a seu tempo
tentei desenganar.
Dei-me, então, abri e
deixei esvoaçar
pétalas do que sou.

Mas estavam já desbotadas,
gastas no meu esperar
e no cansaço do olhar
com que me conheces
gestos e aromas.

do que desconheces,
não exploras,
pois estás parado na maresia
e não  me reconheces
a essência.


sábado, 15 de setembro de 2012

duas garrafas e muita conversa

Estava uma noite de verão, como poucas por cá. fomos para fora, para o nosso pequeno paraíso, com uns pedaços de pão que transformamos em jantar e acompanhamos com um sabor branco adocicado, bem fresco. O amarelo trémulo das velas mostrou-se à altura da conversa que se iniciou em torno de conceitos de romantismo e acabou no mais pessoal.

Senti que ajustamos expetativas e nos tornamos um pouco mais claros, naquela noite de pouco luar. do que discordamos então, ficou algo a macerar e, se nos incomodamos por sermos mais sinceros, acabamos mais entrelaçados. Senti, depois de duas garrafas de vinho e muita conversa.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

360º

Vi o filme, outro dia, e tenho-me lembrado dele muitas vezes. Mostra um suceder de escolhas que, feitas em determinado momento por uma pessoa, têm repercussões nas vidas de muitas outras até tocar  cada personagem inicial, após encontros e desencontros vários. É também uma história de amores e de traições, umas consumadas físicamente, outras não.

Os efeitos em cadeia mostram-se determinados e não determinantes, nas decisões de cada um e, no final, todos tomam as rédeas à sua vida e mostram-se melhores pessoas do que no início do filme.

Há vidas assim.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

setembros antigos II

Tenho dificuldade em adormecer, inventario de novo o que tenho que levar para o Algarve. Bolas, esqueci-me dos chinelos de praia; levanto-me e ponho-os na mala. Amanhã partimos cedo, eu e os pais. As despedidas por cá estão feitas, os amigos deles já lá estão desde o dia 1.

Fui à praia muitas vezes com os amigos, este verão, ora com uns, ora com outros, consoante as férias que faziam com os pais. Agora que inicia Setembro e todos estão de volta, é a minha vez de ir embora! Fica o namoro morno em banho-maria, quinze dias é muito tempo, se calhar ele já não me vai ligar ... E eu, gostarei dele, ainda? Porque é que estou tão entusiasmada por ir encontrar o Miguel lá em baixo? Tantas dúvidas! Espero um dia apaixonar-me mesmo de verdade e não as ter. E elas (ELAS) o que irão fazer estes dias?

Para mim, serão quinze dias de rotinas que já conheço: Meia-Praia até ao meio-dia; duche; restaurante; esplanada das laranjeiras; sesta; muda de roupa; jantar em casa do arquiteto; passeio noturno a pé; onze e meia regresso aos quartos. O meu costuma ser o que fica virado para a baía, do qual me escapo nos finais da tarde, para vaguear por Lagos. Para a hora da sesta, levo um monte de livros.

Compensar-me-ei da monotonia na água quente daquele mar e no entusiasmo das saídas noturnas, clandestinas, com o pessoal de lá. show me the way to the next wiskhey bar ... ainda faz eco, desde setembro passado.

Lá para dia 20 estarei de volta pra esgotar as novidades nas semanas que ainda teremos antes das aulas começarem. Ah, porra, ia esquecendo o meu rádio, volto a levantar-me para o enfiar na mala. Já quase não tenho tempo para dormir; até logo, férias no Algarve!

domingo, 9 de setembro de 2012

setembros antigos I

Acordei estremunhada, como todos os dias. mas hoje cheira diferente: a cera e a lixívia. Lembro-me: estou em casa! A Rosa e a prima Júlia devem ter vindo preparar tudo ontem, antes de regressarmos. Passamos dois meses na praia onde o ar era uma mistura  boa de cheiro de mar e de linhas do comboio. mas sabe bem estar aqui e assim que a avó fizer torradas, volta tudo ao normal. Corro para ela, descalça, ontem cheguei ensonada, não lhe dei beijinhos que chegue. mal me vê faz aqueles olhos de sorriso, abre os braços e senta-se para que eu lhe salte para o colo. tem as pernas fracas, não pode comigo em pé. além disso, estou muito grande.

Percorro devagarinho cada divisão da casa, levo um ralhete por andar descalça, vais ficar doente! calço-me e vou ver as galinhas, as pombas, os piriquitos. Agora não há coelhinhos. O tanque está cheio, tenho que ir procurar o barco no saco da praia, para o pôr nesta água. Espero que a prima Júlia esvazie o tanque antes de virem os primos, para podermos ir todos lá para dentro brincar.

A mãe quer vestir-me o bibe mas tenho calor, estou habituada a andar de fato de banho e lá era mais fresco. lembro-me dos amigos da praia. alguns virão visitar-nos no Inverno mas o Xano e a Xanda, só os volto a ver para o ano e é deles de quem tenho, já, saudades. Dantes o sr. Reis é que era o meu namorado mas agora é o Xano. Molhei-me toda a chafurdar na água, eu bem te disse para vestires o bibe, agora vais adoecer! 

Se eu ficasse doente de todas as vezes que a mãe ou a mana ameaçam, acho que já tinha morrido, mas, realmente, fico muitas vezes com febre e dores de garganta horríveis. E os primos vêm daqui a uns dias, assim que estiver tudo arrumado, e não quero mesmo adoecer agora.

Na casa da praia não me custa dormir a sesta, deve ser porque que o ar do mar cansa, ouvi dizer, mas aqui não consigo. Deixo-me ficar um bocado quieta, vou brincar com os carrinhos, com as bonecas e com tudo o que não me deixaram levar de férias. Pego em dois livros da Anita e vou enroscar-me na avó que descansa. Como tive saudades dela! Tenho calor e vou lá para fora encavalitar-me no pessegueiro. O ar está quente, doce das uvas e dos figos maduros, espreguiço-me e deixo-me ficar.

Estou contente por estar de volta a esta casa. Daqui a dois dias começa a encher-se de gente, outra vez: os primos de férias até outubro, os tios a virem nos fins de semana, (gosto muito deles que também são meus padrinhos e são brincalhões), velhotas de visita à avó que também esteve fora, os outros primos e as tias que vêm ver televisão...

A avó vai-se fartar de apanhar e comer uvas connosco,  fazer bolos da vaqueiro e pão com manteiga, açucar e canela. A mãe vai voltar a servir a comida em travessas enfeitadas, a mana vai experimentar vestidos, penteados e músicas. E o pai vai chegar a casa a sorrir todos os dias, neste verão que ainda vai durar mais um mês.


sábado, 1 de setembro de 2012

setembro entra de mansino

setembro entra de mansinho, quase sem dar por ele. prolonga-se férias por mais um pouco,
atrasam-se preocupações e rotinas, amanhã é domingo. vai saber bem estar de volta a casa, espolinhar no seu conforto antes de me fazer ao resto do caminho.