segunda-feira, 29 de outubro de 2012

estou com cheia de frio

Mudou a hora este fim de semana. Como sempre, os relógios lá de casa resistem a atualizar-se e, de manhã, apanhei um susto que me fez sair da cama de um salto. Falso atraso, voltei para o ninho mas senti-o: o arrepio que anuncia o inverno. Respeitei-o, mais tarde, quando escolhi a roupa para sair mas, porta fora, voltei a sentir no rosto o frio anunciado. E agora, arrefeceram-me os pés.

É chegada a hora de preparar tudo para receber a estação que me dá cabo da cabeça e dos joelhos. Mesmo que a temperatura volte a subir já não saio de sapato fino e casaco leve, vou querer chá cinco vezes por dia, o pão aquecido, o aquecimento ligado, banho a escaldar.

Não maldigo tanto a chuva, como costumava praguejar. Aprendi a ver por entre as pingas da chuva e a apreciar as gotas, na vidraça. Mas o frio é outra conversa, faz-me querer hibernar. Como os ursos.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

certas dores

Há dores que nunca passam, faças o que fizeres, escolhas que direção que tomares, vás pelo sentido que fores. Doem e nada podes contra isso. Há quem se entregue a elas e delas faça a razão do seu viver, não se dando oportunidade de ter outras felicidades e outras dores, até. Escolhi diferente, seguir em frente, agarrar o que quero na vida, mesmo doendo. Se assim não fosse, mais fundo, ainda, magoaria e haveria muito mais dor. Raiva nenhuma apagaria este ardor.

Doi todos os dias um bocadinho, naquele pedacinho que se perdeu. Dizem que o tempo ajuda.  Talvez. Quanto tempo? Ao que parece, ninguém sabe.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

entrada breve no diário de uma pessoa

Sou frágil, sou forte, sou o que tenho que ser e o que posso. Sou o que sou. às vezes esforço-me para parecer mais como fui mas cansa tanto! Depois,  basta um gesto, um cheiro, um sentido apurado por uma memória qualquer e desfaz-se o castelo de cartas. Consigo refazê-lo, cada vez melhor e mais rápido mas desespero quando isso acontece.

Compreendo que vos custe ver-me assim. Os que estão mais alheios às minhas cambalhotas, acusam a idade de uma certa degradação. Para tudo é preciso arranjar explicação. fiquem com essa, se vos sossega.

Quanto a mim concentro-me nos próximos passos que quero dar:  organizar informação, pôr coisas em ordem, estabelecer categorias, arrumar gavetas e por ai fora. Se é certo que é preciso organizar a cabeça pra fazer estas coisas, fazê-las também contribui para me sentir mais arrumada por dentro. É importante que, quando vierem os intrusos, os vândalos da esperança, os ladrões de sonhos, eu saiba onde estão os ramos de alecrim, de oliveira e as giestas para os espaventar.

Leio o que escrevo, maluca seria como me chamaria tempos atrás ...

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

outubro outono

outubro vai adiantado, precipitando-se na chuva e no frio que se esperavam mais modestos, que deixassem por conta do vento o varrer da paisagem.

pedi uma chávena de chá, para quando chegasse a casa, e foi com as mãos geladas que agarrei a chávena. agradecida!
aspirei o aroma do chá quente e outros se mostraram nas memórias: canela, abóbora, lenha, pão acabado de cozer, bolos de forno, castanhas, marmelada.

os tons das minhas memórias andam entre os amarelos alaranjados e os castanhos avermelhados. como as paisagens evocadas. são quentes, os outonos passados. pelo menos amornados, como os meus acordares.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

do outro lado da barricada

Mais espaços, caminhos diferentes, mais pessoas, novas regras. agora aqui, logo ali, assim e assado ... a longo prazo talvez possa ser bom mas agora sinto-me escangalhada, falta-me camioneta pra tanta carreira.

Compreendo melhor as pessoas com doença mental (e não sou eu uma delas?) cujas estruturas se abalam facilmente com alterações, com mudanças. de repente, a respiração entope, o coração sai do peito, o estomago revolta-se. a memória falha, não sabemos para onde ir, o que dizer ... e sentimo-nos umas fracas de quem é improvável alguém gostar.

Nunca pensamos transpôr a barreira mas quando damos conta lá estamos, do outro lado. e custa sair como o carago. às vezes estamos já no cimo, quase, quase a dar a volta e tunga: caímos outra vez! mas entretanto ganha-se experiência na subida, onde nos agarrarmos, que merdas evitar, que jeitos dar ...

Nem balanço a mais, nem balanço a menos.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

haveria sempre saudade

Foge-me o chão quando pressinto a saudade, 
recupero a razão quando percebo 
que saudades haveria, 
se assim não fosse. 
de mim. 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

saí da minha zona

Saí. estive fora da minha zona de conforto que é um estar perto, ter uns braços à minha espera, um colo, um adormecer velado. é a segunda vez que acontece desde o renascimento. desta vez não estava só mas não tinha o aconchego da minha casa, não sei qual das vezes foi pior. inquieta, com todos os medos. mais doente da primeira vez, mais triste desta, talvez.

Vi, na cidade ora admirada, mais chão que céu. as avenidas eram estreitas, o ar atafegado, o rio sujo, as pessoas maradas: o meu olhar viciado. 

Valeu pela ciência e pela arte, reconheci o mérito e o belo no impacto do choque. aprendi. 

Valeu porque me perdi em jardins labirínticos mas fiz-me encontrar no ponto de partida. 

Estou exausta mas precisava de saber que era capaz de fazer isto.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

chuva

minha alma adivinhava o inverno e das minhas mãos saiu a chuva
é da noite, a minha chuva, sombria, triste, bonita

nem tudo tem de ser um arco-íris para ser belo.

sábado, 6 de outubro de 2012

mural de amizade

vieram uns quantos e outros se juntaram. dividiram telas, partilharam rolos e pincéis, usaram das mesmas tintas, brincaram, cantaram, inventaram, sujaram-se, lavaram e, no final, os olhos brilharam de orgulho na fotografia à frente das 17 telas de obra feita.

todas, irão compor um mural de cenas escuras, cores brilhantes, árvores, arco-íris, ondas e outros cenários mais ou menos abstratos. grandes, pequenos e assim-assim, quadros de amigos e amizade, feitos em mesas grandes que costumam ser o palco das refeições animadas. 

mais um sonho realizado. 

tudo em mim agradece estas cores que nos foram dedicadas e dou os parabéns, em especial ao criador deste dia, pois todo o processo foi em si,  uma bonita obra de arte.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

dejá vue

uma palavra, às vezes uma frase,
uma expressão
e o dejá vue leva-me, de novo,
para as catacumbas do meu inferno

memórias às vezes, o frio,
a solidão
tolhem o pouco em que  me movo
trazem-me as angústias do inverno

descobrir o poema

Sim, lembro-me
transformavas em poema
coisas que eu escrevia
como agora ...