sexta-feira, 23 de novembro de 2012

blues

Há dias assim. hoje não.

Tempos houve em que sabia mais ou menos quando isto me iria acontecer, uma vez por mês. Estranhamente, mesmo sabendo porque me sentia assim, não via com menos gravidade o estado em que me encontrava. Dois dias depois sentia-me ridícula, apetecia-me pedir desculpa às pessoas por ter pensado o que pensei sobre elas. Começando por mim!

Recentemente, tive uma temporada completa, sentia-me assim dias seguidos. Aí, foi grave.

Atualmente nunca sei quando um blue vem por mim adentro nem quando o espavento. Quem me tem no meu melhor, lá me vai gramando neste pior. Desculpem qualquer coisinha.

Acordo cansada, olho no espelho uma coitada, vou-me vestir; não tenho nada. 
Não tenho ninguém a quem me veja abraçada. Estou só, abandonada,

O marido é aborrecido, cansado, não tem paciência para me aturar; vai deixar-me, quer outra mulher que tem tudo no sítio, que gosta de ouvir os noticiários e, apesar disso, anda sempre bemdisposta. Os filhos têm tudo desarrumado, não ligam nada ao que lhes digo, não precisam de mim. A mãe é chata, egoísta e se lhe ligo hoje a coisa acaba mal. Os amigos não estão para me aturar, nem eu a eles, é melhor ficar cada um com as suas coisas.

Vou para o serviço cansada, vejo no vidro uma falhada, vou trabalhar; não faço nada.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

a mesma estação

Tinham-se visto todos os dias durante a semana.  Agora, lado a lado, mão na mão, estavam prestes a separar-se pelo que lhes parecia uma eternidade. Ele tinha aquele olhar triste de criança só e a ela despedaçava-lhe o coração vê-lo assim, tanto como ficar sem ele. Animava-o, então, tentando mostrar o bom do que fariam um sem o outro e palrando disparates.

A estação dela era antes e despedia-se com o seu melhor sorriso, queria que ele se lembrasse dela com os olhos iluminados. Soltava as lágrimas ao som do apito da partida e fazia o resto do caminho em silêncio, com a cumplicidade de quem entendia de amores.

Quando ele lhe falou em casamento não se fez rogada e lembrou, sem dizer nada, que se acabavam as despedidas a cheirar a caminhos de ferro; passariam a chegar sempre na mesma estação!

fuga

Apetece-me gritar, mandar tudo à merda, deitar fogo a uns quantos papéis e sair porta fora. Fugir, até, e dar uns pontapés pelo caminho. Mas algures teria de abrandar e onde parasse, ia enfiar-me na cama para continuar a fuga. Até me aninhar num colo que me contenha, onde possa chorar sem medo de ser encontrada.

sonho com mãos

Estendem-se mãos até mim, nos meus sonhos recorrentes. Costumava acordar angustiada mas percebi, entretanto, que são mãos para mim, não para me sufocar. Deixo-me afagar, embalada num sono do qual não quero acordar.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

temores

Um ano atrás, receava o natal. evitava pensar nele, irritavam-me as músicas das lojas, as luzes das ruas, tudo, mas tudo, me lembrava de me esquecer. Fizeram-me o natal, não de alegria jubilosa e prendas deslumbrantes, mas um natal com amor e com ternuras tais que me permiti deixar a vida continuar pelo ano novo.

E é a entrada no ano novo que temo agora; primeiro será uma prova de fogo, depois, seguem-se balanços. É tempo de decisões, desejos, resoluções; é uma espécie de recomeço. E eu temo não estar à altura de fazer um novo ano acontecer.

cinzentos

É cinzento, a cor do inverno, mas nem todos os cinzentos são iguais; declina-se a estação que se aproxima, em tons de cinza por demais. Há cinzentos luminosos e com cheiro, qual sol a espreitar por entre o nevoeiro, ou na chuva um namoro com paixão. Há cinzentos mortos como o de um enterro, mesmo que de finado de verão. Cinzentos há que conferem discreta distinção, outros amesquinham com malfadado enfado.

Em malhas de cinzento matizado me agarro a qualquer mão; o inverno não tem que ser tão hediondo como fantasma exorcizado.

domingo, 18 de novembro de 2012

sol de novembro

Sol de novembro não é esperado diariamente pelo que é ainda mais apreciado. Ninguém diz que está pouco quente, desde que apareça, ou que está escaldante. É sempre quentinho, lindo e desejado. Apreciado até ao último raio, sem defeitos, deixa-nos na pele um arrepio quando esmorece e se despede, até qualquer dia!

sábado, 17 de novembro de 2012

dança de outono

Um mar de folhas estendeu-se no jardim, castanhas, laranjas, amarelas e douradas. Por entre elas, as gotas de chuva brilhavam sob aquele sol de outono, quente e doce. Ouvia-se o Tema de Amor de Ennio Morricone, que bem que soava combinado com a vista daquela maravilha! Então, dancei nas folhas como quem molha os pés na praia, espalhei-as como quem semeia felicidade.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

um mundo muito dele

comprava livros que já tinha lido, emprestados
porque queria te-los e reler
e não sei se o fazia
mas às vezes pegava neles e sorria

era capaz de passar uma tarde na livraria Lello
saía dez anos mais novo
uma vez esqueceu-se de mim
só quando saiu se lembrou que eu tinha entrado com ele
e acho que um dos sorrisos mais bonitos que lhe vi
foi quando voltou atrás e eu também estava esquecida de tudo
a ler
e levantei os olhos para ele, surpreeendida pelo ar preocupado
acho que nenhum de nós contou a ninguém, até hoje

por isso me custava tanto ver a alienação dos tempos finais
o desapego aos livros
pra mim foi o sinal
de que tinha entregue os pontos
e parado de sonhar
queria mesmo parar

terça-feira, 13 de novembro de 2012

beijo suspenso

Almoçaram juntos, como tantas vezes. Saíu mais cedo, ele ficou a pagar, ainda sentado na mesa junto à vidraça. Quando se virou, para descer as escadas, ergueu o braço para um último adeus, um até logo em forma de beijo na ponta dos dedos. Mas ele já olhava para outro lado, agarrado ao telemóvel. Baixou o braço e os olhos e seguiu escada abaixo, sentindo que descia também na vida. O beijo, esse ficou suspenso no ar, impregnado do seu perfume de mulher. Pode ser que alguém o leve.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

casa minha

A minha casa está cada vez mais bonita. Ganha cantos e recantos e com eles, em cada um deles, há histórias para contar. A manta da avó, a jarra da mãe, as máquinas do pai, os poemas do homem, os desenhos dos filhos, as pinturas dos amigos, as fotos e os sorrisos de todos, tudo, mas tudo isso,  fazem desta casa um lar. Juntamente com o cheiro a café ou a comida temperada na nossa cozinha e do perfume do jasmim e da terra molhada que entra, vindos do jardim, fazem maior a alma desta casa.

Cruzam-se bom-dias, sorrisos, conversas. Trespassam-se olhares zangados, fazem-se silêncios magoados, às vezes palavras duras. Há copos na banca, livros no sofá, cestas de roupa na casa-de-banho, sapatos descalçados na sala. Mas nenhuma casa de revista é tão bonita assim.

domingo, 11 de novembro de 2012

S. Martinho

Conhecido por partilhar a sua capa, expondo-se mais ao frio para que outro homem menos o sentisse,  Martinho fez mais na sua vida, decerto, para ser proclamado santo. Pequenos gestos, talvez, ou grandes feitos que fizerem dele o santo popular protetor dos pobres, em honra de quem se come castanhas e se bebe água-pé ou jeropiga.

Não se fala muito mais acerca dele mas é assim que acontece, normalmente, com as pessoas boas: são discretas e são solidárias, tão naturalmente como têm sede. Não dão a sua capa só porque está fora de moda ou apenas porque querem comprar uma nova. Não encomendam resmas de capas, de qualidade inferior, para os "pobrezinhos. Na hora em que há alguém que precisa, pode-se contar com elas para partilhar o que é seu, o que podem. Não se anunciam para mostrar a todos como são beneméritos, não se gabam com falsa modéstia do bem que fizeram nem tentam mandar na vida de quem ajudam como se lhes fosse devida subserviência. Não são pessoas perfeitas, nem querem ser santas.

Entre amigos, festejamos o S. Martinho. Todos e cada um de nós, conhecidas qualidades e defeitos, somos boas pessoas. Comemos as castanhas, bebemos o que se arranja e não há prémio pelas boas ações que não seja a nossa amizade. E não há discursos na nossa festa, apenas as bocas foleiras que trocamos.