domingo, 30 de dezembro de 2012

ano velho

Não deito fora o ano velho; feitos e desfeitos continuarão a figurar no anuário da minha história. Apenas crio uma pausa: o marco simbólico onde aligeiro a bagagem para dar lugar a novos souvenirs. 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

dor de ser

Carrego uma dor no peito, uma dor na alma, uma dor em todo o meu ser. Fará parte de mim até que as lágrimas se esgotem. E depois disso, ainda.

 Acorda-a a mais leve brisa, o leito de um rio, o sal do mar, a palavra saudade.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

presente no natal

Gostava de oferecer prendas e escolhia do mais requintado para a fazer feliz. Mas era difícil; ou porque não deveria ter gasto tanto dinheiro ou porque, por pouco mais, comprava uma coisa melhor, ou porque não precisava daquilo mas antes de outra coisa... Cada vez se esmerava mais para conquistar a sua aprovação mas parece que nunca acertava. Em vez de um sorriso de contente _ que era o que ele mais queria _  ou de um agradecimento, havia sempre uma crítica à sua escolha.

Os olhos azuis marejavam-se de lágrimas que disfarçava. Poucas vezes reagiu mais assertivamente e houve cenas e amuos. Isso não: desistiu e começou a dar-lhe dinheiro para ela comprar o que quisesse. Nada romântico;  nem de perto se assemelhava com as histórias dos livros que lhe alimentaram o romantismo. Mas pelo menos não havia reparos ao que oferecia.

Um dia, a filha sublinhou a deselegância do envelopezinho branco, seria melhor ele comprar alguma coisa, pelo menos no natal. Só que já não era capaz de decidir: andava em círculos até poucas horas antes da ceia e acabava por lhe pedir que escolhesse a prenda de natal para ele oferecer à sua raínha.

Um dia deixou de estar presente. E a mulher daria a alma para ter um presente dele.


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

vida com vida

Espreitam fantasmas do natal passado, há sempre qualquer coisa que os traz de volta. Durante um tempo tentei desesperadamente esquecer, apagar, mas não vale a pena; fazem parte da minha vida, aceito-os para continuar. Quanto à dor que os acompanha, espero que ceda aos presentes do momento.

Quanto tempo dura um luto; um ano? Pelo menos é um marco de tempo psicológico importante. Se assim for, daqui a um ano talvez tenha um natal sem sobressaltos. Mas o futuro, aprendi, são sonhos que, a seu tempo, concretizamos ou não. E isso depende muito de nós, mas não só de nós.

Tenho raiva calada, muita de mim própria. Vai explodindo, aos poucos. Deixei de ter pena de mim, não tenho pena dos outros. Por alguns sinto desprezo e ao desprezo os deixo. Como comecei, há sempre qualquer coisa que os traz de volta à lembrança; seja! Por outros, tenho amor e tenho raiva e é assim que se está numa vida com vida!



quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

o helicópterozinho

Andava a namora-los fazia tempo; gostava de ter um daqueles helicópteros teleguiados. Tentava-se, por vezes, mas não custavam pouco e não se estava em tempo de gastar nessas coisas, podia o dinheiro faltar para outras. Mas cum raio, esforçava-se tanto, merecia um gosto de vez em quando. Falou nisso à família, mostrou até; ninguém parecia achar tola a ideia de ter um.

Veio o dia em que se decidiu. Contou, já a compra estava feita, e chegou logo a encomenda. Arranjou as pilhas e andou todo o resto do dia mortinho por chegar a casa.

_Olha mãe, olha ele a voar! E o pássaro caiu no meio da sala. Tentou uma e outra vez, melhorando os tempos que o aguentava no ar. _ Ai que ainda dou cabo disto! mas continuava a tentar. _Tenho que treinar lá fora, apanhar as correntes de ar. _Sim, e se cair, cai na relva! Só mais uma vez, e outra, e mais outra, e .... catrapum!

_Queres ver que dei cabo dele? apanhou-o do chão, zangado consigo próprio; uma pá da hélice tinha partido. Tentou juntá-la, foi consolado: _ consegues conserta-lo! _ Se conseguir comprar outra pá, respondeu desolado.

Baixou os olhos tristes, aquele homem de cinquenta anos, e sentou-se com desalento, qual menino que acabara de estragar o brinquedo pedido e atendido pelo pai natal.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

um friozinho nos ossos

Acordei a meio da noite com frio e dores friorentas; mais um cobertor na cama! De manhã, o nariz arrefeceu mal me levantei; encolhi-me, agasalhei-me, bebi quente o leite com café mas nem assim encontrei conforto. Aqueceu-me o duche esfumaçante, onde me deixei mais tempo que o habitual. Vesti à pressa o que me pareceu uma dezena de peças, agarrei na pasta e saí, arrefecendo o que tinha aquecido. O carro estava embaciado, demorou a aquecer_também ele_ e, enquanto me dirigia para o trabalho, concluí que o inverno chegou, novamente, antes do seu calendário! E, com um friozinho nos ossos, fiz-me à vida.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

prenda que cresce

Coisas para fazer enchem-me de planos o pensamento, de vontades o meu ser. Algumas, triviais, de que necessito para me situar neste universo desastrado que tenho feito à minha volta; outras, mais artísticas, que servem para embelezar a minha alma e o espaço por onde quer vaguear.

Quero rasgar más recordações, deitar fora coisas feias, embelezar outras. Transformar perdidos em achados, pintar, colar, tricotar, transbordo de querer fazer. Ao lado, livros para ler; os que tenho e os que alguém há-de ter. E surge o ensejo de cozinhar receitas acumuladas no guardar. E dá-las a provar.

A tudo isto se sobrepõe o desejo de amar, beijar e afagar, um a namorar, dois a aninhar. E sorrir, às vezes apetece-me tanto sorrir que até parece que não sou eu ... será esta a prenda de natal que dou a mim própria, mesmo que não consiga concretizar tanta imagem bonita que me vem à cabeça.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

este natal

Ouço de todos os lados pessoas a quem não apetece pensar, sequer, no natal que se aproxima. Conheço esse sentir mas não partilho os motivos. Terão razão para assim dizer os que não têm emprego, perderam a casa, muitas vezes a dignidade. Quem, não tendo posses para um jantar normal mais não possa do que sonhar com uma ceia de natal. Quanto aos outros, que se lamentam por ter que "cortar" nas prendas e na qualidade do bacalhau, não respeitam o que de mais nobre tem a quadra natalícia.

No natal passado, por esta altura dizia eu o mesmo, mas porque haveria um lugar vazio à mesa, uma prenda a menos para oferecer,  menos uma taça para brindar, um pai que faltava para abraçar. Eu, que era a grande promotora das actividades natalícias, evitava pensar nelas, evitava a dor. Sentia-me incapaz, doida por vezes, capaz de imaginar horrores e sem energia para os contrariar.

Mas, o que habitualmente eu fazia, foi feito pelos homens da casa com a ajuda dos avós; apareceu a árvore de natal, o bacalhau, os doces, as prendas, e, sobretudo, muito amor entre os presentes que mantiveram viva a memória do ausente, numa cadeira à mesa, vazia de vida mas rica em boas memórias.  O meu homem, então dividido, tudo fez para me proporcionar um natal bom: reconsiderou promessas, encheu-me as paredes de outras memórias, beijou-me as lágrimas,  acarinhou-me no colo e conduziu-me a um novo ano; este.

Neste natal as prendas serão simbólicas, algumas feitas por nós. Mas haverá uma coroa de natal à porta. A ceia não terá, provavelmente, tantos mimos como habitualmente; os que houver, serão partilhados e apreciados com gosto entre pessoas que se amam.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

mortes

Adorava meu pai. Admirava-o quando pequena, depois desenvolvemos uma cumplicidade que lhe permitia confessar o seu desespero ou piscar-me o olho, compensando assim a falta de momentos a sós que a dinâmica da família não facilitava. Por vezes uma troca de olhares bastava para nos compreendermos e foi num olhar que percebi que se despedia dos demais na sala, mas que havia coisas a dizer-me antes de estar pronto para se entregar. Fiz o momento acontecer e, a partir daí e até o final, os nossos olhares trocavam-se entendidos mas conformados. Apesar disso, a sua morte deixou um vazio de tamanha dor, um pouco de mim que morria também.

A minha amiga entregou-se à morte, na semana passada, após anos de luta contra o cancro, contra os prognósticos, contra ventos e marés.  Sentindo que tinha chegado o momento, despediu-se do cão, da casa, dos teres e haveres, escolheu e deixou pago o seu próprio funeral, consolou os amigos e partiu "para outra etapa" usando as suas próprias palavras. Deixou-nos uma carta de despedida, lembrança escrita do que partilhamos. Mais um pouco de mim que se vai com as memórias que ela tinha de nós.

Conheço uma mãe que vai agora acompanhar o corpo do filho a enterrar. O filho que festejou os 21 anos há menos de uma semana e que se foi da noite para o dia, num desastre estúpido como, aliás, o são todos. Não ouso, sequer, imaginar a imensidão da sua dor. Sem lugar para despedidas com vida, perde o mais importante de si; o menino que concebeu, pariu, mimou, amou talvez mais do que a si própria e que fazia parte, não só do seu passado, mas muito do seu futuro. Nunca devia uma mãe e um pai enterrar o seu menino!

Do amigo que acompanhou aquele filho na morte, não conheço mãe nem pai mas conheço a namorada, qual viúva inconsolável a quem, o que faltaria em partilha de vida a dois, sobrava em ilusões, em romance. Outra dor será, que felizmente não conheço mas que merece o meu pesar.

Soltam-se-me algumas lágrimas de homenagem, não sei se mais pelos que morreram se pelos que continuam a viver sem eles.