sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

coisa tua


A chuva continua; a minha alma só pensa em ir dançar para a rua.
Estranho, isto em mim … deve ser coisa tua!


quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

afinal, fez-se Natal

Temi que os reis magos ficassem ofuscados com tantas luzes que se acenderam nas ruas, nas lojas e nas casas, a anunciar as festas. Afinal, distinguiram o brilho especial da estrelinha que os guiou a Belém, lá… e a todos os sítios onde se fez Natal.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

dias

Há dias em que saltas da cama para dançar com a vida e a certa altura reparas que o tango deu lugar ao fado.


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

à noite

resisto ao sono
só para te ver dormir
depois, deixo-me guiar
pelo teu embalar

adormeço a sorrir

sábado, 30 de novembro de 2013

lembrança

Faz um ano que morreu a minha amiga e o seu número de telefone ainda está na minha lista, reparo.
Hello?! ainda consigo ouvir a voz cantada com que recebia qualquer chamada.
— So long, Isa Fidalgo, princesa das Terras do Ceira!

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

nota calada

paira à minha volta
um rumor
faz-se ouvir no silêncio
da nota calada

não sei de onde me chega
mas há dor
esconde-se na ausência
de onda partilhada

quero compreender
esse murmúrio
de vento e de nada

quero entender
quem perto de mim
tem a voz estrangulada


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

sufoco

Hoje é um daqueles dias em que sufoco nas horas.
ponho-me em bicos de pés, abro todas as janelas, procuro-te
mas em vão tento respirar um pouco melhor
o sufoco vem de dentro

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

há dias. hoje não

há dias em que me sinto sufocar nas horas
é, mas não é nada bom de sentir
Ponho-me em bicos de pés para não sufocar
abro a janela mas o sufoco vem de dentro.

hoje não.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

fui andar

Fui andar

Tivesse eu o mar
ao alcance dos meus passos
para lá teria andado
desaguar o olhar

mas não ...

deixei que o sol me levasse
à beira da tua janela
não me viste,
não estavas nela

mas sim ...

ali, vi o dia brilhar

preconceitos

Falávamos de preconceitos, uns de nós assumiam uns quantos, outros afirmavam-se muito "open mind". Quanto a mim, sosseguei logo os telhados dos vizinhos, não seria eu a atirar a primeira pedra. Temos sempre ideias feitas a propósito de pessoas que sejam um tudo ou nada diferentes de nós e da nossa tribo e encaixamos estereótipos que as nossas atitudes, senão as nossas palavras, refletem.

Gosto muito de pessoas de todos os tamanhos, cores e feitios e, à partida, penso que são boas. Logo se confirma ou não a minha (ingénua, dizem alguns) opinião. Mas se não parto do princípio de que as loiras são menos inteligentes ou que os ciganos enganam toda a gente, outros preconceitos se revelam quando menos os espero.

Algum tempo atrás, apresentei-me no hospital com uma marcação para um doutor de especialidade. Na sala de espera, inquirida para que médico "estava" fui alvo de olhares de mal contida inveja e suspiros por parte das clientes da casa: —" ah, que sorte ...". No guichet, a secretária clínica olha sorridente para o papelinho que apresentei e exclama — "ah, o dr. fulano!", entretanto chega a colega para levantar os processos e junta-se-lhe na admiração: — olha que sorte, para o dr. fulano!" E lá aguardei que me chamassem, já quase melhor dos sintomas que me apoquentavam só por estar convencida que iria ser atendida por um veterano craque da medicina. E lá fui confiante até ao gabinete do dr., acompanhada de uma solícita funcionária que fez questão de ir comigo, onde me deparei com um trintão bem encorpado, lindo, moreno e sorridente, qual adónis de bata branca! E eu, a quase"despreconceituosa" dei por mim a pensar:
— sorte o carago; eu a precisar tanto de um bom médico e sai-me na rifa o irmão mais novo do Clooney!"

Não me interpretem mal, eu até sou fã do George e segui durante muito tempo o "Serviço de Urgência" mas naquele momento, o que eu queria mesmo era cura para as minhas maleitas, que não eram da vista nem do coração! E o que passou por esta cabeça foi que se era novo e sexy não seria bom médico. É horrível de se pensar, isto, não é? pois ...

Quero ainda dizer-vos que, apesar da minha pouco saudável atitude, o doutor deu conta do recado.





segunda-feira, 4 de novembro de 2013

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

a São faz anos


Gosto que os meus amigos façam anos, espero que façam muitos, que os festejem e que me convidem a participar na sua alegria de viver. Hoje são os anos da São e são tantas as coisas de que me lembro ...

Não estou presa em saudades de quando éramos mais novas; foi bom e permitiu o que agora somos. Agora somos o mesmo mas bem curtido. Apreciamos a sinceridade destravada com que nos presenteamos e afirmamos a nossa amizade em pequenos e grandes gestos. Não ignoramos os defeitos e os maus feitios; gostamos mesmo assim! Rimos e choramos como umas tolas com as alegrias e tristezas de uma e de outra e não tememos as bocas de quem não entende a amizade.

Aposto que nesta parte do texto já ela se está a rir com uma lagrimita a querer saltar! É bom saber que é assim e que ela me vai responder em privado com um chorrilho de impropérios porque fiz com que esborratasse o rimmel que, como é dia de festa, certamente barrou generosamente nas pestanas.

porto de abrigo

Era o meu colo, o teu porto de abrigo
No meu peito pousavas o teu silêncio
um beijo ou uma cantiga
No meu coração encontravas a paz
e o sal da vida

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

futuro

Abeiro-me da janela com vista para o vindouro e encontro cacos por entre as papoilas, muitos cacos; de corações partidos.

Ponho, então, as mãos acima do rosto e levo o olhar mais longe, lá... onde nascem miosótis ao pé do mar.

domingo, 29 de setembro de 2013

ciúmes das malvinas

— Ele diz que eu sou uma chata!, conta ela com a mesma ligeireza com que tinha dito, minutos atrás, que precisou de apanhar dois autocarros para aqui chegar. — Mas eu já lhe disse, continua, — ó homem, no dia em que eu deixar de te procurar pelos teus pensamentos, no dia em que eu deixar de me importar com o que traz animado ou arreliado, no dia que eu deixar de ter ciúmes das malvinas com quem tu conversas... hum... nesse dia estou morta pra ti! é porque morreu uma parte de mim, que era a tua!

Continuou a falar do seu Fernando e eu, enquanto a ouvia, só pensava que aquele era um homem com sorte pois a mulher, a quem ele carinhosamente chama chata, sabe mais que um tratado de terapia conjugal.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

tecedeira de palavras

Por achar em demasia (presunção de minha parte, até) aceitar que me chamasse escritora, Ângela perguntou o que chamar, então, a alguém que faz da escrita um prazer ...

Nomeou-me ela, de seguida: Tecedeira de Palavras!
E eu descobri que a minha amiga é poeta.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Pai, desculpa mas ainda choro

Os pais das minhas amigas não te sobreviveram muito tempo; primeiro um, depois outro. Depois da tua morte, sei avaliar e identifico aquela dor; doí-me também, por elas e por mim. Vacilei no primeiro, cerca de 2 meses depois caí de joelhos, no segundo. Abriu-se aquela chaga que eu julgara ser já uma cicatriz.

É uma dor imensa, do tamanho do amor que te tenho. Acalma sim, e na bonança destes dias já consigo escrever-me sobre nós sem me desmanchar num pranto incompreensível para quem tem, ainda, pai vivo.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

as notícias

Desde pequena que gostava de ver as notícias. A partir de certa altura, passou a gostar de as ouvir, também.

Primeiro era o fascínio da imagem: os cavalheiros elegantes das notícias e do tempo eram entremeados com locutoras simpáticas, bem vestidas, bem penteadas. Sempre que ouvia a palavra chique lembrava-se da Isabel Wolmar, da Maria Fernanda, da Alice Cruz e agora não lhe vem à ideia o nome das outras. Não importava o que diziam, de que falavam; ela passava o tempo a admirar o ripado do cabelo, os colares, o traço escuro nos olhos, os vestidos modernos. O seu sonho de menina era o de um dia andar assim bem apresentada mas, para isso, tinha que estudar muito ou arranjar um marido fino. Pelo menos, era o que lhe diziam.

Estudou muito mas, afinal, o que era preciso era estudar muitos anos. Marido fino, assim bem apessoado como o Jorge Alves ou o Engenheiro Sousa Veloso, não encontrou. Casou-se já ia ficando para tia, com o Fernando do restaurante Zip Zip e o mais próximo que conseguiu vê-lo parecido com o Fialho Gouveia foi no dia do casamento e no funeral do sogro, que depois o fato deixou de lhe servir. E ela bem tentava apresentar-se bem mas olhava-se no espelho e, não sabia explicar o que era, ficava sempre a dever alguma coisa ao clássico.

Entretanto na televisão também a elegância desaparecia, qualquer uma ia apresentar qualquer coisa, vestida de qualquer maneira, com cabelos oleosos até, se calhasse. E os homens continuavam a vir de fato mas não tinham corpo nem maneiras para ele assentar como deve ser. Começou então a reparar no bem que falavam. Não que ela percebesse muito daquilo, que não tinha estudos para isso, mas apreciava as palavras bonitas, ditas assim com autoridade de quem sabe o que diz, bem pronunciadas e sem se enganarem! Era bonito de ouvir, e havia entrevistas a meio das notícias e tudo ... Depois começaram a aparecer uns que diziam as coisas como quem está a falar no café, sem estilo nenhum. Alguns enganavam-se, havia letras a passar em corrida em baixo, depois apareciam 3 ou 4 ao mesmo tempo, a interromperem-se uns aos outros sem educação nenhuma, enfim, uma tristeza ...

Continua a ver as notícias. E a ouvi-las também.
Quem havia de dizer mas um dos sobrinhos é telejornalista (ou lá como lhe chamam agora) e conta algumas coisas lá do "trabalho". Então, ela agora diverte-se muito ao olhar para os rapazinhos engravatados do jornal das nove ou das dez, todos vaidosos, e saber que provavelmente para baixo estão de calças de ganga, de calções ou até de calças de fato de treino. E elas, as mocinhas têm sempre defeito para se lhes põr: roupa justa, barata, muito rouge, pouca classe. As mais importantes são vestidas por estilosos da moda mas também sem jeito nenhum, com as fatiotas a acentuar os defeitinhos da idade que a Maria Leonor, Deus a tenha, apresentava com tanto charme.

"civilizada"

Quando quase morreu, de lá veio cansada de ser bem comportada, civilizada, correta. Agarrou a vida com todas as letras, abriu o peito e soltou a alma. Quis deixar crescer a paixão sem podas, sem amarras, num amor latino com garra, saudade, rosas vermelhas e um tango.

Mas no amor um só querer não chega e o outro querer era de um aconchego à inglesa. Ele havia vivido intensamente todo um verão e as fantasias seriam, agora, borboletas distantes.
Deu por si, então, a pensar se começava a ver a nova novela ou arranjava um par de amantes.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

tenho um colo para ti

Tenho um colo para ti
assim, imenso ...
como o meu cabelo
tal como o mar
suave ou revolto
tem ondas e remoínhos
vontade própria
e o infinito


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

encontro

Ó dótora! — encontra-me ela de braços abertos e um sorriso de cara cheia — gosto tanto de a ver! E eu contente também, fui perguntando pelos filhos, — que sim, estão todos bem, encaminhados na vida graças a Deus, vamos ver se o mais novo não desatina; pela mãe — lá vai andando, coitada, a idade não perdoa; por ela — cá estou, como vê ... e sempre sorrindo em grande conta-me as novidades de cá e de lá, da família que voltou para Angola e dos que daqui foram para essa Europa.

— Então e a dótora? E é a minha vez de contar de mim, mais a parte da dótora que das outras vidas ela não conhece. — Gosto tanto de a encontrar! repete. E de novo aquele sorriso com que me presenteia há quinze anos. Mas desta vez o sorriso desfaz-se em lágrimas, — desculpe, desculpe-me, diz, e as lágrimas soluçam e do peito daquela mulher alegria saem as tristezas traiçoeiras de quem não sabe porque está tão infeliz.

domingo, 8 de setembro de 2013

rio azul

Hoje sou um rio em queda.
Depois de um leito calmo, serpenteado entre margens de mágoas e de saudades, soltaram-se-me as águas de corrente em torrente, em cataratas de lágrimas.

São azuis, as minhas águas; da cor dos teus olhos.

sábado, 7 de setembro de 2013

terça-feira, 3 de setembro de 2013

ofuscado

o meu sol brilha todos os dias
mas às vezes não se vê
porque os olhos estão sujos

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

ausência

De novo estive no quieto da noite
a ouvir o teu silêncio.

Hoje era um silêncio de ausência
havia o que escutar, no entanto.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

gostares

De passarinhos entendo tanto como de arte; quando gosto é porque fico fascinada pelos sentidos.
Não é necessário mais explicações.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

manoel, com ó de passarinho

Li Manoel de Barros, ouvi Manoel de Barros e alguns que têm o privilégio de o conhecer.
Voltei a ler; os sentires nunca mais serão os mesmos!

à mesa

As melhores conversas fazem-se à mesa.
Temos grandes conversas de família à mesa da sala de jantar, almoços de negócios e jantares de homenagens, mas as melhores conversas fazem-se em mesas de duas ou três pessoas, por vezes um pouco mais. São aquelas em que muda qualquer coisa dentro de nós: a maneira de entender qualquer assunto; de olhar a pessoa; de escutar uma música...
São as conversas em que nos aproximamos pelas palavras aconchegadas com uma caneca de chá, uma bica, um fino. Estamos nelas debruçados para os outros sobre a mesa da cozinha ou do café sem noção do tempo que passa e do tanto que fica.

sábado, 10 de agosto de 2013

ondas de verão

São ondas meu senhor; são ondas! poderia dizer qualquer santa rainha a propósito dos milagres de agosto.

São ondas de mar com salpicos de saudades; ondas de calor que nos despem até de preconceitos; ondas de desejo; ondas de prazer; ondas de paixão. Assim é o verão. E por entre vagas de memórias mais ou menos distantes chegam-nos aromas aveludados e calafrios escaldantes de um amar por entre ondas de ilusão que chegariam a presentes de uma relação. Mas não. Terão sido apenas ondas de verão.

E qualquer mortal deste lado ocidental com direitos de férias de então que não tenha nunca a elas sucumbido, às ondas de verão, que atire a primeira pedra! assim poderia dizer qualquer cristão, a propósito dos pecados de agosto.

domingo, 4 de agosto de 2013

aniversário de infância

Este é o ano em que os nascidos em 63 chegam à respeitável idade de 50 anos e assim, mês após mês, vai tocando a todos os meus "conterranos" a sineta que assinala o meio século. Hoje foi a vez de uma das poucas amigas de infância que tive, daquela infância antes da entrada na escola, da qual todas as memórias cheiram a rebuçados.
Foram duas, as amigas de infância, numa multidão de desvairados corredores de automóveis, de polícias e ladrões e de jogadores de futebol. A outra amiga era mais nova e reservada apenas a dois meses de verão, a reboque de uma amizade mais verdadeira, essa sim com alguém da minha idade: o irmão. Esta, que hoje pode reclamar o estatuto de senhora, era amiga sem mês marcado e, tal como eu, vivia num povoado de rapazes com quem dividia bolos, tareias e um pastor alemão. Na escola, sentadas por ordem alfabética, lado a lado trocamos lápis de cor, segredos e ideias para as redações.
Aprendemos mais tarde outros requintes da amizade feminina, distinguimo-nos nas escolhas juvenis, pertencemos a grupos diferentes mas que sempre se foram cruzando. Com carinho e o cheirinho dos rebuçados das suas festas de aniversário, lembro-me de lhe dar os parabéns e desejar que encontre a felicidade das risadas que outrora semeamos no vento.

domingo, 28 de julho de 2013

cicatrizes

São marcas da vida em nós, as cicatrizes, vestígios de que algo aconteceu nestes corpos. Umas têm histórias fascinantes de aventuras e riscos que se ousaram, outras acidentes domésticos apenas.

Cicatrizes, tenho várias e desde muito cedo. As grandes, sempre as conheci assim e fazem parte deste corpo do qual nunca esperei a perfeição de capa de revista. Outras, mais pequenas e discretas, lembram quedas, cigarros, outros pequenos acidentes que ficaram, assim, com memórias ligeiramente esculpidas na pele. Nada fiz, nunca, para as remover ou disfarçar. E, contudo, ando há um mês a dissimular a última, bem no meio do rosto.

Aquela, de que não tenho memória de ter feito, lembra-me, em cada acordar, a minha negligência para com a própria vida. Não a tentaria apagar, pois, não fora estar também gravada na alma. Essa cá está, para me lembrar.

sábado, 27 de julho de 2013

atração

Chega quase sempre de noite, começa numa voz em surdina que me chama, qual cântico de sereia. Ignoro o mais que posso, tapo a cabeça com as almofadas mas já a vontade está magnetizada. Amarro-me os meus pensamentos com cordas, guitas, fios, tudo o que me possa segurar. Mas nada disto é suficiente para contrariar a atração pelo abismo. Concentro-me numa corrente humana mas até essa se vira a favor do lado negro. Até quando? Estou cansada, mas hoje consegui resistir.
Amanhã, talvez.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Susana

Era a mais velha de duas e sobre os ombros carregava todas as responsabilidades do mundo. Alta, elegante, de longos cabelos pretos sempre bem escovados, sorriso perfeito. Apenas o ar grave destoava naquele bonito rosto de 14 anos. A irmã, essa chegava à escola com o cabelo desalinhado, a irreverência no olhar e a luz de mil sóis no sorriso.

Quando conheci a Susana mais de perto, preocupei-me com tanto tino: as normas eram para se cumprir inquestionavelmente; os assuntos eram para ser levados a sério; as obrigações sempre em primeiro lugar e as coisas eram para acontecer segundo a ordem convencionada. Parecia que tinha passado logo de criança a adulta, com uma pressa calculada. Diversas vezes lhe sugeri que descontraísse, não fazia mal portar-se um bocadinho mal ... só um bocadinho pequenino ... E não dizia mas pensava que a vida são dois dias e esta menina carrega o peso de três!

A sua vida terminou, efetivamente, cedo. Foi hoje a sepultar com apenas 36 anos feitos. A irmã, essa carregava nos ombros todas as dores do mundo, no olhar só vi desolação e no sorriso, parco e triste, a busca da perfeição.

Recordei as duas miúdas, antes ainda da escola, e desfiz-me em lágrimas por ambas, pela mãe, pelo pai... Chorei também todos aqueles que conheci "miúdos" e já morreram: Isidro; Telmo; Chico; Daniel e agora, Susana. Segundo a ordem que esta tanto prezava, não deveria acontecer assim!

segunda-feira, 22 de julho de 2013

domingo à noite

Em minha casa moraram vozes e nozes de gente feliz durante dois dias. Os males de cada um baixaram-se à alegria de sermos muitos, estarmos juntos, termos vida em nós.

Mas quando se foram, entrou de rompante a angústia de domingo à noite, terrivelmente marcada, hoje, pelo contraste de tons e de sons ou por outras consumições. No silêncio escuro e sózinho, revejo as imagens guardadas e reparo, então, que aquelas sempre cá estiveram. À espera de segunda-feira.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

encalhada

Partilho escritos antigos com os amigos de rede e deles para outras pessoas, desconhecidas. Aqueles com quem me sinto melhor: amigos e desconhecidos. Edito o publicado, umas vezes por capricho literário, outras para não me expor mais do que quero. Delicio-me a ilustrar as minhas palavras, tal como faço já há um ano com os poemas daquele que mora em mim.
Neste entretanto pouco escrevo e começo a sentir-me encalhada, nas sílabas e no coração.

sábado, 13 de julho de 2013

escadas de Quebra Costas

_"Estudante que não caia nas Escadas de Quebra Costas não acaba o curso!" avisou-me logo a senhoria do quarto com serventia de cozinha, bem abaixo de Almedina.
Foram as escadas de todas as manhãs, durante os meus primeiros anos em Coimbra e lá acabei por escorregar, um dia. Juro que não foi de propósito mas consegui o canudo, sim senhora! Tal como muitos outros que nunca por lá tombaram...
Na altura, acho que nenhum de nós, jovens doutores, entendia a profecia e sorríamos, condescendentes, dos ditos dos futricas. Só mais tarde se entende que tirar um curso em Coimbra, é muito mais que ter um diploma.
E que quem nunca caiu nas Escadas de Quebra Costas é porque não passou lá as vezes suficientes, com a cabeça no ar e a alma leve ...

quinta-feira, 4 de julho de 2013

ilusões

Dizes-te tua, chamo-te meu. Quanta ilusão fazemos, nós que sabemos que ninguém é de ninguém ... Pois não voa o pensamento tantas vezes para o mar? Pois não bate forte o coração por outro pulsar? Aos meus braços regressas, no teu colo me aninho. Chamas-me tua, digo-te meu; e esquecemos tudo o que sabemos sobre o amor. Acreditamos, porque sem ilusões nem de nós próprios seríamos.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Shall we dance?

Revia o filme em que uns quantos aprendizes passavam a campeões de dança nuns passos de magia. E deu-lhe uma vontade louca de dançar, dançar, dançar ... começar na sala e sair para o jardim, sempre a rodopiar. Mas hoje, como no filme, era uma dança com par, dançar em braços de homem, neles levitar. Mas para tal não tinha par e, assim, resolveu ver o filme até ao fim.

Outro dia, outro filme, quem sabe, dar-lhe-á uma vontade louca de dançar sozinha e aí far-se-á cisne num canto qualquer.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

solstício de verão

Chegou na madrugada, mostrou o passaporte mas não mais do que isso. Recolheu-se aos seus aposentos, deixando o mundo entregue a si mesmo; precisa de se redimir por ter tentado matar o tempo. Mas não será por isso que se esvaiu, ainda, todo o seu fulgor. Este voltará ... a seu tempo. Podemos, assim, ter verão em novembro.

terça-feira, 18 de junho de 2013

momentos bons, momentos maus

Temos momentos bons e momentos maus, na vida. Fatal como o destino? Talvez parcialmente. Não podemos evitar uma doença, o falecimento de um familiar e outras coisas. Mas...

Estava aqui a ruminar que tenho tido de uns e de outros em grande conta e hoje estava-me a apetecer um momento dos bons. Bom, mesmo, daqueles que não se esquecem, ainda que não se tire fotografias. E constatei que, se o quero, tenho que o fazer.

Quando pensamos em momentos a dois, é mais díficil estalar os dedos e já está. Até a Samantha precisava da boa disposição de Darrin para mexer aquela boquinha feiticeira e criar um programa romântico. Mas basta um para lembrar que precisamos (desejamos) fazer momento dos bons. Com o resto da família, com os amigos, com quem se quer, é igual: temos que fazer.

E fazer é criar, realizar, produzir! E deixar-se estar no momento como um danado de prazer.
E quanto mais momentos bons fizermos, (dos mesmo bons, claro) menos espaço deixamos para momentos maus. Esses, também podemos fazer. Mas não aconselho.

coração de princesa

Intitula-me raínha sua
e ele meu.
Com orgulho reino
a seu lado
num condado ajardinado
onde namoramos
e fazemos magias

mas não é de raínha
o meu coração;
é de princesa que tãobem se encanta
e desencanta
com as flores, as borboletas
as andorinhas da primavera
e o cheiro do mar.

E é no jardim
de todo o seu coração
que quero amar
o meu principe encantado
e desencantado

ser feliz ou ter razão

Como eu gostaria de não ter razão
como seria bem mais feliz ...
mas tenho esta (mal)fadada intuição
que tanto mostra, tanto me diz.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

saudade

Olá Pai. Cá continuas neste cantinho de mim, onde as dores da tua ausência física se transformam em saudade linda. Contudo, fazes-nos falta, ainda tanta! Mesmo agora sei que não dei a devida atenção às tuas advertências e descurei tanto da e na vida de todos nós. Mas cá estamos, lágrimas e sorrisos, berros e gargalhadas, amassos e abraços, naquilo que eu gostaria de fazer numa vida latina. Ouvimos uma música por ti -contigo-, eu e o João. Era das poucas dos Floyd de que gostavas ... wish you were here! Limpamo-nos as lágrimas com afagos e eu digo-te "até logo", em cada vez que eu te desencantar das minhas memórias ou dos meus sonhos.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

na concha

Sem dar conta de início, fui fechando minha concha. E dentro dela me enrolo, me enleio, me atafego. Ganham terreno as compulsões, a desordem, o caos. Estão por toda a parte na casa, na cabeça, no serviço, na carteira.

Escrevo-me pouco e mesmo esse fica engavetado, tal como os sentimentos que escamoteio e as emoções que entravo. Mas não chegarei a cinzas, não desta vez.

A seu tempo, em breve, aqui abrirei o espaço para os escondidos de quase um mês. E, meia a meia, papel a papel, decisão a decisão, tomo conta do que é meu.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

idade oficiosa

É oficial: tenho meio cento de anos.
Fez-se a festa com as pessoas que mais amo num rodopio de cozinhados, gargalhadas, taças de champanhe, beijos e tudo e tudo e tudo. Até birra de mãe no final,  já um clássico, afinal.

E, no entanto, não acredito na minha idade. Não a renego -não é isso- mas não me encontro e não me reconheço numa mulher de cinquenta. Se calhar já tive mais até, mas hoje tenho 35 anos.

terça-feira, 28 de maio de 2013

parabéns

Não sei bem porque nem quando se me meteu esta ideia, mas desde que me conheço penso que morrerei nova, aí pelos quarentas e tais, cinquenta no máximo. Talvez por isso nunca apostei muito em planos para o futuro ... E porque faço 50 anos, hoje, encaro cada "mais um" como uma espécie de bónus que merece ser comemorado com muita alegria.

Vou sair, vou por-me bonita e festejar a vida e o amor.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

novos velhos amigos

Foi giro, estranho mas bom, conhecer alguém que sabia mais de mim do que muitos com quem janto todos os meses. Havia quase um ano de brincadeiras partilhadas, desabafos, confissões, alentos, conversa fiada e, no entanto, se nos cruzassemos na rua não nos reconheceríamos.

Agora já há rostos, sorrisos, vozes e olhares para quem está do outro lado ... da dimensão.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

abram alas que lá vão elas

Amanhã fazemo-nos à estrada, tu mais eu menos os nossos homens (já nem contamos com os filhos).

Estás angustiada por ires confrontar-te com os dramas da senilidade familiar e entusiasmada com o reencontro de velhos amigos. Eu estou entusiasmada com o encontro de um amigo que conheço das letras e angustiada com a separação daquele de quem tomo as letras e a vida.

E temo-nos, duas gajas com angústias e entusiasmos partilhados (sei que é difícil eles entenderem isso) a fazerem-se à estrada, 500 km por um baile!

E sabes que mais? acho que vamos gostar de ir e de saber que somos capazes de ir. E que lhes perdoamos por não dançarem com a gente.

sábado, 18 de maio de 2013

coisas de gaja

Quero e não quero. Queria que ele também quisesse mas não quero que  queira só porque quero. E ele não quer. E, sem ele, eu quero e não quero.

Mas há uma coisa que sei que quero: dar um passo em frente na confiança. Saber que sou capaz e que fico em paz.

domingo, 12 de maio de 2013

juventude

Todos somos ou fomos crianças, é um facto inquestionável, mas quanto a ser jovem, algumas pessoas maduras nunca o foram. Passaram diretamente para as coisas sérias, sem provar o inconsequente e o maravilhoso de viver para as paixões de uma banda musical, de amores improváveis, de causas perdidas e de amizades achadas. Não fizeram o vôo só possível pela oposição aos pais, os quais nunca se atreveram a desafiar.

São como fruta amadurecida no escuro, essas pessoas. Pouco doces, de pele e coração encarquilhados de tanto se franzirem, são adultos sempre prontos a condenar tudo aquilo a que se negaram. Alguns definham em insatisfação e desconsolo até que morrem, mesmo antes da morte chegar. Outros fazem um balanço, quando atingem o que se convencionou por  meia-idade, e tentam viver numa década a chamada juventude perdida. Magoam-se pelo caminho, magoam outros nos ricochetes de um fogo-de artifício desajeitado, mas muitos aprendem a montar a cavalo no vento.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

bom aniversário, se puderes ...

Sempre tiveste mais 32 anos. 
Nunca quis ser como tu quando fosse grande e vejo agora que tinha razão. Passas na vida como num palco, alternando entre papeis dramáticos clássicos, e quando te faltam os aplausos escondes-te atrás da cortina.

Tentarei aconchegar-te com ternura, hoje, já que não me deixas fazer-te feliz.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

maio

Desaguou abril neste mês que se faz anunciar em dias maiores e se desfolha em rosas, aniversários e ternuras. 

Nasci em maio, tal como minha mãe. Em maio soube que ia ser mãe. E em maio é o dia da mãe. Mas foi também em maio que morreu aquela que, no aconchego da ternura, me foi mãe: a mãe de minha mãe.

Abri as janelas a maio, esta manhã, e chegaram-me os aromas românticos do jardim que habita em mim: o perfume do jasmim trazido de um sábado namoradeiro, a doçura da glicínia, o cítrico suave do limonete, o cheiro a lavado da alfazema. No regresso, levo um vaso de hortelã-pimenta chocolate, pois assim que o senti soube que faltava em casa, onde cada vez mais os perfumes se misturam com cheiro de pão, bolos e café.

Levo também uma azálea, cor-de-rosa menina, para oferecer a maio.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

terça-feira, 23 de abril de 2013

quem vê caras ...

Levantou-se a custo, cansada, vagarosa. Não havia tempo para pequeno-almoço sentada nem para toilettes demoradas. Lavou a cara com sabonete, escovou os dentes, alisou o cabelo e prendeu-o num carrapito simples. Na cara, apenas espalhou hidratante. Optou por um vestido de corte clássico e uns mocassins pretos, não podia demorar a fazer outras combinações. Quando voltou atrás para agarrar num casaco de malha, olhou-se no espelho: parecia uma freira à civil. 

Aquela imagem veio-lhe à cabeça no caminho para o trabalho e esboçou, então, um sorriso. Hoje, quando olhassem para aquela mulher de 50 anos com ar de professora de moral antiga, ninguém iria imaginar que tinha estado a ler Mário Vargas Llosa até de madrugada. E muito menos ousariam suspeitar que, quando se enfiou na cama, despertou um vulcão de sensualidade e se entregou ao amor  de todas as maneiras, como se o mundo fosse acabar naquela hora.

domingo, 21 de abril de 2013

trapezista

Vou a direito, de queixo empinado e coração apertado, sentido o arame de que é feito o meu caminho. Há uma rede: amparou-me coreografias arriscadas, mas tem bocados frágeis, alguns traiçoeiros. Por isso, atento nos sons do pensamento e trauteio diferente, num tom acima da nostalgia. Estendo, então, os braços na direção do sorriso mais brilhante que me guie por entre as estrelas deste pano de circo.

domingo, 14 de abril de 2013

rascunhos

Passei a semana a escrever e a apagar: "não, não é isso que quero dizer"; "não, não é bem assim que sinto"; "não é essa que eu sou". Não me revejo nas minhas palavras, não me reconheço no medonho. Elimino, então, os rascunhos malditos deste pedaço de mim.
No entanto, de cada escrito que apago ficam-me os borrões na alma. Ou já lá estavam, e por isso de mim escorreram as linhas daninhas que teimo em mondar.

domingo, 7 de abril de 2013

inverno do nosso descontentamento

"Este é o inverno do nosso descontentamento!" Baixaram as temperaturas a valores não registados há meio século, as chuvas quase não nos dão descanso, as casa arrefecem, os corpos doem, as almas escurecem. Os empregos desaparecem e os ordenados dos que ainda os têm desceram também. As preocupações e as contas fustigam-nos como o temporal e tudo isto entra por um abril que deveria ser de primavera, cujas águas deveriam apenas lavar a passagem para o maio soalheiro e não encher de lama e desolação os caminhos de todos nós, tão castigados já.
Abençoados os que, no meio deste descontentamento, têm um ninho de calor humano, uma corrente de esperança feita de amigos e uma canção para cantar.

menino da flauta, estudante da caixa

Gostei do festival mas sobretudo, gostei de te ver nele, filho. Apareceste-me mais alto e mais velho e não era só do fato, era dos meus olhos também. Gostei de te ver sorridente, empenhado, sereno, co-responsavel num projeto sério ao qual te entregas e que, com amigos antigos e novas amizades, te faz feliz. Ali estava o menino da flauta de quem tanto me tenho desencontrado. Gosto muito de ti, estudante da caixa.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

males de cabeça

Pensavas que a tinhas dominado, que a coisa estava controlada, mas basta um deslize, um pequeno descuido,  um contratempo, e ela assoma à tua alma como lama, como lava, como larva. Deixaste-a a vaguear por ti tempo demais, cresceu, tomou conta de cantos recônditos que nem tu sabias ter. E ficou, qual vírus calado à espera que fraquejes um pouco para dar cabo de tudo.

Já devias ter aprendido que faz parte de ti, tão certo como um par de cornos que não vês, ninguém vê, mas sabes que estão lá. Ela também.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

abril da história

De abril evoco uma madrugada de sussuros,  uma escola em alvoroço mal contido, a emoção com que se tiraram livros escondidos, lá em casa, e a alegria com que me disseram que doravante poderia cantar o que me apetecesse (esta liberdade viria a ser revogada, mais tarde, mas por questões de decoro e não por atemorização pidesca).

Lembro, um ano depois desse abril, da novidade das eleições: os cartazes e os murais, os discursos de campanha, os resultados eleitorais! Coincidiu o dia solene da "ida às urnas" pelos maiores com o primeiro dia numa nova casa que haveria de marcar para sempre uma mudança na vida de todos nós, família alargada.

Sem mais histórias, abril faz parte da história. História do meu povo, história da minha família e minha história também. Cheira a cravos, tintas e lixívia.

quinta-feira, 28 de março de 2013

sonhos de toda as cores

Sonhava, eu gaiata, sonhos no sono, sonhos acordada. Estes davam-me muito prazer enquanto que os primeiros me inquietavam: davam corpo a pressentimentos e outras coisas que na altura não compreendia.

Sempre fui muito cética relativamente a fenómenos paranormais (na altura dizia-se espirituais), contudo,  em plena adolescência, acreditava  nas enormes potencialidades do nosso cérebro em produzir e/ou utilizar energias responsáveis pela telepatia, telequinese, sonhos premonitórios e outros que tais. Era assim que me explicava a natureza das minhas intuições e presságios. 
À medida que fui enterrando os pés no chão, sonhando acordada cada vez menos, diminuíram também os outros sonhos, ou melhor, a recordação deles. Durante uma década não havia nada para entender da minha atividade onírica. Até que um dia a emoção gritou tão alto que partiu vidros de vitrines e de janelas, libertando aquela parte de mim, intuitiva, que tanto tinha ignorado e até repudiado.
Acordei só na noite, não conseguindo respirar com tanta angústia, tanta dor no peito. Eram os braços de uma qualquer ao redor de um corpo meu, despedaçando-me o coração. Ignorei, na hora. Então veio minha vó de braços abertos acolher na morte o homem que mais paz lhe terá dado na vida. Deu-me a coragem e serenidade para aceitar o inaceitável. E depois de reaberta esta dimensão, outras imagens se seguiram tais como meu pai advertindo-me sobre a minha negligência extrema para com a própria vida.
Continuo sem acreditar em espíritos e fantasmas mas estou certa de que as pessoas emocionalmente próximas continuam vivas para nós através de tudo o que com elas aprendemos, partilhamos e amamos. Materializam-se nos nossos sonhos, se deixarmos. Quanto aos outros sonhos e pressentimentos, creio que uma grande sensibilidade e perspicácia em captar os sinais do que se passa à nossa volta, permite depois reorganiza-los no sono e no sonho e intuir o que vai acontecer.

Não tenho medo de sonhar, agora. Nem dos sonhos de acordada, nem dos do sono. As desilusões que poderão advir dos primeiros nada são ao pé da grandiosidade que eles trazem à vida. Os mistérios dos segundos ajudam-me a entender o incompreensível. 

sexta-feira, 22 de março de 2013

sonho azul e verde

Sonhei-nos numa ilha azul e verde. Subíamos um monte, eu ligeiramente atrás, receosa, mas tu olhaste-me sorrindo e estendeste-me a mão. Sorri, então, para ti e para o mar e fechei os olhos porque era tudo tão belo que me não cabia no olhar. Beijaste-me, abracei-te.
Avançamos, sem pressas mas sem perder tempo. Mais tarde demo-nos, afogueados, cada um buscando no outro a beleza que tínhamos horas antes partilhado. Mas não é ao vermelho quente dessas horas que me agarro ao acordar; o meu sonho é azul e verde.

quinta-feira, 21 de março de 2013

sol de primavera

Começou ontem - diz quem sabe - mas para mim hoje é o dia da sua chegada ao meu jardim, à minha casa, à minha alma. Coincide com a aproximação da páscoa e, embora esta não seja muito significativa para mim, há um clima de renascer que me faz bem. Urgente, mesmo para aqueles que gostam das chuvas e do frio invernoso.

Logo de manhã fiz alguns movimentos simbólicos de mudança de tempos: coisas simples, domésticas, mas que revertem em recargas de energia preciosas. E o sol, meu deus, este sol! Talvez demore mais um pouco a instalar-se lá fora - diz quem é entendido - mas o sol primaveril de hoje já matizou de verde e amarelo os cinzentos calcários que se acumularam dentro de mim.

Já só falta livrar-me do azamboado histamínico que me impede de escrever mais do que estas repetições de mim mesma.

terça-feira, 19 de março de 2013

Pai: gosto muito de ti!

Já não há telefone para nós, mas eu digo na mesma: - gosto muito de ti, Pai!

Estás em mim: em tanto que me amaste; em tudo o que me ensinaste; em muito do que sou e do que me dou.  Lágrimas grossas choram a ausência do teu sorriso neste dia, faltas-me de incontáveis maneiras, mas vives em mim, daquele modo que só os muito queridos conseguem.

Escrevo beijos imensos, para ti.

sábado, 16 de março de 2013

frio

Imagens lindas de inverno passam-me pelos olhos mas o meu viver faz-se de mais sentidos que não encontram bem-estar nestes tempos. O frio entranha-se-me nos ossos, literalmente, atrofia-me o cérebro, embacia-me os olhos, tapa-me o respirar, arde-me na pele. Dói-me no corpo e na alma e a cada ano que passa maior é o tormento.

Teimo em colorir este nevoeiro de gelo mas não sei por quanto tempo consigo resistir; a compulsão por hibernar é magnética.

sexta-feira, 15 de março de 2013

6ª à tarde

Tenho que me esforçar imenso durante toda a semana para que o meu trabalho se aproxime daquilo que esperam de mim os que me conhecem há mais de 2 anos. É duro, esgota-me. Mas à sexta saio mais cedo e então só me apetece dizer disparates, fazer disparates, inventar disparates. Fico mais leve, tiro os sapatos da drª e descalça deixo-me ir, escapando a deveres, fugindo a saberes e abraçando com a alma todos os seres que bendigo nas minhas parcas orações. Gosto de mim assim, inspirada para o colorido.

Hoje a minha amiga enevoou e, na sua forma férrea de estar nos dias, aproximou-se de mim. De manhã ofereci o meu colo, à tarde juntei-me a ela, duas pitas amigas há 40 anos a trocar mensagens de vários tons. É uma boa altura para ser amiga de alguém, a 6ª à tarde.

domingo, 10 de março de 2013

domingo ajaneirado

Chuva, vento, frio: mas isso é lá fora, onde hoje eu não existo. Acordei no aconchego de um quentinho de ternura e tenho um domingo cá dentro para viver: pequeno-almoço preguiçoso; revistas; notícias dos amigos; escrita no sofá com um fundo de smoothjazz; almoço de domingo tardio com final de leite creme caseiro; duche demorado; um livro. Passarei no espelho de cara lavada, apenas maquilhada com um  sorriso mimalho no olhar. Depois, depois logo se vê: um 007 na tv; amigos para lanchar; um telefonema demorado; um abraço, um passo de dança ... o que acontecer e o que me apetecer: é o que de bom tem um domingo ajaneirado.

quinta-feira, 7 de março de 2013

a história da vida dela

Tenho 14 anos, feitos em Maio, e não sei o que fazer do resto da minha vida. Não sou bonita mas devo ser uma rapariga interessante, pois ando sempre rodeada de gente e todos querem a minha atenção.
Sou a mais nova de uma família de avó, pais, irmão e empregada (mais cão, gato e piriquitos). Adoro os mimos e os confortos que me permitem a burguesia familiar mas passo cada vez mais horas no meu quarto, sonhando com o dia em que saio de casa apenas com uma mochila e vou conhecer mundo e outras gentes. Farei pequeno trabalhos, aqui e ali, apenas para me sustentar e poder prosseguir viagem.
Sei que esperam coisas grandes de mim e não quero desiludir os que mais amo. Também não me vejo em posições subalternas ou de dependência, pelo que irei estudar até um nível superior. Não é sacrifício, até gosto de estudar, adoro ler e escrever, também.
Fascina-me uma boa história, desvendar a vida por detrás de cada personagem, seja num livro, num filme ou até na vida real. Gosto de fazer parte das histórias dos outros, sem lhes roubar, contudo, o papel principal. Esse tê-lo-ei, na história da minha vida, aquela que vou fazer.

quarta-feira, 6 de março de 2013

salvadora

Chegou esbaforida já a reunião decorria. Entrou, soprou, desculpou-se, soprou novamente, pousou a pasta com espalhafato e sentou-se na ponta da cadeira. Sussurrou para o lado, inquirindo sobre o que se estava a passar mas ninguém parecia dar-lhe atenção. Interrompeu então a presidente, de dedo no ar, para a questionar sobre o ponto da ordem de trabalhos. Tirou folha e caneta da pasta e rabiscou a data mas nada mais ali foi escrito pois não tardou a dar palpite e em menos de nada argumentava de pé.
Por cada pessoa que participava na discussão fazia-se em resposta, proposta e solução. Metade do tempo para si e o restante para os cerca de vinte colegas, enquanto estes não se cansassem. Neste entretanto foi andando, andando, foi-se chegando ao meio da sala, afogueada, e eis que está sentada entre a presidente e o ecrã do projetor, bem na frente de todos, onde, enfim é o seu lugar.

domingo, 3 de março de 2013

os triângulos de Mi

As mortes nas nossas vidas aproximaram-nos Mi: não há semana que tu não me procures ou que eu não vá saber de ti. E, no entanto acabaram-se os momentos de frenesim em que me puxavas para um canto, nas menos vezes em que estávamos juntas, para me contar as bençãos da tua ultima paixão - e foram muitas. E a tua mãe já não me chama para te ligar ou ir ter contigo ao quarto, na esperança que eu te faça sair do escuro e da cama onde enterras outro amor desfeito.

As histórias tinham, invariavelmente, os mesmos contornos. Sempre te atraíram amores interditos, homens que não podiam ser teus. Aproximavas-te de mansinho, com o olhar terno e desprotegido de quem procura colo, com o teu jeito infantil de rir e de te entusiasmares com qualquer arco-íris. Estendias o tapete da amizade, enaltecias todos os gestos do amigo a quem elevavas a herói, e, em menos de nada estavas a ouvir compreensivamente falar de um casamento em que ele não era compreendido, de uma família que não reconhecia o seu valor, onde  já não havia o amor que ele precisava tanto. E tu, enquanto fazias de advogada da legítima e propunhas soluções para uma família feliz, semicerravas os  olhos, tocavas "acidentalmente" com a tua mão na dele, e debruçavas-te na direção da sua atenção. O ombro amigo oferecia o peito, a boca, a alma.

Contavas-me do primeiro beijo que nenhum dos dois queria mas aconteceu, distanciaram-se uns dias com a vergonha e com a culpa mas tudo esclareceram, ele não podia fazer isso à mulher, tu não querias estragar-lhe a vida. E abraçaram-se. E queriam e não queriam, estavam nos braços um do outro e separavam-se com sorrisos e lágrimas e o barco dele navegava de volta a ti. E um dia deitavas-te amante de um homem casado. Seria feio dito assim, mas acreditavas que estavas acima de todo o pecado porque vocês eram anjos a quem a vida tanto tinha castigado e que mereciam ser felizes.

Ele jurava que  nunca tinha traído a mulher e tu juravas que era a primeira vez que andavas com um homem casado.

O amor bastava-te, de início. Cantavas, contavas-me, sonhavas, vivias para o momento do reencontro. Mas depois querias mais. E mais. Os sorriso angelicais davam lugar aos amuos de menina, cada vez mais frequentemente: precisavas de provas de paixão, tinhas ciúmes. Para alguns dos teus amantes acabava-se logo aqui o encantamento e terminava-se o namoro de poucos meses mas muitas lágrimas que eu consolava sem te julgar.

Outros faziam promessas que nunca chegavam a cumprir. Não podiam deixar a família agora, a mulher estava doente, os filhos precisavam dele, o dinheiro, o emprego, a mãe que estava a morrer, tudo era motivo para adiar a decisão que tu esperavas. Então tornavas-te negligente no sigilo, alguns domingos ligavas para lhe ouvir a voz, outras vezes esperavas à porta do emprego, precisavas de o ouvir, de o ver muito para além do que ele te concedia. Fazias ultimatos.

Mercê dos teus inocentes descuidos, algumas das esposas descobriam, chegaste mesmo a ser ameaçada. Mas, mais do que chamarem-te a cabra que te sentias, o que te doía mesmo é que ele, afinal, amava essa mulher de quem se queixara, não trocava a vida miserável que tinha pintado por uma vida ao teu lado. Outras vezes não chegava a esse ponto. Tendo descoberto em ti uma mulher como as outras, cujo amor não era tão incondicional como inicialmente havias oferecido, então o infiel dizia que não o merecias, que ia continuar a amar-te mas não podia arrastar-te nos seus problemas, que desejava sinceramente que arranjasses alguém que te fizesse feliz.

E, após umas longas semanas de desespero, de escuro e de fronhas molhadas, voltavas a ter ilusões. E eras feliz por mais uns tempos, com alguém que jurava nunca ter traído a mulher e a quem tu juravas ser a primeira vez que andavas com um homem casado.

Da última vez que fui tua confidente amorosa, estavas cansada, desgastada. Tinha sido a tua relação mais longa, mais até do que qualquer dos teus casamentos, e estavas mesmo convicta de que, se ele tivesse coragem de deixar a mulher, seria feliz contigo. Escreveste cartas à cornuda, acusando-a de ter cativo um homem nas teias da sua infelicidade, dando-lhe provas de que o infeliz te amava  a ti, na esperança de que ela o libertasse por pena ou por ira de mulher traída. Mas não as enviaste, essas cartas. És carente, assanhada, sedutora. Mas não és a cabra que te chamaram, Mi.

Depois desse, não sei mais. Tenho fugido aos teus triângulos pois as mudanças na minha geometria não me permitem dar-te o consolo que outrora buscavas em mim. Voltaste tu a dar-me colo e a pentear a espiral dos meus caracóis.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

de meu valentim

"queres ser minha namorada?
se quiseres dou-te um beijo
também tenho um abraço
um bombom e um chiclete
o meu cromo preferido
e uma vida apaixonada ..."

e eu disse: sim. sim. sim!

domingo, 10 de fevereiro de 2013

ser feliz é para os tontos

É coisa que se se ouve muito por aí: ser feliz é para os tontos.

E, no entanto proliferam artigos sobre a felicidade e como alcançar tal estado de graça, abundam livros que se propõe ensinar-nos ou ajudar-nos a sermos felizes, rara é a página facebookiana que não apresenta post intitulado ser "feliz é ...", ou "a felicidade está...", com partilhas e likes em grandes números.

De repente (ou talvez não, eu é que tenho andado distraída) anda toda a gente à procura do santo graal da felicidade enquanto se destila antidepressivos e ansiolíticos à escala industrial.

Quanto a mim, sempre acreditei em desejos de vela de aniversário e de estrelinhas, na passagem d' ano, em número mágico de três. _seria tonta? talvez ... Um dos desejos era invariavelmente, desde a adolescência madura, "ser feliz". E com este, quase que dispensava formular os restantes.

Durante anos a fio considerei-me uma pessoa feliz, crente nas pessoas, confiante em mim, no ar, na água e nas estrelas. Não me lembro de como se acumularam tantas desilusões, de como e quando deixei de ser feliz. Recordo apenas um limbo onde terei anestesiado durante uma década os males que me enterravam.

Hoje não formulo o desejo de ser feliz; apenas ensejos mortais. E com a sua concretização, em pequenos episódios de quotidiano, fico contente tantas vezes, fico feliz até. Tenho mais vagar para isso, agora que desisti da corrida ao ouro da felicidade.

Contudo, há alturas em que tenho saudades de ser tonta.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

mulher de pouca fé

Tardei a confrontar-me com aquele momento em que se perde a ingenuidade e, como tudo o que acontece fora do seu tempo, demora no retomar o fio da vida. É o momento e que se perde a fé e a confiança, até em nós, e é essa que importa conquistar primeiro.

Tenho ainda muito caminho a fazer até ao dia em que, sem bengalas de qualquer espécie, seguirei confiante. Fá-lo-ei! Pelo menos nisso, acredito.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

janeiro fora

Janeiro fora: mais uma hora! diz-se por aí com agrado pelo crescer dos dias. Para mim é enguiço que se quebra, maleita que se cura, morte que se adia. Por mais um ano, pelo menos, decido!

sábado, 26 de janeiro de 2013

26 de janeiro

Há momentos que transformam uma vida. Sacodem-nos com vigor ou, pelo contrário, embalam-nos docemente. Depois de os vivermos, nada mais será o mesmo: alteramos rumos planeados, decisões tomadas, cartas escritas.

Um ano atrás, embalei-me num momento assim... e foi tão bom, quando!

Não sabia o que teria pela frente nem o que estava para trás; foi apenas um presente no momento.
A vida no presente.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

dias que correm

Não passei o dia de hoje, correu ele sozinho, sem mim. Num breve momento de lucidez, assinalo-o para poder acreditar, mais tarde, que existiu. Mesmo para mim, que cá não estava.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

velha

Mantas de velha, tosse de velha, cismas de velha, remédios de velha. Mais um pouco, um pouco de velha, e renovo máxima antiga afirmando-me"eu, sou eu e os meus comprimidos".

As mãos incharam e agora sapudas destroem coisas que dantes criavam. Tenho cataratas nos pensamentos e a motivação centrada em aquecer-me. O termostato avariou, sem o calor de outra pessoa não consigo estabilizar a temperatura. O meu cheiro mudou: cheiro a velha.

Surgem fantasias que interpreto na terceira pessoa; bizarra a ideia de ser eu a concretiza-las! Conduzo com os medos de velha que um dia foi parar mais o carro ao quintal do vizinho.
Encolho-me, encarquilho-me.

No meu tempo, há três semanas atrás, ia vestir o casaco para conquistar o dia. Hoje, acaricio o sonho de que vou acordar deste sono de velha e descobrir que foi só mais um pesadelo. Já me aconteceu.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

olhos de prisioneiro

Está numa daquelas prisões em que o deixam ir dormir a casa e ao fim-de-semana. De segunda a sexta, posto o sol, despe o fato de riscas e vai para onde é livre. Mas, em lá chegando, perdem-se os olhos no horizonte, qual ilhéu a ficar-se no mar. Se cantasse, seria um fado pois o tema do seu olhar é saudade. Talvez saudade de si, quando não se sentia prisioneiro das suas próprias escolhas.

Parte de si é livre, declama, e por ela se reinventa, se recria. Mas todo ele cresce neste movimento e a parte que reclama sofre mais ainda com as impostas grilhetas, conhecidas as alturas maravilhosas onde o leva a sua arte. Porque todo ele é artista, ainda que discreto.

Por essa arte se fará pessoa e todos os cantos serão a sua vida.

domingo, 20 de janeiro de 2013

rasgo vermelho

É cinzento o dia. Cinzenta tem estado a minha alma, a minha esperança, a minha pele. Há, contudo, um rasgo de vermelho lá ao longe, projetado pela minha vontade de viver.

sábado, 19 de janeiro de 2013

nada

Lado a lado, convergíriamos na direção um do outro, fazendo assim um só coração com os nosso corpos. Depois, tu contavas-me uma história, uma qualquer, não importa qual: eu agarrar-me-ia à tua voz para sair do nada.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

quebras de tensão

Vou deambulando pelo dia, ensonada, cansada, amarfanhada, contrariando a vontade de me deitar ou, pelo menos, encostar a cabeça e aninhar. Avançando na noite, derreada, mesmo com as drogas de doutor, os sonos são curtos.

Assaltam-me, pela madrugada, ideias, vontades, sonhos _ quase delírios _. Não tem fim, a montanha de coisas que quero realizar, os livros  a ler, os sítios a ir, as coisas a dizer, os quadros a pintar. Mas, de manhã estou demasiado cansada para fazer acontecer e esgoto-me nas (poucas) tarefas rotineiras de que consigo dar conta. E entre camisolas e meias que dobro e alinho, caem lágrimas desobedientes por tudo o que não compreendo.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

sonhos

Sonhava com o cavaleiro andante e, após alguns príncipes desencantados, encontrei-o.

Sonhava com uma família feliz, com duas ou três crianças e um S. Bernardo: fizemos uma família com dois rapazes que tiveram uma infância maravilhosa. dispensamos o cão.

Sonhava com o que seria quando fosse grande: contra receios e preconceitos procurei o que fui durante mais de vinte anos. E era boa, no que fazia.

Sonhava em ir a todo lado: fui a imensos sítios.

Não sei quando parei de tentar levar os sonhos até ao dia seguinte.
Não me lembro de quando parei de sonhar

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Agarro o telemóvel: não há mensagens novas. Espreito o messenger: ninguém me chamou. Com pouca esperança abro a caixa de correio: muitas novas mas nenhuma de quem me interessa. Hesito em tomar a iniciativa, novamente, mas temo mais silêncio do outro lado.

Estou encalhada nesta fria manhã de janeiro, esperando o que sairá de tanto nevoeiro.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

rua das vidas

Moro numa rua da cidade que me entra pela casa sem se fazer rogada. Abro as portadas da janela e chegam os sons da vida: conversas, tacões de sapatos, risos, motores e buzinas, mais ao longe o comboio. Debruço-me um pouco, à espreita, e derreto  o olhar nas cores que apressadas vão e vêm, umas  desgastadas, outras ao encontro da felicidade. Algumas estão paradas oferecendo um pedaço de vida a troco de pouca coisa.

Não resisto _ nem quero_ ao apelo da rua e vou à bica, vou ao pão, vou ao leite e à fruta e trago comigo os cheiros de todas essas vidas. Vou sem pretexto, também, e acabo sempre à beira rio murmurando coisas da vida à água que passa, para que as leve para o mar.

Serena, volto renovada para as novas sensações que todos os dias me oferece esta rua da cidade, onde um dia entrei sem me fazer rogada.

ajaneirada

Está um dia lindo: foi bom o despertar para ele. Mas ao longo da manhã arrefeceu esse namoro e logo me ajaneirei. Procuro, então, consolo em prazeres de gata de dentro.

sábado, 12 de janeiro de 2013

saudade

Hoje foi saudade do meu riso apardalitado, despreocupado, confiante.

Era o chilrear de quem crê que o riso não tem idade. Era o trinar de quem gosta de alma e coração e acredita que tanto amor, nos seus olhos transparece aos olhos dos amados. Era o gargalhar mansinho de quem traz na mão a confiança.

Afinal não era assim. E  aquele riso cristalino; nunca mais o ouvi.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

like a rock

Soa melhor em inglês, sou mesmo um calhau.

Vou acumulando areias, poeiras, canseiras. Choro; essa água e esse sal tornam-se parte do meu ser que cresce com a convicção de que precisa ser duro. Um dia é preciso fazer qualquer coisa e eu atiro-me disparada a qualquer obstáculo e, quer o deite por terra quer não, desfaço-me _ qual calhau _ em mil pedaços.

Agarra-se minha alma a uma pedrinha em forma de coração que vai acumular areias, poeiras, canseiras. E as lágrimas confundem-se com mar.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

despreendimento

ajoelho ao sol de inverno
dobro-me sobre o ventre
numa cascata de ondas
e no teu colo, quente
entrego a minha alma
e escuto o silêncio
levar-me, assim vazia
não sei se para o céu
se para o inferno.

domingo, 6 de janeiro de 2013

janeiro

Desponta janeiro, de mansinho. o mês de que não gosto, o início em que me sinto acabar, o tempo em que até o corpo me falha.

Cresce janeiro; entendo-me com ele na gestação do que farei a seguir, quando largar as mantas em que me escondo.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

pedras

Parece o mesmo sol que me aquece, o mesmo silêncio que me rodeia, a mesma tosse que me apoquenta.

Aconchego-me a sonhar que as pedras dos meus sentimentos se fragmentam no abismo e desaparecem no nevoeiro dos meus esquecimentos. até que um dia me pergunte se realmente não foram só pesadelos.

Lavo com sal a alma, depois levanto-me; para não ir junto com tudo o mais.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

de novo

Deixo que o ano entre com as cautelas de quem perdeu a  ingenuidade no anterior. olhando por fora, parece que pouco mudou e, no entanto, são bem diferentes os olhares com que vejo por dentro, mais azuis são as cores do mundo, mais ácidos os cheiros dos dias.

pelo menos, agora já não penso que estou a enlouquecer.