sábado, 26 de janeiro de 2013

26 de janeiro

Há momentos que transformam uma vida. Sacodem-nos com vigor ou, pelo contrário, embalam-nos docemente. Depois de os vivermos, nada mais será o mesmo: alteramos rumos planeados, decisões tomadas, cartas escritas.

Um ano atrás, embalei-me num momento assim... e foi tão bom, quando!

Não sabia o que teria pela frente nem o que estava para trás; foi apenas um presente no momento.
A vida no presente.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

dias que correm

Não passei o dia de hoje, correu ele sozinho, sem mim. Num breve momento de lucidez, assinalo-o para poder acreditar, mais tarde, que existiu. Mesmo para mim, que cá não estava.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

velha

Mantas de velha, tosse de velha, cismas de velha, remédios de velha. Mais um pouco, um pouco de velha, e renovo máxima antiga afirmando-me"eu, sou eu e os meus comprimidos".

As mãos incharam e agora sapudas destroem coisas que dantes criavam. Tenho cataratas nos pensamentos e a motivação centrada em aquecer-me. O termostato avariou, sem o calor de outra pessoa não consigo estabilizar a temperatura. O meu cheiro mudou: cheiro a velha.

Surgem fantasias que interpreto na terceira pessoa; bizarra a ideia de ser eu a concretiza-las! Conduzo com os medos de velha que um dia foi parar mais o carro ao quintal do vizinho.
Encolho-me, encarquilho-me.

No meu tempo, há três semanas atrás, ia vestir o casaco para conquistar o dia. Hoje, acaricio o sonho de que vou acordar deste sono de velha e descobrir que foi só mais um pesadelo. Já me aconteceu.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

olhos de prisioneiro

Está numa daquelas prisões em que o deixam ir dormir a casa e ao fim-de-semana. De segunda a sexta, posto o sol, despe o fato de riscas e vai para onde é livre. Mas, em lá chegando, perdem-se os olhos no horizonte, qual ilhéu a ficar-se no mar. Se cantasse, seria um fado pois o tema do seu olhar é saudade. Talvez saudade de si, quando não se sentia prisioneiro das suas próprias escolhas.

Parte de si é livre, declama, e por ela se reinventa, se recria. Mas todo ele cresce neste movimento e a parte que reclama sofre mais ainda com as impostas grilhetas, conhecidas as alturas maravilhosas onde o leva a sua arte. Porque todo ele é artista, ainda que discreto.

Por essa arte se fará pessoa e todos os cantos serão a sua vida.

domingo, 20 de janeiro de 2013

rasgo vermelho

É cinzento o dia. Cinzenta tem estado a minha alma, a minha esperança, a minha pele. Há, contudo, um rasgo de vermelho lá ao longe, projetado pela minha vontade de viver.

sábado, 19 de janeiro de 2013

nada

Lado a lado, convergíriamos na direção um do outro, fazendo assim um só coração com os nosso corpos. Depois, tu contavas-me uma história, uma qualquer, não importa qual: eu agarrar-me-ia à tua voz para sair do nada.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

quebras de tensão

Vou deambulando pelo dia, ensonada, cansada, amarfanhada, contrariando a vontade de me deitar ou, pelo menos, encostar a cabeça e aninhar. Avançando na noite, derreada, mesmo com as drogas de doutor, os sonos são curtos.

Assaltam-me, pela madrugada, ideias, vontades, sonhos _ quase delírios _. Não tem fim, a montanha de coisas que quero realizar, os livros  a ler, os sítios a ir, as coisas a dizer, os quadros a pintar. Mas, de manhã estou demasiado cansada para fazer acontecer e esgoto-me nas (poucas) tarefas rotineiras de que consigo dar conta. E entre camisolas e meias que dobro e alinho, caem lágrimas desobedientes por tudo o que não compreendo.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

sonhos

Sonhava com o cavaleiro andante e, após alguns príncipes desencantados, encontrei-o.

Sonhava com uma família feliz, com duas ou três crianças e um S. Bernardo: fizemos uma família com dois rapazes que tiveram uma infância maravilhosa. dispensamos o cão.

Sonhava com o que seria quando fosse grande: contra receios e preconceitos procurei o que fui durante mais de vinte anos. E era boa, no que fazia.

Sonhava em ir a todo lado: fui a imensos sítios.

Não sei quando parei de tentar levar os sonhos até ao dia seguinte.
Não me lembro de quando parei de sonhar

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Agarro o telemóvel: não há mensagens novas. Espreito o messenger: ninguém me chamou. Com pouca esperança abro a caixa de correio: muitas novas mas nenhuma de quem me interessa. Hesito em tomar a iniciativa, novamente, mas temo mais silêncio do outro lado.

Estou encalhada nesta fria manhã de janeiro, esperando o que sairá de tanto nevoeiro.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

rua das vidas

Moro numa rua da cidade que me entra pela casa sem se fazer rogada. Abro as portadas da janela e chegam os sons da vida: conversas, tacões de sapatos, risos, motores e buzinas, mais ao longe o comboio. Debruço-me um pouco, à espreita, e derreto  o olhar nas cores que apressadas vão e vêm, umas  desgastadas, outras ao encontro da felicidade. Algumas estão paradas oferecendo um pedaço de vida a troco de pouca coisa.

Não resisto _ nem quero_ ao apelo da rua e vou à bica, vou ao pão, vou ao leite e à fruta e trago comigo os cheiros de todas essas vidas. Vou sem pretexto, também, e acabo sempre à beira rio murmurando coisas da vida à água que passa, para que as leve para o mar.

Serena, volto renovada para as novas sensações que todos os dias me oferece esta rua da cidade, onde um dia entrei sem me fazer rogada.

ajaneirada

Está um dia lindo: foi bom o despertar para ele. Mas ao longo da manhã arrefeceu esse namoro e logo me ajaneirei. Procuro, então, consolo em prazeres de gata de dentro.

sábado, 12 de janeiro de 2013

saudade

Hoje foi saudade do meu riso apardalitado, despreocupado, confiante.

Era o chilrear de quem crê que o riso não tem idade. Era o trinar de quem gosta de alma e coração e acredita que tanto amor, nos seus olhos transparece aos olhos dos amados. Era o gargalhar mansinho de quem traz na mão a confiança.

Afinal não era assim. E  aquele riso cristalino; nunca mais o ouvi.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

like a rock

Soa melhor em inglês, sou mesmo um calhau.

Vou acumulando areias, poeiras, canseiras. Choro; essa água e esse sal tornam-se parte do meu ser que cresce com a convicção de que precisa ser duro. Um dia é preciso fazer qualquer coisa e eu atiro-me disparada a qualquer obstáculo e, quer o deite por terra quer não, desfaço-me _ qual calhau _ em mil pedaços.

Agarra-se minha alma a uma pedrinha em forma de coração que vai acumular areias, poeiras, canseiras. E as lágrimas confundem-se com mar.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

despreendimento

ajoelho ao sol de inverno
dobro-me sobre o ventre
numa cascata de ondas
e no teu colo, quente
entrego a minha alma
e escuto o silêncio
levar-me, assim vazia
não sei se para o céu
se para o inferno.

domingo, 6 de janeiro de 2013

janeiro

Desponta janeiro, de mansinho. o mês de que não gosto, o início em que me sinto acabar, o tempo em que até o corpo me falha.

Cresce janeiro; entendo-me com ele na gestação do que farei a seguir, quando largar as mantas em que me escondo.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

pedras

Parece o mesmo sol que me aquece, o mesmo silêncio que me rodeia, a mesma tosse que me apoquenta.

Aconchego-me a sonhar que as pedras dos meus sentimentos se fragmentam no abismo e desaparecem no nevoeiro dos meus esquecimentos. até que um dia me pergunte se realmente não foram só pesadelos.

Lavo com sal a alma, depois levanto-me; para não ir junto com tudo o mais.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

de novo

Deixo que o ano entre com as cautelas de quem perdeu a  ingenuidade no anterior. olhando por fora, parece que pouco mudou e, no entanto, são bem diferentes os olhares com que vejo por dentro, mais azuis são as cores do mundo, mais ácidos os cheiros dos dias.

pelo menos, agora já não penso que estou a enlouquecer.