quinta-feira, 28 de março de 2013

sonhos de toda as cores

Sonhava, eu gaiata, sonhos no sono, sonhos acordada. Estes davam-me muito prazer enquanto que os primeiros me inquietavam: davam corpo a pressentimentos e outras coisas que na altura não compreendia.

Sempre fui muito cética relativamente a fenómenos paranormais (na altura dizia-se espirituais), contudo,  em plena adolescência, acreditava  nas enormes potencialidades do nosso cérebro em produzir e/ou utilizar energias responsáveis pela telepatia, telequinese, sonhos premonitórios e outros que tais. Era assim que me explicava a natureza das minhas intuições e presságios. 
À medida que fui enterrando os pés no chão, sonhando acordada cada vez menos, diminuíram também os outros sonhos, ou melhor, a recordação deles. Durante uma década não havia nada para entender da minha atividade onírica. Até que um dia a emoção gritou tão alto que partiu vidros de vitrines e de janelas, libertando aquela parte de mim, intuitiva, que tanto tinha ignorado e até repudiado.
Acordei só na noite, não conseguindo respirar com tanta angústia, tanta dor no peito. Eram os braços de uma qualquer ao redor de um corpo meu, despedaçando-me o coração. Ignorei, na hora. Então veio minha vó de braços abertos acolher na morte o homem que mais paz lhe terá dado na vida. Deu-me a coragem e serenidade para aceitar o inaceitável. E depois de reaberta esta dimensão, outras imagens se seguiram tais como meu pai advertindo-me sobre a minha negligência extrema para com a própria vida.
Continuo sem acreditar em espíritos e fantasmas mas estou certa de que as pessoas emocionalmente próximas continuam vivas para nós através de tudo o que com elas aprendemos, partilhamos e amamos. Materializam-se nos nossos sonhos, se deixarmos. Quanto aos outros sonhos e pressentimentos, creio que uma grande sensibilidade e perspicácia em captar os sinais do que se passa à nossa volta, permite depois reorganiza-los no sono e no sonho e intuir o que vai acontecer.

Não tenho medo de sonhar, agora. Nem dos sonhos de acordada, nem dos do sono. As desilusões que poderão advir dos primeiros nada são ao pé da grandiosidade que eles trazem à vida. Os mistérios dos segundos ajudam-me a entender o incompreensível. 

sexta-feira, 22 de março de 2013

sonho azul e verde

Sonhei-nos numa ilha azul e verde. Subíamos um monte, eu ligeiramente atrás, receosa, mas tu olhaste-me sorrindo e estendeste-me a mão. Sorri, então, para ti e para o mar e fechei os olhos porque era tudo tão belo que me não cabia no olhar. Beijaste-me, abracei-te.
Avançamos, sem pressas mas sem perder tempo. Mais tarde demo-nos, afogueados, cada um buscando no outro a beleza que tínhamos horas antes partilhado. Mas não é ao vermelho quente dessas horas que me agarro ao acordar; o meu sonho é azul e verde.

quinta-feira, 21 de março de 2013

sol de primavera

Começou ontem - diz quem sabe - mas para mim hoje é o dia da sua chegada ao meu jardim, à minha casa, à minha alma. Coincide com a aproximação da páscoa e, embora esta não seja muito significativa para mim, há um clima de renascer que me faz bem. Urgente, mesmo para aqueles que gostam das chuvas e do frio invernoso.

Logo de manhã fiz alguns movimentos simbólicos de mudança de tempos: coisas simples, domésticas, mas que revertem em recargas de energia preciosas. E o sol, meu deus, este sol! Talvez demore mais um pouco a instalar-se lá fora - diz quem é entendido - mas o sol primaveril de hoje já matizou de verde e amarelo os cinzentos calcários que se acumularam dentro de mim.

Já só falta livrar-me do azamboado histamínico que me impede de escrever mais do que estas repetições de mim mesma.

terça-feira, 19 de março de 2013

Pai: gosto muito de ti!

Já não há telefone para nós, mas eu digo na mesma: - gosto muito de ti, Pai!

Estás em mim: em tanto que me amaste; em tudo o que me ensinaste; em muito do que sou e do que me dou.  Lágrimas grossas choram a ausência do teu sorriso neste dia, faltas-me de incontáveis maneiras, mas vives em mim, daquele modo que só os muito queridos conseguem.

Escrevo beijos imensos, para ti.

sábado, 16 de março de 2013

frio

Imagens lindas de inverno passam-me pelos olhos mas o meu viver faz-se de mais sentidos que não encontram bem-estar nestes tempos. O frio entranha-se-me nos ossos, literalmente, atrofia-me o cérebro, embacia-me os olhos, tapa-me o respirar, arde-me na pele. Dói-me no corpo e na alma e a cada ano que passa maior é o tormento.

Teimo em colorir este nevoeiro de gelo mas não sei por quanto tempo consigo resistir; a compulsão por hibernar é magnética.

sexta-feira, 15 de março de 2013

6ª à tarde

Tenho que me esforçar imenso durante toda a semana para que o meu trabalho se aproxime daquilo que esperam de mim os que me conhecem há mais de 2 anos. É duro, esgota-me. Mas à sexta saio mais cedo e então só me apetece dizer disparates, fazer disparates, inventar disparates. Fico mais leve, tiro os sapatos da drª e descalça deixo-me ir, escapando a deveres, fugindo a saberes e abraçando com a alma todos os seres que bendigo nas minhas parcas orações. Gosto de mim assim, inspirada para o colorido.

Hoje a minha amiga enevoou e, na sua forma férrea de estar nos dias, aproximou-se de mim. De manhã ofereci o meu colo, à tarde juntei-me a ela, duas pitas amigas há 40 anos a trocar mensagens de vários tons. É uma boa altura para ser amiga de alguém, a 6ª à tarde.

domingo, 10 de março de 2013

domingo ajaneirado

Chuva, vento, frio: mas isso é lá fora, onde hoje eu não existo. Acordei no aconchego de um quentinho de ternura e tenho um domingo cá dentro para viver: pequeno-almoço preguiçoso; revistas; notícias dos amigos; escrita no sofá com um fundo de smoothjazz; almoço de domingo tardio com final de leite creme caseiro; duche demorado; um livro. Passarei no espelho de cara lavada, apenas maquilhada com um  sorriso mimalho no olhar. Depois, depois logo se vê: um 007 na tv; amigos para lanchar; um telefonema demorado; um abraço, um passo de dança ... o que acontecer e o que me apetecer: é o que de bom tem um domingo ajaneirado.

quinta-feira, 7 de março de 2013

a história da vida dela

Tenho 14 anos, feitos em Maio, e não sei o que fazer do resto da minha vida. Não sou bonita mas devo ser uma rapariga interessante, pois ando sempre rodeada de gente e todos querem a minha atenção.
Sou a mais nova de uma família de avó, pais, irmão e empregada (mais cão, gato e piriquitos). Adoro os mimos e os confortos que me permitem a burguesia familiar mas passo cada vez mais horas no meu quarto, sonhando com o dia em que saio de casa apenas com uma mochila e vou conhecer mundo e outras gentes. Farei pequeno trabalhos, aqui e ali, apenas para me sustentar e poder prosseguir viagem.
Sei que esperam coisas grandes de mim e não quero desiludir os que mais amo. Também não me vejo em posições subalternas ou de dependência, pelo que irei estudar até um nível superior. Não é sacrifício, até gosto de estudar, adoro ler e escrever, também.
Fascina-me uma boa história, desvendar a vida por detrás de cada personagem, seja num livro, num filme ou até na vida real. Gosto de fazer parte das histórias dos outros, sem lhes roubar, contudo, o papel principal. Esse tê-lo-ei, na história da minha vida, aquela que vou fazer.

quarta-feira, 6 de março de 2013

salvadora

Chegou esbaforida já a reunião decorria. Entrou, soprou, desculpou-se, soprou novamente, pousou a pasta com espalhafato e sentou-se na ponta da cadeira. Sussurrou para o lado, inquirindo sobre o que se estava a passar mas ninguém parecia dar-lhe atenção. Interrompeu então a presidente, de dedo no ar, para a questionar sobre o ponto da ordem de trabalhos. Tirou folha e caneta da pasta e rabiscou a data mas nada mais ali foi escrito pois não tardou a dar palpite e em menos de nada argumentava de pé.
Por cada pessoa que participava na discussão fazia-se em resposta, proposta e solução. Metade do tempo para si e o restante para os cerca de vinte colegas, enquanto estes não se cansassem. Neste entretanto foi andando, andando, foi-se chegando ao meio da sala, afogueada, e eis que está sentada entre a presidente e o ecrã do projetor, bem na frente de todos, onde, enfim é o seu lugar.

domingo, 3 de março de 2013

os triângulos de Mi

As mortes nas nossas vidas aproximaram-nos Mi: não há semana que tu não me procures ou que eu não vá saber de ti. E, no entanto acabaram-se os momentos de frenesim em que me puxavas para um canto, nas menos vezes em que estávamos juntas, para me contar as bençãos da tua ultima paixão - e foram muitas. E a tua mãe já não me chama para te ligar ou ir ter contigo ao quarto, na esperança que eu te faça sair do escuro e da cama onde enterras outro amor desfeito.

As histórias tinham, invariavelmente, os mesmos contornos. Sempre te atraíram amores interditos, homens que não podiam ser teus. Aproximavas-te de mansinho, com o olhar terno e desprotegido de quem procura colo, com o teu jeito infantil de rir e de te entusiasmares com qualquer arco-íris. Estendias o tapete da amizade, enaltecias todos os gestos do amigo a quem elevavas a herói, e, em menos de nada estavas a ouvir compreensivamente falar de um casamento em que ele não era compreendido, de uma família que não reconhecia o seu valor, onde  já não havia o amor que ele precisava tanto. E tu, enquanto fazias de advogada da legítima e propunhas soluções para uma família feliz, semicerravas os  olhos, tocavas "acidentalmente" com a tua mão na dele, e debruçavas-te na direção da sua atenção. O ombro amigo oferecia o peito, a boca, a alma.

Contavas-me do primeiro beijo que nenhum dos dois queria mas aconteceu, distanciaram-se uns dias com a vergonha e com a culpa mas tudo esclareceram, ele não podia fazer isso à mulher, tu não querias estragar-lhe a vida. E abraçaram-se. E queriam e não queriam, estavam nos braços um do outro e separavam-se com sorrisos e lágrimas e o barco dele navegava de volta a ti. E um dia deitavas-te amante de um homem casado. Seria feio dito assim, mas acreditavas que estavas acima de todo o pecado porque vocês eram anjos a quem a vida tanto tinha castigado e que mereciam ser felizes.

Ele jurava que  nunca tinha traído a mulher e tu juravas que era a primeira vez que andavas com um homem casado.

O amor bastava-te, de início. Cantavas, contavas-me, sonhavas, vivias para o momento do reencontro. Mas depois querias mais. E mais. Os sorriso angelicais davam lugar aos amuos de menina, cada vez mais frequentemente: precisavas de provas de paixão, tinhas ciúmes. Para alguns dos teus amantes acabava-se logo aqui o encantamento e terminava-se o namoro de poucos meses mas muitas lágrimas que eu consolava sem te julgar.

Outros faziam promessas que nunca chegavam a cumprir. Não podiam deixar a família agora, a mulher estava doente, os filhos precisavam dele, o dinheiro, o emprego, a mãe que estava a morrer, tudo era motivo para adiar a decisão que tu esperavas. Então tornavas-te negligente no sigilo, alguns domingos ligavas para lhe ouvir a voz, outras vezes esperavas à porta do emprego, precisavas de o ouvir, de o ver muito para além do que ele te concedia. Fazias ultimatos.

Mercê dos teus inocentes descuidos, algumas das esposas descobriam, chegaste mesmo a ser ameaçada. Mas, mais do que chamarem-te a cabra que te sentias, o que te doía mesmo é que ele, afinal, amava essa mulher de quem se queixara, não trocava a vida miserável que tinha pintado por uma vida ao teu lado. Outras vezes não chegava a esse ponto. Tendo descoberto em ti uma mulher como as outras, cujo amor não era tão incondicional como inicialmente havias oferecido, então o infiel dizia que não o merecias, que ia continuar a amar-te mas não podia arrastar-te nos seus problemas, que desejava sinceramente que arranjasses alguém que te fizesse feliz.

E, após umas longas semanas de desespero, de escuro e de fronhas molhadas, voltavas a ter ilusões. E eras feliz por mais uns tempos, com alguém que jurava nunca ter traído a mulher e a quem tu juravas ser a primeira vez que andavas com um homem casado.

Da última vez que fui tua confidente amorosa, estavas cansada, desgastada. Tinha sido a tua relação mais longa, mais até do que qualquer dos teus casamentos, e estavas mesmo convicta de que, se ele tivesse coragem de deixar a mulher, seria feliz contigo. Escreveste cartas à cornuda, acusando-a de ter cativo um homem nas teias da sua infelicidade, dando-lhe provas de que o infeliz te amava  a ti, na esperança de que ela o libertasse por pena ou por ira de mulher traída. Mas não as enviaste, essas cartas. És carente, assanhada, sedutora. Mas não és a cabra que te chamaram, Mi.

Depois desse, não sei mais. Tenho fugido aos teus triângulos pois as mudanças na minha geometria não me permitem dar-te o consolo que outrora buscavas em mim. Voltaste tu a dar-me colo e a pentear a espiral dos meus caracóis.