quinta-feira, 25 de abril de 2013

terça-feira, 23 de abril de 2013

quem vê caras ...

Levantou-se a custo, cansada, vagarosa. Não havia tempo para pequeno-almoço sentada nem para toilettes demoradas. Lavou a cara com sabonete, escovou os dentes, alisou o cabelo e prendeu-o num carrapito simples. Na cara, apenas espalhou hidratante. Optou por um vestido de corte clássico e uns mocassins pretos, não podia demorar a fazer outras combinações. Quando voltou atrás para agarrar num casaco de malha, olhou-se no espelho: parecia uma freira à civil. 

Aquela imagem veio-lhe à cabeça no caminho para o trabalho e esboçou, então, um sorriso. Hoje, quando olhassem para aquela mulher de 50 anos com ar de professora de moral antiga, ninguém iria imaginar que tinha estado a ler Mário Vargas Llosa até de madrugada. E muito menos ousariam suspeitar que, quando se enfiou na cama, despertou um vulcão de sensualidade e se entregou ao amor  de todas as maneiras, como se o mundo fosse acabar naquela hora.

domingo, 21 de abril de 2013

trapezista

Vou a direito, de queixo empinado e coração apertado, sentido o arame de que é feito o meu caminho. Há uma rede: amparou-me coreografias arriscadas, mas tem bocados frágeis, alguns traiçoeiros. Por isso, atento nos sons do pensamento e trauteio diferente, num tom acima da nostalgia. Estendo, então, os braços na direção do sorriso mais brilhante que me guie por entre as estrelas deste pano de circo.

domingo, 14 de abril de 2013

rascunhos

Passei a semana a escrever e a apagar: "não, não é isso que quero dizer"; "não, não é bem assim que sinto"; "não é essa que eu sou". Não me revejo nas minhas palavras, não me reconheço no medonho. Elimino, então, os rascunhos malditos deste pedaço de mim.
No entanto, de cada escrito que apago ficam-me os borrões na alma. Ou já lá estavam, e por isso de mim escorreram as linhas daninhas que teimo em mondar.

domingo, 7 de abril de 2013

inverno do nosso descontentamento

"Este é o inverno do nosso descontentamento!" Baixaram as temperaturas a valores não registados há meio século, as chuvas quase não nos dão descanso, as casa arrefecem, os corpos doem, as almas escurecem. Os empregos desaparecem e os ordenados dos que ainda os têm desceram também. As preocupações e as contas fustigam-nos como o temporal e tudo isto entra por um abril que deveria ser de primavera, cujas águas deveriam apenas lavar a passagem para o maio soalheiro e não encher de lama e desolação os caminhos de todos nós, tão castigados já.
Abençoados os que, no meio deste descontentamento, têm um ninho de calor humano, uma corrente de esperança feita de amigos e uma canção para cantar.

menino da flauta, estudante da caixa

Gostei do festival mas sobretudo, gostei de te ver nele, filho. Apareceste-me mais alto e mais velho e não era só do fato, era dos meus olhos também. Gostei de te ver sorridente, empenhado, sereno, co-responsavel num projeto sério ao qual te entregas e que, com amigos antigos e novas amizades, te faz feliz. Ali estava o menino da flauta de quem tanto me tenho desencontrado. Gosto muito de ti, estudante da caixa.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

males de cabeça

Pensavas que a tinhas dominado, que a coisa estava controlada, mas basta um deslize, um pequeno descuido,  um contratempo, e ela assoma à tua alma como lama, como lava, como larva. Deixaste-a a vaguear por ti tempo demais, cresceu, tomou conta de cantos recônditos que nem tu sabias ter. E ficou, qual vírus calado à espera que fraquejes um pouco para dar cabo de tudo.

Já devias ter aprendido que faz parte de ti, tão certo como um par de cornos que não vês, ninguém vê, mas sabes que estão lá. Ela também.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

abril da história

De abril evoco uma madrugada de sussuros,  uma escola em alvoroço mal contido, a emoção com que se tiraram livros escondidos, lá em casa, e a alegria com que me disseram que doravante poderia cantar o que me apetecesse (esta liberdade viria a ser revogada, mais tarde, mas por questões de decoro e não por atemorização pidesca).

Lembro, um ano depois desse abril, da novidade das eleições: os cartazes e os murais, os discursos de campanha, os resultados eleitorais! Coincidiu o dia solene da "ida às urnas" pelos maiores com o primeiro dia numa nova casa que haveria de marcar para sempre uma mudança na vida de todos nós, família alargada.

Sem mais histórias, abril faz parte da história. História do meu povo, história da minha família e minha história também. Cheira a cravos, tintas e lixívia.