quarta-feira, 29 de maio de 2013

idade oficiosa

É oficial: tenho meio cento de anos.
Fez-se a festa com as pessoas que mais amo num rodopio de cozinhados, gargalhadas, taças de champanhe, beijos e tudo e tudo e tudo. Até birra de mãe no final,  já um clássico, afinal.

E, no entanto, não acredito na minha idade. Não a renego -não é isso- mas não me encontro e não me reconheço numa mulher de cinquenta. Se calhar já tive mais até, mas hoje tenho 35 anos.

terça-feira, 28 de maio de 2013

parabéns

Não sei bem porque nem quando se me meteu esta ideia, mas desde que me conheço penso que morrerei nova, aí pelos quarentas e tais, cinquenta no máximo. Talvez por isso nunca apostei muito em planos para o futuro ... E porque faço 50 anos, hoje, encaro cada "mais um" como uma espécie de bónus que merece ser comemorado com muita alegria.

Vou sair, vou por-me bonita e festejar a vida e o amor.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

novos velhos amigos

Foi giro, estranho mas bom, conhecer alguém que sabia mais de mim do que muitos com quem janto todos os meses. Havia quase um ano de brincadeiras partilhadas, desabafos, confissões, alentos, conversa fiada e, no entanto, se nos cruzassemos na rua não nos reconheceríamos.

Agora já há rostos, sorrisos, vozes e olhares para quem está do outro lado ... da dimensão.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

abram alas que lá vão elas

Amanhã fazemo-nos à estrada, tu mais eu menos os nossos homens (já nem contamos com os filhos).

Estás angustiada por ires confrontar-te com os dramas da senilidade familiar e entusiasmada com o reencontro de velhos amigos. Eu estou entusiasmada com o encontro de um amigo que conheço das letras e angustiada com a separação daquele de quem tomo as letras e a vida.

E temo-nos, duas gajas com angústias e entusiasmos partilhados (sei que é difícil eles entenderem isso) a fazerem-se à estrada, 500 km por um baile!

E sabes que mais? acho que vamos gostar de ir e de saber que somos capazes de ir. E que lhes perdoamos por não dançarem com a gente.

sábado, 18 de maio de 2013

coisas de gaja

Quero e não quero. Queria que ele também quisesse mas não quero que  queira só porque quero. E ele não quer. E, sem ele, eu quero e não quero.

Mas há uma coisa que sei que quero: dar um passo em frente na confiança. Saber que sou capaz e que fico em paz.

domingo, 12 de maio de 2013

juventude

Todos somos ou fomos crianças, é um facto inquestionável, mas quanto a ser jovem, algumas pessoas maduras nunca o foram. Passaram diretamente para as coisas sérias, sem provar o inconsequente e o maravilhoso de viver para as paixões de uma banda musical, de amores improváveis, de causas perdidas e de amizades achadas. Não fizeram o vôo só possível pela oposição aos pais, os quais nunca se atreveram a desafiar.

São como fruta amadurecida no escuro, essas pessoas. Pouco doces, de pele e coração encarquilhados de tanto se franzirem, são adultos sempre prontos a condenar tudo aquilo a que se negaram. Alguns definham em insatisfação e desconsolo até que morrem, mesmo antes da morte chegar. Outros fazem um balanço, quando atingem o que se convencionou por  meia-idade, e tentam viver numa década a chamada juventude perdida. Magoam-se pelo caminho, magoam outros nos ricochetes de um fogo-de artifício desajeitado, mas muitos aprendem a montar a cavalo no vento.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

bom aniversário, se puderes ...

Sempre tiveste mais 32 anos. 
Nunca quis ser como tu quando fosse grande e vejo agora que tinha razão. Passas na vida como num palco, alternando entre papeis dramáticos clássicos, e quando te faltam os aplausos escondes-te atrás da cortina.

Tentarei aconchegar-te com ternura, hoje, já que não me deixas fazer-te feliz.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

maio

Desaguou abril neste mês que se faz anunciar em dias maiores e se desfolha em rosas, aniversários e ternuras. 

Nasci em maio, tal como minha mãe. Em maio soube que ia ser mãe. E em maio é o dia da mãe. Mas foi também em maio que morreu aquela que, no aconchego da ternura, me foi mãe: a mãe de minha mãe.

Abri as janelas a maio, esta manhã, e chegaram-me os aromas românticos do jardim que habita em mim: o perfume do jasmim trazido de um sábado namoradeiro, a doçura da glicínia, o cítrico suave do limonete, o cheiro a lavado da alfazema. No regresso, levo um vaso de hortelã-pimenta chocolate, pois assim que o senti soube que faltava em casa, onde cada vez mais os perfumes se misturam com cheiro de pão, bolos e café.

Levo também uma azálea, cor-de-rosa menina, para oferecer a maio.