domingo, 28 de julho de 2013

cicatrizes

São marcas da vida em nós, as cicatrizes, vestígios de que algo aconteceu nestes corpos. Umas têm histórias fascinantes de aventuras e riscos que se ousaram, outras acidentes domésticos apenas.

Cicatrizes, tenho várias e desde muito cedo. As grandes, sempre as conheci assim e fazem parte deste corpo do qual nunca esperei a perfeição de capa de revista. Outras, mais pequenas e discretas, lembram quedas, cigarros, outros pequenos acidentes que ficaram, assim, com memórias ligeiramente esculpidas na pele. Nada fiz, nunca, para as remover ou disfarçar. E, contudo, ando há um mês a dissimular a última, bem no meio do rosto.

Aquela, de que não tenho memória de ter feito, lembra-me, em cada acordar, a minha negligência para com a própria vida. Não a tentaria apagar, pois, não fora estar também gravada na alma. Essa cá está, para me lembrar.

sábado, 27 de julho de 2013

atração

Chega quase sempre de noite, começa numa voz em surdina que me chama, qual cântico de sereia. Ignoro o mais que posso, tapo a cabeça com as almofadas mas já a vontade está magnetizada. Amarro-me os meus pensamentos com cordas, guitas, fios, tudo o que me possa segurar. Mas nada disto é suficiente para contrariar a atração pelo abismo. Concentro-me numa corrente humana mas até essa se vira a favor do lado negro. Até quando? Estou cansada, mas hoje consegui resistir.
Amanhã, talvez.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Susana

Era a mais velha de duas e sobre os ombros carregava todas as responsabilidades do mundo. Alta, elegante, de longos cabelos pretos sempre bem escovados, sorriso perfeito. Apenas o ar grave destoava naquele bonito rosto de 14 anos. A irmã, essa chegava à escola com o cabelo desalinhado, a irreverência no olhar e a luz de mil sóis no sorriso.

Quando conheci a Susana mais de perto, preocupei-me com tanto tino: as normas eram para se cumprir inquestionavelmente; os assuntos eram para ser levados a sério; as obrigações sempre em primeiro lugar e as coisas eram para acontecer segundo a ordem convencionada. Parecia que tinha passado logo de criança a adulta, com uma pressa calculada. Diversas vezes lhe sugeri que descontraísse, não fazia mal portar-se um bocadinho mal ... só um bocadinho pequenino ... E não dizia mas pensava que a vida são dois dias e esta menina carrega o peso de três!

A sua vida terminou, efetivamente, cedo. Foi hoje a sepultar com apenas 36 anos feitos. A irmã, essa carregava nos ombros todas as dores do mundo, no olhar só vi desolação e no sorriso, parco e triste, a busca da perfeição.

Recordei as duas miúdas, antes ainda da escola, e desfiz-me em lágrimas por ambas, pela mãe, pelo pai... Chorei também todos aqueles que conheci "miúdos" e já morreram: Isidro; Telmo; Chico; Daniel e agora, Susana. Segundo a ordem que esta tanto prezava, não deveria acontecer assim!

segunda-feira, 22 de julho de 2013

domingo à noite

Em minha casa moraram vozes e nozes de gente feliz durante dois dias. Os males de cada um baixaram-se à alegria de sermos muitos, estarmos juntos, termos vida em nós.

Mas quando se foram, entrou de rompante a angústia de domingo à noite, terrivelmente marcada, hoje, pelo contraste de tons e de sons ou por outras consumições. No silêncio escuro e sózinho, revejo as imagens guardadas e reparo, então, que aquelas sempre cá estiveram. À espera de segunda-feira.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

encalhada

Partilho escritos antigos com os amigos de rede e deles para outras pessoas, desconhecidas. Aqueles com quem me sinto melhor: amigos e desconhecidos. Edito o publicado, umas vezes por capricho literário, outras para não me expor mais do que quero. Delicio-me a ilustrar as minhas palavras, tal como faço já há um ano com os poemas daquele que mora em mim.
Neste entretanto pouco escrevo e começo a sentir-me encalhada, nas sílabas e no coração.

sábado, 13 de julho de 2013

escadas de Quebra Costas

_"Estudante que não caia nas Escadas de Quebra Costas não acaba o curso!" avisou-me logo a senhoria do quarto com serventia de cozinha, bem abaixo de Almedina.
Foram as escadas de todas as manhãs, durante os meus primeiros anos em Coimbra e lá acabei por escorregar, um dia. Juro que não foi de propósito mas consegui o canudo, sim senhora! Tal como muitos outros que nunca por lá tombaram...
Na altura, acho que nenhum de nós, jovens doutores, entendia a profecia e sorríamos, condescendentes, dos ditos dos futricas. Só mais tarde se entende que tirar um curso em Coimbra, é muito mais que ter um diploma.
E que quem nunca caiu nas Escadas de Quebra Costas é porque não passou lá as vezes suficientes, com a cabeça no ar e a alma leve ...

quinta-feira, 4 de julho de 2013

ilusões

Dizes-te tua, chamo-te meu. Quanta ilusão fazemos, nós que sabemos que ninguém é de ninguém ... Pois não voa o pensamento tantas vezes para o mar? Pois não bate forte o coração por outro pulsar? Aos meus braços regressas, no teu colo me aninho. Chamas-me tua, digo-te meu; e esquecemos tudo o que sabemos sobre o amor. Acreditamos, porque sem ilusões nem de nós próprios seríamos.