domingo, 29 de setembro de 2013

ciúmes das malvinas

— Ele diz que eu sou uma chata!, conta ela com a mesma ligeireza com que tinha dito, minutos atrás, que precisou de apanhar dois autocarros para aqui chegar. — Mas eu já lhe disse, continua, — ó homem, no dia em que eu deixar de te procurar pelos teus pensamentos, no dia em que eu deixar de me importar com o que traz animado ou arreliado, no dia que eu deixar de ter ciúmes das malvinas com quem tu conversas... hum... nesse dia estou morta pra ti! é porque morreu uma parte de mim, que era a tua!

Continuou a falar do seu Fernando e eu, enquanto a ouvia, só pensava que aquele era um homem com sorte pois a mulher, a quem ele carinhosamente chama chata, sabe mais que um tratado de terapia conjugal.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

tecedeira de palavras

Por achar em demasia (presunção de minha parte, até) aceitar que me chamasse escritora, Ângela perguntou o que chamar, então, a alguém que faz da escrita um prazer ...

Nomeou-me ela, de seguida: Tecedeira de Palavras!
E eu descobri que a minha amiga é poeta.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Pai, desculpa mas ainda choro

Os pais das minhas amigas não te sobreviveram muito tempo; primeiro um, depois outro. Depois da tua morte, sei avaliar e identifico aquela dor; doí-me também, por elas e por mim. Vacilei no primeiro, cerca de 2 meses depois caí de joelhos, no segundo. Abriu-se aquela chaga que eu julgara ser já uma cicatriz.

É uma dor imensa, do tamanho do amor que te tenho. Acalma sim, e na bonança destes dias já consigo escrever-me sobre nós sem me desmanchar num pranto incompreensível para quem tem, ainda, pai vivo.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

as notícias

Desde pequena que gostava de ver as notícias. A partir de certa altura, passou a gostar de as ouvir, também.

Primeiro era o fascínio da imagem: os cavalheiros elegantes das notícias e do tempo eram entremeados com locutoras simpáticas, bem vestidas, bem penteadas. Sempre que ouvia a palavra chique lembrava-se da Isabel Wolmar, da Maria Fernanda, da Alice Cruz e agora não lhe vem à ideia o nome das outras. Não importava o que diziam, de que falavam; ela passava o tempo a admirar o ripado do cabelo, os colares, o traço escuro nos olhos, os vestidos modernos. O seu sonho de menina era o de um dia andar assim bem apresentada mas, para isso, tinha que estudar muito ou arranjar um marido fino. Pelo menos, era o que lhe diziam.

Estudou muito mas, afinal, o que era preciso era estudar muitos anos. Marido fino, assim bem apessoado como o Jorge Alves ou o Engenheiro Sousa Veloso, não encontrou. Casou-se já ia ficando para tia, com o Fernando do restaurante Zip Zip e o mais próximo que conseguiu vê-lo parecido com o Fialho Gouveia foi no dia do casamento e no funeral do sogro, que depois o fato deixou de lhe servir. E ela bem tentava apresentar-se bem mas olhava-se no espelho e, não sabia explicar o que era, ficava sempre a dever alguma coisa ao clássico.

Entretanto na televisão também a elegância desaparecia, qualquer uma ia apresentar qualquer coisa, vestida de qualquer maneira, com cabelos oleosos até, se calhasse. E os homens continuavam a vir de fato mas não tinham corpo nem maneiras para ele assentar como deve ser. Começou então a reparar no bem que falavam. Não que ela percebesse muito daquilo, que não tinha estudos para isso, mas apreciava as palavras bonitas, ditas assim com autoridade de quem sabe o que diz, bem pronunciadas e sem se enganarem! Era bonito de ouvir, e havia entrevistas a meio das notícias e tudo ... Depois começaram a aparecer uns que diziam as coisas como quem está a falar no café, sem estilo nenhum. Alguns enganavam-se, havia letras a passar em corrida em baixo, depois apareciam 3 ou 4 ao mesmo tempo, a interromperem-se uns aos outros sem educação nenhuma, enfim, uma tristeza ...

Continua a ver as notícias. E a ouvi-las também.
Quem havia de dizer mas um dos sobrinhos é telejornalista (ou lá como lhe chamam agora) e conta algumas coisas lá do "trabalho". Então, ela agora diverte-se muito ao olhar para os rapazinhos engravatados do jornal das nove ou das dez, todos vaidosos, e saber que provavelmente para baixo estão de calças de ganga, de calções ou até de calças de fato de treino. E elas, as mocinhas têm sempre defeito para se lhes põr: roupa justa, barata, muito rouge, pouca classe. As mais importantes são vestidas por estilosos da moda mas também sem jeito nenhum, com as fatiotas a acentuar os defeitinhos da idade que a Maria Leonor, Deus a tenha, apresentava com tanto charme.

"civilizada"

Quando quase morreu, de lá veio cansada de ser bem comportada, civilizada, correta. Agarrou a vida com todas as letras, abriu o peito e soltou a alma. Quis deixar crescer a paixão sem podas, sem amarras, num amor latino com garra, saudade, rosas vermelhas e um tango.

Mas no amor um só querer não chega e o outro querer era de um aconchego à inglesa. Ele havia vivido intensamente todo um verão e as fantasias seriam, agora, borboletas distantes.
Deu por si, então, a pensar se começava a ver a nova novela ou arranjava um par de amantes.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

tenho um colo para ti

Tenho um colo para ti
assim, imenso ...
como o meu cabelo
tal como o mar
suave ou revolto
tem ondas e remoínhos
vontade própria
e o infinito


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

encontro

Ó dótora! — encontra-me ela de braços abertos e um sorriso de cara cheia — gosto tanto de a ver! E eu contente também, fui perguntando pelos filhos, — que sim, estão todos bem, encaminhados na vida graças a Deus, vamos ver se o mais novo não desatina; pela mãe — lá vai andando, coitada, a idade não perdoa; por ela — cá estou, como vê ... e sempre sorrindo em grande conta-me as novidades de cá e de lá, da família que voltou para Angola e dos que daqui foram para essa Europa.

— Então e a dótora? E é a minha vez de contar de mim, mais a parte da dótora que das outras vidas ela não conhece. — Gosto tanto de a encontrar! repete. E de novo aquele sorriso com que me presenteia há quinze anos. Mas desta vez o sorriso desfaz-se em lágrimas, — desculpe, desculpe-me, diz, e as lágrimas soluçam e do peito daquela mulher alegria saem as tristezas traiçoeiras de quem não sabe porque está tão infeliz.

domingo, 8 de setembro de 2013

rio azul

Hoje sou um rio em queda.
Depois de um leito calmo, serpenteado entre margens de mágoas e de saudades, soltaram-se-me as águas de corrente em torrente, em cataratas de lágrimas.

São azuis, as minhas águas; da cor dos teus olhos.

sábado, 7 de setembro de 2013

terça-feira, 3 de setembro de 2013

ofuscado

o meu sol brilha todos os dias
mas às vezes não se vê
porque os olhos estão sujos