segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

natal dos presentes

Natal: chegou sem sinos, aconteceu meigo apesar de um ou outro percalço,  passou rápido. E nem uma linha se escreveu. Como se estivesse anestesiada, faltei com o frenesim habitual, apenas uns estremeceres mesmo em cima da hora. E no entanto, fez-se natal. Sem uma linha, é certo.

Presentes as pessoas do nosso natal; isso foi o  importante!


terça-feira, 16 de dezembro de 2014

oração

Uma vontade de escrever sobre o que voa entre a cabeça e o coração
e pelas mãos me sai uma composição íntima e urgente: um poema
versos que nascem e outros parem, palavras que mudo e repesco
no que quero dizer e no que vais entender, sim, tu que me vais ler
volto atrás num passo de dança silábica, uma coreografia em ensaio
que ainda não dou por terminada

e dos dedos me sai um quase nada
tudo o que tenho ganas de dizer e por palavras quero oferecer
cabe numa frase solteira, singela mas apaixonada oração!




quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Acenei-te

procurei-te
naquela linha difusa
em que os azuis se abraçam
celeste e marinho
voei de vaga em vaga
para te encontrar
perdida de mim
acenei de mansinho


terça-feira, 18 de novembro de 2014

por favor: leiam o meu olhar!

Não estou sózinho ao portão da escola, como é costume a esta hora. A miúda está fula, ansiosa que a venham buscar. Eu não, tento dizer-lhe porquê com o olhar mas, tal como os outros, ela não o sabe ler. Está escuro; talvez seja por isso ...

Sabes, tento contar-lhe, para mim, esta espera é melhor do que o que me espera. Mal entre no carro levo um apertão no braço ou uma pancada na testa conforme entre e feche o chapéu só com o braço de fora, e nesse caso levo porque entra chuva no Astra, ou se fecho primeiro o chapéu e levo porque assim entro molhado e estrago os estofos. Em casa é pior, aí nunca sei mesmo o que me aguarda, se descobriu um agrafo no tapete do meu quarto, se a colcha ficou mal esticada, se alguém comentou alguma coisa sobre mim, se levo bofetadas até cair, se me atira com um prato ou bate a minha cabeça contra a parede. Se me queixar é pior, aqueço-lhe a fúria e podem chover murros,  pontapés, o ferro de engomar ou um candeeiro. Quando estou em casa ouço sempre o meu coração a bater, sabes como é? Deve ser do medo, tenho sempre medo. Se me chama para ajudar na cozinha ou no jardim, até o peito me dói de respirar e tremo, estou sempre a tremer. Uma frigideira a bater na cabeça, um garfo espetado na mão, uma enxada a voar na minha direção ... já me aconteceu tudo isto mas tu não o consegues ler no meu olhar, pois não?

Deixa lá ... também os médicos e os enfermeiros não lêem,  ela sabe como desviar a atenção dos meus olhos enquanto fala da  "hiperatividade" que me causa tantos acidentes. Uma senhora tão bonita e logo lhe havia de sair este filho enxertado em corno de cabra, ouço-lhes o pensamento. Alguns professores perguntam porque ando sempre tão triste e estranham tantas justificações para não fazer aula de educação física. E eu, que todos eles dizem que escrevo tão bem, não consigo que me leiam no olhar o inferno em que vivo.

Tentei falar com ele mas acho que também tem medo, um dia ela bateu-lhe com o salto do sapato até fazer sangue. Dantes, pensava que não me defendia por não ser mesmo filho dele e amaldiçoava os dois, o meu pai verdadeiro por me ter abandonado e este, por me deixar na mãos da assassina. Sim: assassina! Mesmo que não me consiga matar antes que eu saia de casa, mata-me aos poucos. Já me matou a infância, a confiança nas pessoas, a esperança de um dia poder ser uma pessoa normal, ela vai matando tudo!

Quando era mais novo acreditava que era por eu ser mau que me batia tanto mas agora sei que não. E ela está a começar a fazer o mesmo à menina e ele deixa, por isso não tem nada a ver por não ser meu pai, ele também não sabe ser pai da menina. Diz-lhe o mesmo que a mim, que temos de ter paciência, que a mamã é muito nervosa, não devemos  contraria-la senão ela depois faz estas coisas... É sem querer, que ela depois arrepende-se  porque gosta muito de nós.

Não me atrevo a falar disto com mais ninguém, ela diz que me derrete se falo das coisas de casa com pessoas de fora. Um dia telefonei à avó para ela me ajudar, que me tirasse desta tortura, e ela disse que eu tinha que ter paciência e tentar não arreliar a mamã, que ela não faz por mal, é com os nervos, no fundo gosta muito de mim. E eu perdi a esperança. E a avó deve ter comentado alguma coisa com ela pois passados dois dias fui internado com a informação de que sou terrível e caí do telhado.  E por isso tento contar a todos só com o olhar, peço que me ajudem, que me ajudem a perder o medo porque ainda me faltam cinco anos para poder sair de casa e lá matam-me todos os dias.


sábado, 8 de novembro de 2014

ele nunca me bateu

—Ele nunca me bateu, doutora, é mentira isso que os vizinhos andam a dizer. É certo que ele é assim um bocado repentino, está-me a compreender? Mas nunca me bateu. Aquilo na cara? Isso foi sem querer, até que a culpa foi minha: esqueci-me de acertar o sal na comida e quando ele ralhou eu respondi-lhe mal... Ele com os nervos atirou-me com a colher e por azar acertou em cheio na cana do nariz e ficou tudo negro ... Tem lá o seu feitio, isso tem. Ninguém se faz por suas mãos ... eu quando casei já sabia como ele era, lá isso ele não me enganou que em solteiro já tinha estes repentes. Então mas o que é que quer, eu gostei dele! E ele às vezes até é muito meu amigo, minha senhora, é mentira o que andam a dizer, que ele é violento e assim. Ele nunca me bateu. No hospital? Isso foi sem querer, estavamos a discutir e ele, ao passar,  empurrou-me  e por azar eu estava ao pé das escadas e caí. No braço? Então as nódoas negras no braço foi dele me tentar agarrar pra eu não cair ... Mas isto ainda vai demorar muito? É que ele se chega a casa e não me encontra fica enervado...  e eu também já não sei mais o que lhe diga,  doutora. Ontem? Aquilo não foi nada, coisas de marido e mulher, está-me a compreender? Eu não estava pr' ali virada mas ele cismou, sabe como são os homens? E como eu não me punha a jeito ele começou a atirar com tudo o que lhe vinha à mão, até a Nossa Senhora de Fátima voou da cómoda. Isto na cabeça foi disso, não que ele me batesse, que ele nunca me bateu graças a deus!

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

amigos de sempre

Estamos meses sem nos encontrarmos, por vezes anos. Um dia lá se dá o reencontro e, passados alguns minutos de conversa, é como se estivéssemos a continuar o assunto da semana passada. Apreciamo-nos carinhosamente e, embora entusiasmados, estamos tranquilos e com o à-vontade de sempre.


outono

Chegou
um pouco tarde
dizem, por mim
sempre tem tempo

Que venha por bem
que nós ... também!


domingo, 2 de novembro de 2014

invasão

Por favor, não me digam que isto não é nada pois é sempre alguma coisa. Não digam que não tenho nada porque toda a gente tem qualquer coisa. E eu tenho imensas coisas, até uma doença daquelas que me garante que não chegarei a velha.

Possivelmente por ascendência  romana que me impele a castigar os portadores das más novas, resolvi não voltar a por os pés no consultório do médico. Também já não há muito a fazer a não ser drunfar-me quando o pior chegar.  O Lucas estava comigo na  "leitura da sentença" mas passadas quase duas semanas ainda não acredita, vai contando a toda a gente até ele próprio estar convencido. Pelo menos  não me diz que a medicina está muito avançada, que a prima da cunhada de não sei quem estava no mesmo estado que eu e anda aí sã que nem um pêro, que isto não ha-de ser nada.

Agora todos os dias me perguntam o que quero comer, a toda a hora me questionam sobre o que me apetece fazer, se estou bem. Não, não estou bem. Antes de saber o que tenho estava melhor, quando a coisa começar a apertar estarei pior, mas agora não estou bem. São todos pessoas inteligentes; não precisavam de estar sempre a perguntar. Não me levem a mal, aprecio a vossa dedicação mas são quase tão invasivos quanto o meu mal.

Tenho apenas alguns meses de vida com plena consciência e não decidi o que fazer, estabelecer as minhas prioridades, fazer as minhas disposições, como é uso dizer-se, pois não consigo pensar, não me deixam  nem um minuto. Para além das amigas da casa do peito, que se fartam de chorar e dizer ternuras tonteiras, já cá esteve imensa gente, até vizinhos que mal conheço, a minha irmã que não me falava há 6 anos e o meu ex: — "Maria Armanda, se precisares de alguma coisa, é só dizeres!"

E eu preciso! Preciso tanto que me deixem chorar sozinha, ouvir os pássaros do jardim, andar descalça na relva, perder-me nos braços do Lucas, encontrar-me no mar e sentir o sol no rosto enquanto falo comigo mesma e decido se vou conhecer África, escrever as minhas memórias ou viver a vida de sempre, até sempre.


sábado, 1 de novembro de 2014

desgraça anunciada

Por favor, sr.ª dr.ª, meta-lhe juízo naquela cabeça senão qualquer dia há uma desgraça! É que ele sempre foi muito agarrado a mim e por isso custa-lhe a aceitar certas coisas ... quando era mais pequeno fugia lá para cima quando o pai chegava, sim, porque a gente só pelo meter a chave à porta já sabíamos se ele vinha para implicar... mas agora deu-lhe para fazer frente ao pai, mete-se à minha frente. A primeira vez que fez o gesto de levantar a mão ao pai, o Amândio tirou o cinto para lhe arrear mas até o cinto ele segurou e berrou que nunca mais! No dia seguinte, depois dele sair para a escola, eu é que as paguei! Ele não havia de se meter, eu já lhe disse mas ele não acata e qualquer dia há uma desgraça.  O meu marido não é mau homem mas está marcado pela vida, o pai era um homem à antiga, a vida dele não foi fácil,  depois eu engravidei assim que casamos, ele nunca teve grandes oportunidades ... Pois, eu sei que não tenho culpa, sr.ª dr.ª mas ele é assim: nervoso. Depois arrepende-se, às vezes até chora, coitado. Sim, sim, eu já saí de casa duas vezes mas ele foi-me buscar ... ele não tem mais ninguém sr.ª dr.ª e ele gosta de mim. Pois, à maneira dele ... mas não se preocupe comigo.

É com o meu Paulo que eu quero que a sr.ª dr.ª fale. Faça-lhe ver que ele não tem que se meter, são coisas nossas, minhas e do pai e a verdade é que o Amândio nunca faltou com nada lá em casa e quando o Paulinho era pequeno até era muito amigo dele, sim, antes do garoto lhe começar a ripostar. Eu já lhe disse que aquilo depois passa ... mas ele agora até liga para o 112 quando o Amândio me aleija mais, no hospital já andam desconfiados ... e eu digo-lhe que não se meta mas ele agora deu em gritar comigo também. Diz que eu não tenho personalidade nenhuma e que se gostasse dele como uma mãe de verdade tinha abalado com ele lá de casa, veja lá o que eu ainda tenho de ouvir. Diz que eu não me faço respeitar. No outro dia respondi-lhe que pelo menos ele que me respeite e não grite assim comigo que nessas alturas até se parece com o pai e sabe, sr.ª dr:ª que ele, com os nervos e de tão destrambelhado que anda, levantou-me a mão, o meu Paulo! Meta-lhe juízo naquela cabeça, peço-lhe, senão qualquer dia ainda há uma desgraça ...


terça-feira, 28 de outubro de 2014

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

o aniversário da Migamana

Querida Migamana:


Hoje fazes anos e eu até gostava de te dizer umas coisas bonitas mas tu depois vais chamar-me todos os nomes que nem no livro do Saramago se encontram, só porque te faço esborratar o Rimmel (sim, porque neste dia aposto que te vais empertigaitar toda)!
Então, e como tenho muito medo de ti, não vou lembrar como "apreciamos a sinceridade destravada com que nos presenteamos e afirmamos a nossa amizade em pequenos e grandes gestos. Não ignoramos os defeitos e os maus feitios; gostamos mesmo assim! Rimos e choramos como umas tolas com as alegrias e tristezas de uma e de outra e não tememos as bocas de quem não entende o que é ser amiga" (tirei da net, Escritos de Ana qualquer coisa)
Como já sabes que não dispenso festa com todos os preceitos a que tenho direito, lá nos encontraremos e, com sorte, ainda levas com uma prenda de que gostes.

Sempre tua, a amiga que te quer bem e isso, pró melhor, pró pior e pró resto

anocas


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

hoje fui eu que voei

Hoje fui eu que voei

Hoje fui eu que voei, Alvarito!

Entrou-me na manhã um rapaz, ali, naquele serviço bafiento a que chamava local de trabalho. Entrou e sorriu antes de falar, olhando-me nos olhos, e eu vi-te naquele sorriso de olhos limpos, quarenta anos atrás! Depois, por entre o seu pedido de informações surgiu o eco da tua voz: - "Anda comigo! Vamos agora ou ficaremos agarrados para sempre a esta vidinha de nada."

Eu fiquei. Fiquei naquele nosso bairro de gente remediada, de onde dia após dia, saía para um emprego que remediava as aparências. Por vezes escapava por uns momentos nos braços de algum amante que me remediasse a solidão de viver entre gente sem ilusões: solteiro, casado, não importava pois nunca poderia ir com ele para casa. Alguns pediram-me, tal como tu: - "Anda comigo!" mas nenhum tinha os teus olhos, da cor da liberdade. E fui ficando ... até hoje, quando o coração foi com o rapaz que sorriu antes de falar e que afinal se chamava Pedro (deve ter alguém que lhe chame Pedrito). Eu levantei-me para o seguir na rua: a ele, a ti, não importa; deixei o casaco cinzento na cadeira onde não penso voltar e corri para o aeroporto.

Amanhã vou entrar no mar e depois compro um vestido azul igual aquele que me abraçaste em jeito de despedida. E voarei para outro daqueles lugares que namorava nos mapas, que agora nada me amarra. O mais certo é que nunca te encontre pois só te procuro nos olhos de rapazes de dezoito anos, mas hoje foi contigo que voei, Alvarito.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

a sombra

Entravas e a sala iluminava-se. Figura explorada, esta, mas não encontro outra melhor ao recordar-te. Davas-te conta disso, de todos os olhares convergirem para ti, de fazeres sorrisos nos lábios mais sisudos, e o teu contentamento era visível na voz de manhã fresca com que nos saudavas. Onde encostavas, o grupo ia-se alargando numa pergunta, num comentário, num riso. Eram contagiantes, as tuas gargalhadas. Passavas a mão no cabelo e havia sempre pelo menos um par de olhos que acompanhava o movimento. Chegavas a tantos e tão preciosos eram todos para ti.

Não é claro, o momento em que começaste a apagar-te. A esperança dos teus olhos foi dando lugar à dor e deixou de haver espaço na alma para ilusões. Hoje entras, sorris docemente e nós por vezes recordamos o brilho que outrora coloria a confiança que tinhas nas pessoas.

Temos saudades daquela de quem hoje és a sombra.


segunda-feira, 29 de setembro de 2014

alguém

Alguém que repare no que somos bons, que aprecie o que fazemos bem.
Que nos faça sentir alguém.
Especial.

Todos precisamos de uma pessoa assim, que ao nosso mar dê o sabor a sal.

domingo, 28 de setembro de 2014

momentos

Dos momentos mais belos não temos foto; todos os sentidos se dedicam a apreciar a felicidade que neles se manifesta.
Não há ocasião para outros retratos.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

um pé d' água à beira rio

Um pé d' água à beira rio: assim se chama ao que molhou a tarde na cidade onde moro em recordações.

A notícia de tempestade foi espalhada pelas gaivotas mas a maior parte de nós não sabe ouvir os gritos daqueles bicos e assim, numa tarde de verão, foi toda a ribeira apanhada de surpresa com o inesperado aguaceiro. Um verdadeiro pé d' água, a bem dizer.
Gritos e gritinhos, risos nervosos, invocações a deus e à mãe, exclamações em língua inglesa e tripeira, tudo isto era orquestra de fundo à serenata aguaceira que batizou o passeio. E o douro, sereno, corria para o mar, já ali ao fundo no cinzento azulado daquele momento.

Um pé d' água à beira do rio, momento perfeito para abençoar apaixonados: um beijo inesquecível, um abraço para vida, até mesmo um pedido de casamento.

parto

O pensamento poisa
no fundo do desfalecer
ouço, cada vez mais longe
falar de mim, que me fico
não importa, o que dizem
foi-se a dor, a exaustão

sinto-me leve, vazia
só o amor sobrevive
num sorriso
com que me deixo ir
sem me importar
se me chamam ao leito
em que acabei de parir

terça-feira, 9 de setembro de 2014

sorrisos e olhares ternos

Dançam-me as memórias em sonos cruzados.

Tarde de verão: aquele calor sufocante da cidade em que vivemos, a sala do apartamento virada a sul, o menino inquieto. Apenas vestes uns calções e ele só tem a fralda. Pegas-lhe, ele abocanha o teu ombro, entusiasmado, e tu dás uma gargalhada. Ele olha-te naquele azul brilhante de bebé feliz, ri e tu devolves-lhe a ternura no mais lindo sorriso que logo estendes a mim, quando me surpreendes no olhar derretido com que guardo esse momento.

Deitei o menino na curva do meu corpo. Aconchegado, fitou-me de olhos grandes, num castanho quente que é o teu. Voltamos a ser um só, por uns momentos, tal como semanas atrás, e assim nos encontraste. Perante tal intimidade balbuciastes desculpas, sem pensar, mas logo as calaste quando o meu olhar te envolveu e o teu sorriso nos abraçou. Chegou-se mais um, quase três anos de gente, ao calor da ternura e éramos quatro naquele quarto, um só colo.

Tínhamos combinado encontro de namorados num café da baixa daquela cidade que era nossa. Eu ia ter contigo mas tu vinhas já ao meu encontro e sorrimos aos olhares apaixonados em que nos entregamos. O meu vestido azul perdeu-se no castanho dos teus olhos. Acho que ainda lá está.

E de novo no presente, que as memórias não se desfolham como os calendários. As pombas! Os dois correm atrás das pombas que não se ficam e eles soltam gargalhadas e olham-nos confiantes, felizes. E nós só largamos os olhos deles por breves instantes, para procurarmos os nossos olhares. Sorrimos.

Acordo de vez e entrego-me ao dia com a certeza de que a felicidade se faz de sorrisos e de ternura no encontro dos olhares.

cores nossas

No branco da tela misturamos cores da nossa vida, ali
vermelhos das rosas que me ofereceste, das flores que te dei
amarelos de girassol, risos e alegrias, luz de um para o outro
azuis do céu e do mar, de segredos nossos e dos de cada um
pretos e brancos de luares, sonhos, beijos, ímpetos,  paixões

tal como nos dias matizaram-se outras cores, infinitos tons
borrifamos a chuva, sopramos os ventos, espalhamos o sal
amanhã,  depois  e depois ainda, faremos uma e outra vez
senão na tela, nos espaços e nos momentos, tão nossos
pintamos as cores que ambos trazemos
e as que fazemos os dois


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

30 dias à sombra

Não houve partida
não houve chegada

Em verde estendida
a minha alma vadia
resignada, aprisionada
sonhos postos no mar
olhos  naquela estrada
por onde vamos, um dia

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

avião na noite

Por vezes ainda me custa acreditar, embora o deseje com todas as  forças
procuro, então, o meu olhar nos teus olhos sempre que neles abres o sonhar
e desnudo nosso amar em cada beijo, em cada abraço, em qualquer gesto 
feliz, confiante que em cada voo de pássaro me levarás para o teu mar

domingo, 17 de agosto de 2014

para o azul

perdi a tua voz por uns momentos para o imenso azul que ora nos afasta, logo nos aproxima.

vento que por ti passou

aprendi a apreciar o vento: antes de chegar a mim por ti passou, que és mais velho, mais alto e mais além!

domingo, 3 de agosto de 2014

contradança

tempos
desencontrados
a mesma música
diferentes momentos
pensamentos
desafinados

aguardo
espero de esperança
a contradança


sábado, 2 de agosto de 2014

estrelas no meu colo


cabem tantos no meu colo
a cada coração que chega
faz-se mais, faz-se melhor
como um céu que se ilumina
com mais uma estrela

segunda-feira, 7 de julho de 2014

ruínas de vida

Ouviu dizer que as pessoas acabam por se parecer com as suas casas e viu-se nas ruínas em que se tornara. Estremeceu,  a princípio, depois pôs-se a esgravatar. Sorriu, então: os alicerces eram sólidos, estava na hora de por mãos à obra.


quarta-feira, 25 de junho de 2014

grito por um verão

Assombram-me gritos de gaivota
ensurdecem a qualquer outra voz
teus olhares levam longe de nós
deixando um cinzento prolongado
que os teus olhos humedece

quero chamar, ouso gritar
na minha vida falta um verão
quero nosso todo o mar salgado
dançar no vento, espalhar areia
no teu sorriso descobrir o sol

e, sem tempo marcado ... ir
e sem mais amarras; vadiar
a mão na tua, um só coração



quinta-feira, 19 de junho de 2014

proclamo-te poeta

tens a mania de escrever
mil e uma histórias
desenredos sentidos
futuras memórias
destinos idos

no branco, a tua caneta
traça improváveis
o que nunca viste
que nem existe
impossíveis

inventas-te
apenas num imaginar
a mim
fazes-me voar

proclamo-te poeta!



terça-feira, 17 de junho de 2014

quem sabe, um dia


um dia, ainda vou conseguir escrever com as tuas canetas de tinta permanente!


saudade

Um colo, primeiro o teu
no fim, o meu
um piscar de olhos azuis
devolvido em verde
um carinho, um afago
um livro teu falado
poema meu revisitado
a cumplicidade
até no adeus

agora saudade


quinta-feira, 12 de junho de 2014

férias sem verão

Todos estão eufóricos com a chegada das férias de verão
Ela finge que também, para não a acharem uma aberração
Mas sente-se perdida, sem norte, sem sorte ...
sem saber o que fazer noventa e três dias (sim, já os havia contado)
sem ter por que acordar, nem autocarro escolar
nem nada ... sem tudo o que lhe dava o estudo
e as amizades da escola, que outras não tem, nem namorado

A mochila, hoje vazia por ser dia de auto-avaliação
pesa-lhe no corpo com as pedras que carrega na alma
de bom grado trocaria as boas notas por uma canção
que a fizesse feliz ... que a tornasse normal

quinta-feira, 5 de junho de 2014

a história favorita da Vó Velha

Minha bisavó do lado das Marias era chamada de Vó Velha e morava numa casa tão velha quanto ela, ou talvez mais, mas nunca ninguém soube a idade de qualquer uma. Nem elas; não era importante, bastava-lhes que as deixassem ficar muito depois do casario da vila, quase na floresta.

A Vó Velha era quase cega para fora mas para dentro tinha uma visão fantástica e contava histórias e factos com uma nitidez impressionante. Até os cheiros explicava e nunca se constou que algum dia conhecesse perfume. 

Penso que foi a Vó Velha que inventou o conceito de histórias interativas pois as suas iam-se modificando à mercê das intervenções da garotada e da disposição da narradora. Havia uma que, no entanto, se mantinha inalterada e, de cada vez que era contada, nos deixava mudos e quedos: encantadas e encantadoras crianças, assistíamos quase em direto ao momento em que o elétrico da Foz começou a passar ali, mesmo ao pé de casa!



quarta-feira, 4 de junho de 2014

a voz


Convoquei-as a todas, as vozes da minha existência
responderam ao chamamento boas e más, belas e desafinadas
uma a uma,  ocuparam o seu lugar e de novo me deixei acariciar
abanar, envolver, estremecer, por aquela desgarrada

A voz, que de todas me fez dançar, foi o eco de uma minha gargalhada  


à beira de nada

Sentei-me à beira de nada
senti-me à beira de nada
a tudo me agarrei
para nada não ser

até a nortada é melhor
que esmorecer assim
apagada


sábado, 31 de maio de 2014

maior que a tristeza

—"Estava demasiado triste para me aperceber de tudo o que me estavam a tirar. Agora estou cansada demais para conseguir zangar-me", disse com o olhar cinzento pousado no vazio da vida.


sexta-feira, 30 de maio de 2014

Passa das seis e chove, Lurdes!


Já é de noite e tu não chegas para pôr qualquer coisa ao lume, Lurdes. Passa das seis, não é às seis da tarde que sais? Então porque não chegaste ainda? Deve ser a chuva que te atrasa ... Naquele dia que nunca mais chegavas também chovia. E no dia do funeral também. Deve ser da chuva, sim, e estou a ver que a água ainda nos entra em casa, como daquela vez, antes de tu ires para o hospital, foi à noite também. E já passa das seis, já acabou o programa da sentinela que tu gostas de ver, não sei como consegues se só sais às seis da tarde. Ou é às sete? Voltas sempre um bocado depois das seis para tratares do comer. Não me lembra, o que fizeste ontem. Se calhar não foste tu, acho que era sopa passada e tu nunca me dás sopa passada. Estou com frio, muito frio mesmo, como tu quando estavas naquela cama antes de te levarem. A Teresa fartou-se de chorar, coitada da nossa filha, cansada de trabalhar e cuidar do menino e tudo o mais ... Dizes-me sempre para levar um casaco mas dessa vez foste tu que te esqueceste. Se calhar hoje não levaste guarda-chuva e é por isso que nunca mais chegas. Ai, Lurdes, Lurdes ...

Não sei se ponha água ao lume para ela depois despachar a ceia ... já sabe que não gosto de me deitar tarde, não devia de fazer isto. Vou pôr a mesa só para os dois, que a menina deve ter que ficar a fazer trabalhos com as colegas. Deus queira que ela não se demore que eu não sei que fazer. É com o jantar e com a nossa vida. E mesmo que soubesse; não ia comer sozinho. Mas às vezes parece-me a mim que é como se estivera sozinho há muito tempo. Não me lembra, ontem ... E esta chuva que não pára, se calhar ainda entra água cá pra dentro ...

Mas então não é às seis que sais, Lurdes? Já é de noite, mulher, e tu não chegas para eu me sentar assossegado.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

descobres pássaros bonitos

Secretamente admiro-te e invejo-te, confesso, por esse dom de veres para além das coisas e para lá do tempo. É como se tivesses nascido com uns óculos invisíveis através dos quais o teu olhar foca a alegria que mora em cada traste, a beleza de um beco sujo e que faz dele uma paisagem ímpar, a amizade dos gestos discretos. Em todos e em cada um encontras pedaços singulares e por eles cometes as maiores loucuras.

Vives constantemente apaixonado, ou melhor, tu és apaixonado, do mesmo modo que és sonhador, generoso e feliz. Amas cada mulher com quem te deitas e todas as terras por onde passas. E voltas sempre a mim e ao bairro onde nascemos da mesma mãe, onde cada buraco no muro é uma janela em que te fazes livre.


Hoje, no acender das luzes, apaixonaste-te de novo por alguém que vive, dizes tu, dentro de um pássaro maravilhoso. Vais partir outra vez e eu invejo-te e amo-te por descobrires pássaros bonitos e as pessoas boas que moram dentro deles.



sexta-feira, 16 de maio de 2014

resgate de um verão

pouco a pouco
me desfaço 
dos cacos
dos trapos 
de um verão 
de memórias 
farrapos de morte 
e de  traição

uns atirei para longe
do olhar e do coração
outros rasguei 
com a mesma mão
com que um dia segurei 
um adeus, uma flor
uma dor ... outra 
e um perdão


quinta-feira, 15 de maio de 2014

sexta-feira, 9 de maio de 2014

guardado

canta um poema no peito
de amor
para ti
mas o ritmo não bate direito
com as cores
em que escrevi


terça-feira, 6 de maio de 2014

amar como nos filmes

"Acreditarei que me amas:
quando vir a felicidade estampada no teu rosto sempre os nossos olhares se cruzarem;
quando me ofereceres rosas vermelhas e me arrebatares de paixão a cada manhã;
quando me beijares sofregamente e eu souber que pensaste em mim todos os minutos do teu dia;
quando me disseres que me amas a cada instante;
quando te ajoelhares com um anel numa caixinha azul ... e uma orquestra ao fundo;
quando beberes pelo meu sapato o champanhe que encomendares no nosso aniversário ..."

Tudo isto lhe dissera Amália e nada disto lhe saía do pensamento.
Foi-se embora, então, de vez. Não porque não a amasse, amava-a sim ...
É que tinha medo de nunca conseguir amá-la como nos filmes.


domingo, 27 de abril de 2014

o homem da vida dela

Quando o conheceu, decidiu que era o homem da sua vida.
Quando soube que era casado, redobrou os cuidados para o fazer seu: fez chegar à legítima notícias de amores clandestinos.
Quando ele lhe deu desculpas que um dia usara com a primeira esposa, desfez-se em diligências para o manter seu: percorreu a cidade juntando o necessário e passados dois dias acordou viúva.
Quando foi o enterro, da primeira família não se viu mulher nem filha. Apenas uma tontinha vestida de preto chorava mas afastada de todos, insignificante. O que importava é que era ela que ali estava, ao pé dele, o homem da vida dela.


sábado, 26 de abril de 2014

quarta-feira, 23 de abril de 2014

carta para Carlos Afonso

Meu bom amigo:

Estimo que esta não seja desviada por um qualquer meliante na estação da mala-posta do Carregado e  que o vá encontrar de boa saúde e humores, nessas longínquas paragens que foi levado a conquistar.

Encontro-me impedida de viajar, a bem da economia nacional, e panaceio os afrontamentos com as palavras que me chegam no vento e me ajeitam os pensamentos que ora lhe dedico.

Por cá saem os cravos às rua pela mão de qualquer um, mas poucas são as mãos que se prestam à monda da nossa terra, livrando-a das pragas malditas que se dão por instaladas. Climas efémeros estes, pois muito em breve os cravos darão lugar às rosas, delas se esperando milagre real. E o povo precisa de bem mais do que flores!

Despeço-me, com o peito num aperto de saudade, de si meu gentil primo, e de acordar num Porto satisfeito.

Em XXIII de Abril,
Desta que tanto lhe quer bem,

Maria Ana de Esperança


sexta-feira, 18 de abril de 2014

Gabriel Garcia Marquez

Hoje foi-se Gabriel Garcia Marquez. 

Vemos morrer aqueles que sem os conhecermos pessoalmente, nos foram próximos desde a adolescência através das suas palavras. Em livro, tal como Gabriel,  ou nas letras de obras musicais, alargaram as fronteiras do nosso pensamento, fizeram-nos crescer mais sábios e mais críticos e foram, sem dúvida, referências para atitudes e amares.

De Gabriel Garcia Marquez já muito se falou nas obras grandiosas de Cem Anos de Solidão e de Amor em tempos de cólera. A minha homenagem sentida lembra, para além destes e entre muitos outros: "A incrível e triste história de Cândida Erédia e sua avó desalmada"; "Crónica de uma morte anunciada"; "Doze contos peregrinos" e "Do amor e outros demónios".


terça-feira, 15 de abril de 2014

semanas santas

Recordo-as em cinzento, essas semanas que antecedem a Páscoa, não sei se o tempo tem mesmo tendência a nublar nestas alturas ou se era pela atmosfera católica que nos impunha o sofrimento, o pesar, o luto, o pecado. Eram, então, tempos de limpar, lavar, abrilhantar: na casa; na roupa; na alma.

As rigorosas limpezas da casa punham em reboliço as mulheres todas da casa mais uma ou duas que eram chamadas para ajudar,  num vai e vem de baldes e panos, e do chão ao teto nada escapava ao cheiro de  lixívia, cera amarela ou sabão de Marselha. As roupas também andavam de um lado para o outro, umas assoalhadas outras guardadas, sempre qualquer coisa para estrear no domingo de aleluia. Eu era ainda criança, no tempo destas memórias, e escapava-me com meia dúzia de tarefas de ajudante.

O pior eram as limpezas da alma: a confissão! Após um ano de confessos rotineiros de faltas menores e leves penitências, era suposto que a confissão da Páscoa tivesse outros preparos, achava eu, e assim, os adormeceres aconteciam na tentativa de que o inventário de pecados fosse digno da quaresma. Quando chegava o tão angustiante momento, lá esgotava o repertório do "desobedeci aos meus pais";  "fui preguiçosa"; "menti" e "disse pragas" … e o senhor padre apelava:  —"e que mais? … sim, já disseste isso, e que mais fizeste tu? … e de que mais tens tu a pedir perdão? E eu embatucava, com vergonha de ter tão pouco para dizer. Então,  na minha inocente vontade de agradar, lá inventava mais uma ou outra falta do tipo "cobicei o alheio" ou "tive pensamentos impuros" sem saber, sequer, o que tal queria isso dizer. Depois, ajoelhada no ato de contrição, deixava-me estar  mais tempo que o necessário com a cabeça baixa, para não parecer mal perante os meus colegas e Jesus, ser tão pouco pecadora.


terça-feira, 8 de abril de 2014

meio cento deles

Mais uma amiga faz meio cento deles, desses anos que nos adoçam ou azedam consoante nos demos à vida, à nossa e à dos outros. Mas chamei-lhe amiga: é das primeiras, das mulheres que aprenderam que o olhar se abre por detrás das rugas que virão e que é o sorriso que o ilumina, a  esse olhar que vem do coração.

Com meio cento deles, perdemos a vergonha de chorar em público e ganhamos confiança para dizer que gostamos de quem nos merece. Mesmo que seja assim, em meia dúzia de linhas em vez de meio cento delas …


sempre

E quando as palavras forem grupos de pontinhos dançando, lerei no cheiro dos livros!

sexta-feira, 4 de abril de 2014

vidraças enchuvadas

És tu na foto de  hoje, reconheci-te! És tu, um dia, num daqueles de chuva que odiávamos. —"É pecado dizer isso, a chuvinha faz muita falta, senão as novidades não crescem!", diziam-nos, mas as nossas brincadeiras eram muito mais importantes que as alfaces. E quando chovia, não nos deixavam ir para a rua: espreitávamo-nos por entre as vidraças  enchuvalhadas, tu na janela da cozinha, eu no nosso corredor que durante o dia não se ia para os quartos e a sala era para os dias de festa, dois no ano, a não ser que morresse alguém e se abria para os pêsames. E os dias de inverno eram de pêsames para nós, mesmo sem sabermos o que isso queria dizer ...

Um dia pedi à minha mãe para ir brincar na tua casa, Sãozita, mas nunca te contei a resposta:  —"Era o que faltava, agora andarem em casa umas das outras … e depois vinha ela cá, não? para depois dizer o que se passa aqui e andarmos nas bocas do mundo … não tens que fazer, é? eu arranjo-te … " Disseste que a tua se riu,  quando lhe rogaste o mesmo e  perguntou quem é que nós pensávamos que éramos: — "algumas fidalgas, para andarem a fazer visitas?"

Nunca falaste do que pensavas nesses dias a contar as gotas na janela. Eu olhava para lá dos vidros embaciados e via-nos às duas, num quarto atapetado com cortinados às flores, sentadas frente a uma mesinha, a conversar de coisas finas e a servir chá num daqueles servicinhos de loiça pequeninos que a Rosarinha um dia levou para a escola e a Ana Isabel já conhecia porque já tinha ido lanchar lá a casa. Como eu gostaria de ter ido lanchar "lá a casa" de alguém …  da tua por exemplo, ou contigo a casa da Rosarinha que sempre já tinha o serviço tão lindo.

quarta-feira, 26 de março de 2014

de novo, o azul

E de novo o azul me entra pelos sonhos dentro

basta semicerrar o olhar por um momento
e ei-la, a cor do mar, no pensamento


terça-feira, 11 de março de 2014

um poema nunca é só um poema

um poema
de um qualquer poeta
nunca é só um poema

o teu poema
ganha vida própria
quando flui do teu sentir
por todo o teu ser
qual rio de nascente para mar
e pelas pontas dos dedos
se dá a conhecer
em palavras doces
em turbilhões de pensamentos
em terna saudade
em dor, em amor
vontade de fugir
aos grilhões dos lamentos
em palavras ácidas
amargos de alma
ou em chamamentos
de encantador

nunca é só um poema
um poema …

é o que o homem sente
nas palavras do poeta
e um não é sem o outro
e o teu poema
cada um de teus poemas
é um pedaço da tua vida


anjos da guarda, minha companhia

Os meus sonhos são povoados por bruxas más mas é muito maior a quantidade de almas lindas e sorridentes que por ali se passeiam. A música que cada uma destas trauteia faz a minha orquestra e os uivos das peçonhentas ladras da paz poucas vezes sobressaem. Só  quando se chamam pesadelos.

Mas, como dizia eu, há muitos mais diabinhos angelicais  que, nos meus sonhos, me dão a mão e me levam para dançar. A estes, minha companhia,  encomendo o meu sono e recomendo os sonhos, de dia e de noite.


sábado, 8 de março de 2014

dói-me a saudade que te leio

dói-me a saudade
que te leio
magoa-me
que a acalentes
alimentes
procures
olhes atrás

o desejo
que teu grito seja ouvido
é mais forte
que a vontade de ocultar
de mim,  o pesar
que desgosto me traz
porque me dói
a saudade que te leio

domingo, 2 de março de 2014

público especial

Um amigo. Real, virtual ou até mesmo imaginário.
Um amigo; é todo o público necessário para certas pessoas dançarem a graciosidade de que são feitas


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

pequenina grande

Ceriquinha sempre foi pequenina. Talvez por isso lhe chamaram Ceriquinha e nunca ninguém a conheceu doutro modo que não aquela alcunha que tão bem lhe vestia o feitio.

Conhecemo-nos no 1º ano de catequese e por detrás da vergonha e das ancas das nossas mães medimo-nos uma à outra. Ela espreitou mais: contrastando com a altura, os olhos eram enormes, ou pelo menos muito abertos para o mundo. Mais tarde descobri que o mesmo acontecia com o coração: é imensa a quantidade de gente, animais e sonhos que para lá vi entrar. E para arranjar espaço para mais, Ceriquinha põe o coração nas mãos e delas saem os mais belos tesouros do mundo.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

I believe in anjos

I believe in anjos, 
I believe in anjos, 
oh I believe in anjos!
oh yeah: I do ...

cantarolava eu numa melodia country emprestada de um filme qualquer. Seguia-se uma quadra menos simpática dedicada a Ms Margareth Tatcher, a qual protagonizava o papel de diabo nesta minha adaptação adolescente.

Desejo que esteja em paz, a dama de ferro, e que desculpe qualquer coisinha, não era por mal; só mais tarde conheci diabos de verdade... Quanto aos anjos, alguns que conheço estão agora a rir, lembrando-se da minha carreira de compositora cançonetista de cantar por casa.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

beijo escrito

murmurei que queria um beijo
quando sabia que não
mas vieste ao meu desejo
e fizeste um beijo escrito
com as pontas da tua mão


a cor de um olhar

a minha saudade é azul
como os olhos que me faltam
de outro olhar se tinge a paixão
quente, da cor do chocolate

outros tantos coloridos se abrem
em memória, sentimento, emoção ...

sempre estimei a cor
da expressão de um olhar




domingo, 9 de fevereiro de 2014

palavras para um momento

Nunca foi homem de sábias palavras e grandes conversas mas de certa vez, ao pensar nela, gostou das letras dos seus pensamentos. Escreveu-as para não as perder e guardou-as na carteira.

Usa as suas melhores palavras junto ao coração, para um dia, quando for um bom momento, lhas dizer.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O anel

Madalena nunca foi conhecida por qualquer diminuitivo. Veio trabalhar connosco assim que acabou a faculdade mas desde logo foi D. Madalena para os mais novos, de idade aproximada à sua, e tratada pelo nome inteiro pelos mais velhos. Nem mesmo a mim, que a conhecia de criança de berço, passou pela cabeça tratá-la de outra maneira.

Chegava todos os dias um pouco antes da hora, num porte quase altivo mas encantador, bonita, sempre impecavelmente arranjada, competente. Tanta perfeição afastava muitos dos homens que a namoriscaram e por quem ela demonstrava alguma simpatia, os outros tratava ela de os pôr a andar sem no entanto os magoar. Como o fazia, ninguém sabe, ou melhor, dizíamos que eram coisas que só a Madalena sabe.

Apesar de ter um vasto guarda roupa, as jóias que lhe conhecemos eram poucas. Nunca se separava de um anel que atraía os mais cobiçosos olhares que ela desfazia contando que foi presente do pai, no dia em que fez 15 anos,  e que o mesmo lhe havia oferecido o colar  que costumava usar nos jantares de festa, quando completou os 21, a idade da maioridade. Da mãe, recebeu alguns pares de brincos em criança, que deixaram de servir, e uma pulseira que também só saía em cerimónias. Mas o anel, esse era uma extensão da própria mão e tal como ela, era elegante, distinto, magnífico!

Um dia Madalena chegou quase irreconhecível. A roupa, o penteado, os sapatos, tudo estava bem mas a postura, a expressão e a atitude tinham-se alterado. Era como se tivesse perdido o glamour assim de um dia para o outro. Sentou-se num até então desconhecido desalento e todos, com o olhar, procurámos nela qualquer sinal de desgraça. Dei por falta do anel quando as mãos lhe pousaram no regaço: sem ele parecia despida, exposta e à mercê da vulgaridade.

O olhar de Madalena cruzou-se com o meu e chorou por todos aqueles anos em que nunca deu sinal de fraqueza. Contou, então, por entre lágrimas, soluços e lenços de papel  que tinha sido forçada a vender o anel para pagar um tratamento médico a um namorado que nem sabíamos que existia. Permanecemos num silêncio pesaroso, mas eis que surge a Didi: —"ó Mádá, de certeza que ele lhe  compra um anel igual, quando puder!" e eu acrescentei: — "é verdade, tudo se vai resolver, Leninha!"




terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Não morras tu antes de mim

Não morras tu antes de mim
que a seguir morro eu
de dor, como todos os que ficam
e de frio, que o meu ser, sendo eu
já não sou eu sozinha e sem ti
de frio treme e adoece

Não morras tu antes de mim
que a seguir morro eu
e não fica nenhum de nós
para manter as nossas memórias
viver as nossas histórias
e sonhar no nosso jardim


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

enxaqueca

contorço-me em cinzas de dores queimadas
na escuridão de janelas e pálpebras fechadas
no silêncio imposto por palavras sussurradas
na solidão de manhãs e tardes atormentadas

levanto-me, por vezes, mostro que cá estou
mas vou largando o cheiro a flor estragada
a expressão derrotada que a agonia deixou
e em pouco tempo volto à cama cansada


domingo, 12 de janeiro de 2014

cheiro de ternura

Fomos visitar uns amigos e conhecer o recém-nascido.
O bebé adormeceu-me no colo e fiquei deliciosamente imóvel durante mais de uma hora, até que acordou, sempre com a cabeça pousada no meu peito. Assim entrou de mansinho no meu coração e na minha vida.

Ontem fomos vê-lo outra vez. Já não me cabe no colo, tem barba e toca viola no fado, mas assim que nos abraçamos senti o cheiro da ternura daquele primeiro sono que velei.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

nebulosa

do cenário branco solta-se a neblina
que por agora já se fez nevoeiro
e por detras da cortina
o mistério, feiticeiro
chama ... chama ...
e, depois de calado o meu olhar
procura outra janela entreaberta
para então, sorrateiro
poder entrar


sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

aguada

aguada é a luz dos meus olhos
espelhos de uma vida
de emoção contida
que solta
agora salta
do pensar sentido
ao olhar salgado