sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

pequenina grande

Ceriquinha sempre foi pequenina. Talvez por isso lhe chamaram Ceriquinha e nunca ninguém a conheceu doutro modo que não aquela alcunha que tão bem lhe vestia o feitio.

Conhecemo-nos no 1º ano de catequese e por detrás da vergonha e das ancas das nossas mães medimo-nos uma à outra. Ela espreitou mais: contrastando com a altura, os olhos eram enormes, ou pelo menos muito abertos para o mundo. Mais tarde descobri que o mesmo acontecia com o coração: é imensa a quantidade de gente, animais e sonhos que para lá vi entrar. E para arranjar espaço para mais, Ceriquinha põe o coração nas mãos e delas saem os mais belos tesouros do mundo.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

I believe in anjos

I believe in anjos, 
I believe in anjos, 
oh I believe in anjos!
oh yeah: I do ...

cantarolava eu numa melodia country emprestada de um filme qualquer. Seguia-se uma quadra menos simpática dedicada a Ms Margareth Tatcher, a qual protagonizava o papel de diabo nesta minha adaptação adolescente.

Desejo que esteja em paz, a dama de ferro, e que desculpe qualquer coisinha, não era por mal; só mais tarde conheci diabos de verdade... Quanto aos anjos, alguns que conheço estão agora a rir, lembrando-se da minha carreira de compositora cançonetista de cantar por casa.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

beijo escrito

murmurei que queria um beijo
quando sabia que não
mas vieste ao meu desejo
e fizeste um beijo escrito
com as pontas da tua mão


a cor de um olhar

a minha saudade é azul
como os olhos que me faltam
de outro olhar se tinge a paixão
quente, da cor do chocolate

outros tantos coloridos se abrem
em memória, sentimento, emoção ...

sempre estimei a cor
da expressão de um olhar




domingo, 9 de fevereiro de 2014

palavras para um momento

Nunca foi homem de sábias palavras e grandes conversas mas de certa vez, ao pensar nela, gostou das letras dos seus pensamentos. Escreveu-as para não as perder e guardou-as na carteira.

Usa as suas melhores palavras junto ao coração, para um dia, quando for um bom momento, lhas dizer.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O anel

Madalena nunca foi conhecida por qualquer diminuitivo. Veio trabalhar connosco assim que acabou a faculdade mas desde logo foi D. Madalena para os mais novos, de idade aproximada à sua, e tratada pelo nome inteiro pelos mais velhos. Nem mesmo a mim, que a conhecia de criança de berço, passou pela cabeça tratá-la de outra maneira.

Chegava todos os dias um pouco antes da hora, num porte quase altivo mas encantador, bonita, sempre impecavelmente arranjada, competente. Tanta perfeição afastava muitos dos homens que a namoriscaram e por quem ela demonstrava alguma simpatia, os outros tratava ela de os pôr a andar sem no entanto os magoar. Como o fazia, ninguém sabe, ou melhor, dizíamos que eram coisas que só a Madalena sabe.

Apesar de ter um vasto guarda roupa, as jóias que lhe conhecemos eram poucas. Nunca se separava de um anel que atraía os mais cobiçosos olhares que ela desfazia contando que foi presente do pai, no dia em que fez 15 anos,  e que o mesmo lhe havia oferecido o colar  que costumava usar nos jantares de festa, quando completou os 21, a idade da maioridade. Da mãe, recebeu alguns pares de brincos em criança, que deixaram de servir, e uma pulseira que também só saía em cerimónias. Mas o anel, esse era uma extensão da própria mão e tal como ela, era elegante, distinto, magnífico!

Um dia Madalena chegou quase irreconhecível. A roupa, o penteado, os sapatos, tudo estava bem mas a postura, a expressão e a atitude tinham-se alterado. Era como se tivesse perdido o glamour assim de um dia para o outro. Sentou-se num até então desconhecido desalento e todos, com o olhar, procurámos nela qualquer sinal de desgraça. Dei por falta do anel quando as mãos lhe pousaram no regaço: sem ele parecia despida, exposta e à mercê da vulgaridade.

O olhar de Madalena cruzou-se com o meu e chorou por todos aqueles anos em que nunca deu sinal de fraqueza. Contou, então, por entre lágrimas, soluços e lenços de papel  que tinha sido forçada a vender o anel para pagar um tratamento médico a um namorado que nem sabíamos que existia. Permanecemos num silêncio pesaroso, mas eis que surge a Didi: —"ó Mádá, de certeza que ele lhe  compra um anel igual, quando puder!" e eu acrescentei: — "é verdade, tudo se vai resolver, Leninha!"