domingo, 27 de abril de 2014

o homem da vida dela

Quando o conheceu, decidiu que era o homem da sua vida.
Quando soube que era casado, redobrou os cuidados para o fazer seu: fez chegar à legítima notícias de amores clandestinos.
Quando ele lhe deu desculpas que um dia usara com a primeira esposa, desfez-se em diligências para o manter seu: percorreu a cidade juntando o necessário e passados dois dias acordou viúva.
Quando foi o enterro, da primeira família não se viu mulher nem filha. Apenas uma tontinha vestida de preto chorava mas afastada de todos, insignificante. O que importava é que era ela que ali estava, ao pé dele, o homem da vida dela.


sábado, 26 de abril de 2014

quarta-feira, 23 de abril de 2014

carta para Carlos Afonso

Meu bom amigo:

Estimo que esta não seja desviada por um qualquer meliante na estação da mala-posta do Carregado e  que o vá encontrar de boa saúde e humores, nessas longínquas paragens que foi levado a conquistar.

Encontro-me impedida de viajar, a bem da economia nacional, e panaceio os afrontamentos com as palavras que me chegam no vento e me ajeitam os pensamentos que ora lhe dedico.

Por cá saem os cravos às rua pela mão de qualquer um, mas poucas são as mãos que se prestam à monda da nossa terra, livrando-a das pragas malditas que se dão por instaladas. Climas efémeros estes, pois muito em breve os cravos darão lugar às rosas, delas se esperando milagre real. E o povo precisa de bem mais do que flores!

Despeço-me, com o peito num aperto de saudade, de si meu gentil primo, e de acordar num Porto satisfeito.

Em XXIII de Abril,
Desta que tanto lhe quer bem,

Maria Ana de Esperança


sexta-feira, 18 de abril de 2014

Gabriel Garcia Marquez

Hoje foi-se Gabriel Garcia Marquez. 

Vemos morrer aqueles que sem os conhecermos pessoalmente, nos foram próximos desde a adolescência através das suas palavras. Em livro, tal como Gabriel,  ou nas letras de obras musicais, alargaram as fronteiras do nosso pensamento, fizeram-nos crescer mais sábios e mais críticos e foram, sem dúvida, referências para atitudes e amares.

De Gabriel Garcia Marquez já muito se falou nas obras grandiosas de Cem Anos de Solidão e de Amor em tempos de cólera. A minha homenagem sentida lembra, para além destes e entre muitos outros: "A incrível e triste história de Cândida Erédia e sua avó desalmada"; "Crónica de uma morte anunciada"; "Doze contos peregrinos" e "Do amor e outros demónios".


terça-feira, 15 de abril de 2014

semanas santas

Recordo-as em cinzento, essas semanas que antecedem a Páscoa, não sei se o tempo tem mesmo tendência a nublar nestas alturas ou se era pela atmosfera católica que nos impunha o sofrimento, o pesar, o luto, o pecado. Eram, então, tempos de limpar, lavar, abrilhantar: na casa; na roupa; na alma.

As rigorosas limpezas da casa punham em reboliço as mulheres todas da casa mais uma ou duas que eram chamadas para ajudar,  num vai e vem de baldes e panos, e do chão ao teto nada escapava ao cheiro de  lixívia, cera amarela ou sabão de Marselha. As roupas também andavam de um lado para o outro, umas assoalhadas outras guardadas, sempre qualquer coisa para estrear no domingo de aleluia. Eu era ainda criança, no tempo destas memórias, e escapava-me com meia dúzia de tarefas de ajudante.

O pior eram as limpezas da alma: a confissão! Após um ano de confessos rotineiros de faltas menores e leves penitências, era suposto que a confissão da Páscoa tivesse outros preparos, achava eu, e assim, os adormeceres aconteciam na tentativa de que o inventário de pecados fosse digno da quaresma. Quando chegava o tão angustiante momento, lá esgotava o repertório do "desobedeci aos meus pais";  "fui preguiçosa"; "menti" e "disse pragas" … e o senhor padre apelava:  —"e que mais? … sim, já disseste isso, e que mais fizeste tu? … e de que mais tens tu a pedir perdão? E eu embatucava, com vergonha de ter tão pouco para dizer. Então,  na minha inocente vontade de agradar, lá inventava mais uma ou outra falta do tipo "cobicei o alheio" ou "tive pensamentos impuros" sem saber, sequer, o que tal queria isso dizer. Depois, ajoelhada no ato de contrição, deixava-me estar  mais tempo que o necessário com a cabeça baixa, para não parecer mal perante os meus colegas e Jesus, ser tão pouco pecadora.


terça-feira, 8 de abril de 2014

meio cento deles

Mais uma amiga faz meio cento deles, desses anos que nos adoçam ou azedam consoante nos demos à vida, à nossa e à dos outros. Mas chamei-lhe amiga: é das primeiras, das mulheres que aprenderam que o olhar se abre por detrás das rugas que virão e que é o sorriso que o ilumina, a  esse olhar que vem do coração.

Com meio cento deles, perdemos a vergonha de chorar em público e ganhamos confiança para dizer que gostamos de quem nos merece. Mesmo que seja assim, em meia dúzia de linhas em vez de meio cento delas …


sempre

E quando as palavras forem grupos de pontinhos dançando, lerei no cheiro dos livros!

sexta-feira, 4 de abril de 2014

vidraças enchuvadas

És tu na foto de  hoje, reconheci-te! És tu, um dia, num daqueles de chuva que odiávamos. —"É pecado dizer isso, a chuvinha faz muita falta, senão as novidades não crescem!", diziam-nos, mas as nossas brincadeiras eram muito mais importantes que as alfaces. E quando chovia, não nos deixavam ir para a rua: espreitávamo-nos por entre as vidraças  enchuvalhadas, tu na janela da cozinha, eu no nosso corredor que durante o dia não se ia para os quartos e a sala era para os dias de festa, dois no ano, a não ser que morresse alguém e se abria para os pêsames. E os dias de inverno eram de pêsames para nós, mesmo sem sabermos o que isso queria dizer ...

Um dia pedi à minha mãe para ir brincar na tua casa, Sãozita, mas nunca te contei a resposta:  —"Era o que faltava, agora andarem em casa umas das outras … e depois vinha ela cá, não? para depois dizer o que se passa aqui e andarmos nas bocas do mundo … não tens que fazer, é? eu arranjo-te … " Disseste que a tua se riu,  quando lhe rogaste o mesmo e  perguntou quem é que nós pensávamos que éramos: — "algumas fidalgas, para andarem a fazer visitas?"

Nunca falaste do que pensavas nesses dias a contar as gotas na janela. Eu olhava para lá dos vidros embaciados e via-nos às duas, num quarto atapetado com cortinados às flores, sentadas frente a uma mesinha, a conversar de coisas finas e a servir chá num daqueles servicinhos de loiça pequeninos que a Rosarinha um dia levou para a escola e a Ana Isabel já conhecia porque já tinha ido lanchar lá a casa. Como eu gostaria de ter ido lanchar "lá a casa" de alguém …  da tua por exemplo, ou contigo a casa da Rosarinha que sempre já tinha o serviço tão lindo.