sábado, 31 de maio de 2014

maior que a tristeza

—"Estava demasiado triste para me aperceber de tudo o que me estavam a tirar. Agora estou cansada demais para conseguir zangar-me", disse com o olhar cinzento pousado no vazio da vida.


sexta-feira, 30 de maio de 2014

Passa das seis e chove, Lurdes!


Já é de noite e tu não chegas para pôr qualquer coisa ao lume, Lurdes. Passa das seis, não é às seis da tarde que sais? Então porque não chegaste ainda? Deve ser a chuva que te atrasa ... Naquele dia que nunca mais chegavas também chovia. E no dia do funeral também. Deve ser da chuva, sim, e estou a ver que a água ainda nos entra em casa, como daquela vez, antes de tu ires para o hospital, foi à noite também. E já passa das seis, já acabou o programa da sentinela que tu gostas de ver, não sei como consegues se só sais às seis da tarde. Ou é às sete? Voltas sempre um bocado depois das seis para tratares do comer. Não me lembra, o que fizeste ontem. Se calhar não foste tu, acho que era sopa passada e tu nunca me dás sopa passada. Estou com frio, muito frio mesmo, como tu quando estavas naquela cama antes de te levarem. A Teresa fartou-se de chorar, coitada da nossa filha, cansada de trabalhar e cuidar do menino e tudo o mais ... Dizes-me sempre para levar um casaco mas dessa vez foste tu que te esqueceste. Se calhar hoje não levaste guarda-chuva e é por isso que nunca mais chegas. Ai, Lurdes, Lurdes ...

Não sei se ponha água ao lume para ela depois despachar a ceia ... já sabe que não gosto de me deitar tarde, não devia de fazer isto. Vou pôr a mesa só para os dois, que a menina deve ter que ficar a fazer trabalhos com as colegas. Deus queira que ela não se demore que eu não sei que fazer. É com o jantar e com a nossa vida. E mesmo que soubesse; não ia comer sozinho. Mas às vezes parece-me a mim que é como se estivera sozinho há muito tempo. Não me lembra, ontem ... E esta chuva que não pára, se calhar ainda entra água cá pra dentro ...

Mas então não é às seis que sais, Lurdes? Já é de noite, mulher, e tu não chegas para eu me sentar assossegado.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

descobres pássaros bonitos

Secretamente admiro-te e invejo-te, confesso, por esse dom de veres para além das coisas e para lá do tempo. É como se tivesses nascido com uns óculos invisíveis através dos quais o teu olhar foca a alegria que mora em cada traste, a beleza de um beco sujo e que faz dele uma paisagem ímpar, a amizade dos gestos discretos. Em todos e em cada um encontras pedaços singulares e por eles cometes as maiores loucuras.

Vives constantemente apaixonado, ou melhor, tu és apaixonado, do mesmo modo que és sonhador, generoso e feliz. Amas cada mulher com quem te deitas e todas as terras por onde passas. E voltas sempre a mim e ao bairro onde nascemos da mesma mãe, onde cada buraco no muro é uma janela em que te fazes livre.


Hoje, no acender das luzes, apaixonaste-te de novo por alguém que vive, dizes tu, dentro de um pássaro maravilhoso. Vais partir outra vez e eu invejo-te e amo-te por descobrires pássaros bonitos e as pessoas boas que moram dentro deles.



sexta-feira, 16 de maio de 2014

resgate de um verão

pouco a pouco
me desfaço 
dos cacos
dos trapos 
de um verão 
de memórias 
farrapos de morte 
e de  traição

uns atirei para longe
do olhar e do coração
outros rasguei 
com a mesma mão
com que um dia segurei 
um adeus, uma flor
uma dor ... outra 
e um perdão


quinta-feira, 15 de maio de 2014

sexta-feira, 9 de maio de 2014

guardado

canta um poema no peito
de amor
para ti
mas o ritmo não bate direito
com as cores
em que escrevi


terça-feira, 6 de maio de 2014

amar como nos filmes

"Acreditarei que me amas:
quando vir a felicidade estampada no teu rosto sempre os nossos olhares se cruzarem;
quando me ofereceres rosas vermelhas e me arrebatares de paixão a cada manhã;
quando me beijares sofregamente e eu souber que pensaste em mim todos os minutos do teu dia;
quando me disseres que me amas a cada instante;
quando te ajoelhares com um anel numa caixinha azul ... e uma orquestra ao fundo;
quando beberes pelo meu sapato o champanhe que encomendares no nosso aniversário ..."

Tudo isto lhe dissera Amália e nada disto lhe saía do pensamento.
Foi-se embora, então, de vez. Não porque não a amasse, amava-a sim ...
É que tinha medo de nunca conseguir amá-la como nos filmes.