quarta-feira, 25 de junho de 2014

grito por um verão

Assombram-me gritos de gaivota
ensurdecem a qualquer outra voz
teus olhares levam longe de nós
deixando um cinzento prolongado
que os teus olhos humedece

quero chamar, ouso gritar
na minha vida falta um verão
quero nosso todo o mar salgado
dançar no vento, espalhar areia
no teu sorriso descobrir o sol

e, sem tempo marcado ... ir
e sem mais amarras; vadiar
a mão na tua, um só coração



quinta-feira, 19 de junho de 2014

proclamo-te poeta

tens a mania de escrever
mil e uma histórias
desenredos sentidos
futuras memórias
destinos idos

no branco, a tua caneta
traça improváveis
o que nunca viste
que nem existe
impossíveis

inventas-te
apenas num imaginar
a mim
fazes-me voar

proclamo-te poeta!



terça-feira, 17 de junho de 2014

quem sabe, um dia


um dia, ainda vou conseguir escrever com as tuas canetas de tinta permanente!


saudade

Um colo, primeiro o teu
no fim, o meu
um piscar de olhos azuis
devolvido em verde
um carinho, um afago
um livro teu falado
poema meu revisitado
a cumplicidade
até no adeus

agora saudade


quinta-feira, 12 de junho de 2014

férias sem verão

Todos estão eufóricos com a chegada das férias de verão
Ela finge que também, para não a acharem uma aberração
Mas sente-se perdida, sem norte, sem sorte ...
sem saber o que fazer noventa e três dias (sim, já os havia contado)
sem ter por que acordar, nem autocarro escolar
nem nada ... sem tudo o que lhe dava o estudo
e as amizades da escola, que outras não tem, nem namorado

A mochila, hoje vazia por ser dia de auto-avaliação
pesa-lhe no corpo com as pedras que carrega na alma
de bom grado trocaria as boas notas por uma canção
que a fizesse feliz ... que a tornasse normal

quinta-feira, 5 de junho de 2014

a história favorita da Vó Velha

Minha bisavó do lado das Marias era chamada de Vó Velha e morava numa casa tão velha quanto ela, ou talvez mais, mas nunca ninguém soube a idade de qualquer uma. Nem elas; não era importante, bastava-lhes que as deixassem ficar muito depois do casario da vila, quase na floresta.

A Vó Velha era quase cega para fora mas para dentro tinha uma visão fantástica e contava histórias e factos com uma nitidez impressionante. Até os cheiros explicava e nunca se constou que algum dia conhecesse perfume. 

Penso que foi a Vó Velha que inventou o conceito de histórias interativas pois as suas iam-se modificando à mercê das intervenções da garotada e da disposição da narradora. Havia uma que, no entanto, se mantinha inalterada e, de cada vez que era contada, nos deixava mudos e quedos: encantadas e encantadoras crianças, assistíamos quase em direto ao momento em que o elétrico da Foz começou a passar ali, mesmo ao pé de casa!



quarta-feira, 4 de junho de 2014

a voz


Convoquei-as a todas, as vozes da minha existência
responderam ao chamamento boas e más, belas e desafinadas
uma a uma,  ocuparam o seu lugar e de novo me deixei acariciar
abanar, envolver, estremecer, por aquela desgarrada

A voz, que de todas me fez dançar, foi o eco de uma minha gargalhada  


à beira de nada

Sentei-me à beira de nada
senti-me à beira de nada
a tudo me agarrei
para nada não ser

até a nortada é melhor
que esmorecer assim
apagada