terça-feira, 30 de setembro de 2014

a sombra

Entravas e a sala iluminava-se. Figura explorada, esta, mas não encontro outra melhor ao recordar-te. Davas-te conta disso, de todos os olhares convergirem para ti, de fazeres sorrisos nos lábios mais sisudos, e o teu contentamento era visível na voz de manhã fresca com que nos saudavas. Onde encostavas, o grupo ia-se alargando numa pergunta, num comentário, num riso. Eram contagiantes, as tuas gargalhadas. Passavas a mão no cabelo e havia sempre pelo menos um par de olhos que acompanhava o movimento. Chegavas a tantos e tão preciosos eram todos para ti.

Não é claro, o momento em que começaste a apagar-te. A esperança dos teus olhos foi dando lugar à dor e deixou de haver espaço na alma para ilusões. Hoje entras, sorris docemente e nós por vezes recordamos o brilho que outrora coloria a confiança que tinhas nas pessoas.

Temos saudades daquela de quem hoje és a sombra.


segunda-feira, 29 de setembro de 2014

alguém

Alguém que repare no que somos bons, que aprecie o que fazemos bem.
Que nos faça sentir alguém.
Especial.

Todos precisamos de uma pessoa assim, que ao nosso mar dê o sabor a sal.

domingo, 28 de setembro de 2014

momentos

Dos momentos mais belos não temos foto; todos os sentidos se dedicam a apreciar a felicidade que neles se manifesta.
Não há ocasião para outros retratos.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

um pé d' água à beira rio

Um pé d' água à beira rio: assim se chama ao que molhou a tarde na cidade onde moro em recordações.

A notícia de tempestade foi espalhada pelas gaivotas mas a maior parte de nós não sabe ouvir os gritos daqueles bicos e assim, numa tarde de verão, foi toda a ribeira apanhada de surpresa com o inesperado aguaceiro. Um verdadeiro pé d' água, a bem dizer.
Gritos e gritinhos, risos nervosos, invocações a deus e à mãe, exclamações em língua inglesa e tripeira, tudo isto era orquestra de fundo à serenata aguaceira que batizou o passeio. E o douro, sereno, corria para o mar, já ali ao fundo no cinzento azulado daquele momento.

Um pé d' água à beira do rio, momento perfeito para abençoar apaixonados: um beijo inesquecível, um abraço para vida, até mesmo um pedido de casamento.

parto

O pensamento poisa
no fundo do desfalecer
ouço, cada vez mais longe
falar de mim, que me fico
não importa, o que dizem
foi-se a dor, a exaustão

sinto-me leve, vazia
só o amor sobrevive
num sorriso
com que me deixo ir
sem me importar
se me chamam ao leito
em que acabei de parir

terça-feira, 9 de setembro de 2014

sorrisos e olhares ternos

Dançam-me as memórias em sonos cruzados.

Tarde de verão: aquele calor sufocante da cidade em que vivemos, a sala do apartamento virada a sul, o menino inquieto. Apenas vestes uns calções e ele só tem a fralda. Pegas-lhe, ele abocanha o teu ombro, entusiasmado, e tu dás uma gargalhada. Ele olha-te naquele azul brilhante de bebé feliz, ri e tu devolves-lhe a ternura no mais lindo sorriso que logo estendes a mim, quando me surpreendes no olhar derretido com que guardo esse momento.

Deitei o menino na curva do meu corpo. Aconchegado, fitou-me de olhos grandes, num castanho quente que é o teu. Voltamos a ser um só, por uns momentos, tal como semanas atrás, e assim nos encontraste. Perante tal intimidade balbuciastes desculpas, sem pensar, mas logo as calaste quando o meu olhar te envolveu e o teu sorriso nos abraçou. Chegou-se mais um, quase três anos de gente, ao calor da ternura e éramos quatro naquele quarto, um só colo.

Tínhamos combinado encontro de namorados num café da baixa daquela cidade que era nossa. Eu ia ter contigo mas tu vinhas já ao meu encontro e sorrimos aos olhares apaixonados em que nos entregamos. O meu vestido azul perdeu-se no castanho dos teus olhos. Acho que ainda lá está.

E de novo no presente, que as memórias não se desfolham como os calendários. As pombas! Os dois correm atrás das pombas que não se ficam e eles soltam gargalhadas e olham-nos confiantes, felizes. E nós só largamos os olhos deles por breves instantes, para procurarmos os nossos olhares. Sorrimos.

Acordo de vez e entrego-me ao dia com a certeza de que a felicidade se faz de sorrisos e de ternura no encontro dos olhares.

cores nossas

No branco da tela misturamos cores da nossa vida, ali
vermelhos das rosas que me ofereceste, das flores que te dei
amarelos de girassol, risos e alegrias, luz de um para o outro
azuis do céu e do mar, de segredos nossos e dos de cada um
pretos e brancos de luares, sonhos, beijos, ímpetos,  paixões

tal como nos dias matizaram-se outras cores, infinitos tons
borrifamos a chuva, sopramos os ventos, espalhamos o sal
amanhã,  depois  e depois ainda, faremos uma e outra vez
senão na tela, nos espaços e nos momentos, tão nossos
pintamos as cores que ambos trazemos
e as que fazemos os dois


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

30 dias à sombra

Não houve partida
não houve chegada

Em verde estendida
a minha alma vadia
resignada, aprisionada
sonhos postos no mar
olhos  naquela estrada
por onde vamos, um dia