terça-feira, 18 de novembro de 2014

por favor: leiam o meu olhar!

Não estou sózinho ao portão da escola, como é costume a esta hora. A miúda está fula, ansiosa que a venham buscar. Eu não, tento dizer-lhe porquê com o olhar mas, tal como os outros, ela não o sabe ler. Está escuro; talvez seja por isso ...

Sabes, tento contar-lhe, para mim, esta espera é melhor do que o que me espera. Mal entre no carro levo um apertão no braço ou uma pancada na testa conforme entre e feche o chapéu só com o braço de fora, e nesse caso levo porque entra chuva no Astra, ou se fecho primeiro o chapéu e levo porque assim entro molhado e estrago os estofos. Em casa é pior, aí nunca sei mesmo o que me aguarda, se descobriu um agrafo no tapete do meu quarto, se a colcha ficou mal esticada, se alguém comentou alguma coisa sobre mim, se levo bofetadas até cair, se me atira com um prato ou bate a minha cabeça contra a parede. Se me queixar é pior, aqueço-lhe a fúria e podem chover murros,  pontapés, o ferro de engomar ou um candeeiro. Quando estou em casa ouço sempre o meu coração a bater, sabes como é? Deve ser do medo, tenho sempre medo. Se me chama para ajudar na cozinha ou no jardim, até o peito me dói de respirar e tremo, estou sempre a tremer. Uma frigideira a bater na cabeça, um garfo espetado na mão, uma enxada a voar na minha direção ... já me aconteceu tudo isto mas tu não o consegues ler no meu olhar, pois não?

Deixa lá ... também os médicos e os enfermeiros não lêem,  ela sabe como desviar a atenção dos meus olhos enquanto fala da  "hiperatividade" que me causa tantos acidentes. Uma senhora tão bonita e logo lhe havia de sair este filho enxertado em corno de cabra, ouço-lhes o pensamento. Alguns professores perguntam porque ando sempre tão triste e estranham tantas justificações para não fazer aula de educação física. E eu, que todos eles dizem que escrevo tão bem, não consigo que me leiam no olhar o inferno em que vivo.

Tentei falar com ele mas acho que também tem medo, um dia ela bateu-lhe com o salto do sapato até fazer sangue. Dantes, pensava que não me defendia por não ser mesmo filho dele e amaldiçoava os dois, o meu pai verdadeiro por me ter abandonado e este, por me deixar na mãos da assassina. Sim: assassina! Mesmo que não me consiga matar antes que eu saia de casa, mata-me aos poucos. Já me matou a infância, a confiança nas pessoas, a esperança de um dia poder ser uma pessoa normal, ela vai matando tudo!

Quando era mais novo acreditava que era por eu ser mau que me batia tanto mas agora sei que não. E ela está a começar a fazer o mesmo à menina e ele deixa, por isso não tem nada a ver por não ser meu pai, ele também não sabe ser pai da menina. Diz-lhe o mesmo que a mim, que temos de ter paciência, que a mamã é muito nervosa, não devemos  contraria-la senão ela depois faz estas coisas... É sem querer, que ela depois arrepende-se  porque gosta muito de nós.

Não me atrevo a falar disto com mais ninguém, ela diz que me derrete se falo das coisas de casa com pessoas de fora. Um dia telefonei à avó para ela me ajudar, que me tirasse desta tortura, e ela disse que eu tinha que ter paciência e tentar não arreliar a mamã, que ela não faz por mal, é com os nervos, no fundo gosta muito de mim. E eu perdi a esperança. E a avó deve ter comentado alguma coisa com ela pois passados dois dias fui internado com a informação de que sou terrível e caí do telhado.  E por isso tento contar a todos só com o olhar, peço que me ajudem, que me ajudem a perder o medo porque ainda me faltam cinco anos para poder sair de casa e lá matam-me todos os dias.


sábado, 8 de novembro de 2014

ele nunca me bateu

—Ele nunca me bateu, doutora, é mentira isso que os vizinhos andam a dizer. É certo que ele é assim um bocado repentino, está-me a compreender? Mas nunca me bateu. Aquilo na cara? Isso foi sem querer, até que a culpa foi minha: esqueci-me de acertar o sal na comida e quando ele ralhou eu respondi-lhe mal... Ele com os nervos atirou-me com a colher e por azar acertou em cheio na cana do nariz e ficou tudo negro ... Tem lá o seu feitio, isso tem. Ninguém se faz por suas mãos ... eu quando casei já sabia como ele era, lá isso ele não me enganou que em solteiro já tinha estes repentes. Então mas o que é que quer, eu gostei dele! E ele às vezes até é muito meu amigo, minha senhora, é mentira o que andam a dizer, que ele é violento e assim. Ele nunca me bateu. No hospital? Isso foi sem querer, estavamos a discutir e ele, ao passar,  empurrou-me  e por azar eu estava ao pé das escadas e caí. No braço? Então as nódoas negras no braço foi dele me tentar agarrar pra eu não cair ... Mas isto ainda vai demorar muito? É que ele se chega a casa e não me encontra fica enervado...  e eu também já não sei mais o que lhe diga,  doutora. Ontem? Aquilo não foi nada, coisas de marido e mulher, está-me a compreender? Eu não estava pr' ali virada mas ele cismou, sabe como são os homens? E como eu não me punha a jeito ele começou a atirar com tudo o que lhe vinha à mão, até a Nossa Senhora de Fátima voou da cómoda. Isto na cabeça foi disso, não que ele me batesse, que ele nunca me bateu graças a deus!

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

amigos de sempre

Estamos meses sem nos encontrarmos, por vezes anos. Um dia lá se dá o reencontro e, passados alguns minutos de conversa, é como se estivéssemos a continuar o assunto da semana passada. Apreciamo-nos carinhosamente e, embora entusiasmados, estamos tranquilos e com o à-vontade de sempre.


outono

Chegou
um pouco tarde
dizem, por mim
sempre tem tempo

Que venha por bem
que nós ... também!


domingo, 2 de novembro de 2014

invasão

Por favor, não me digam que isto não é nada pois é sempre alguma coisa. Não digam que não tenho nada porque toda a gente tem qualquer coisa. E eu tenho imensas coisas, até uma doença daquelas que me garante que não chegarei a velha.

Possivelmente por ascendência  romana que me impele a castigar os portadores das más novas, resolvi não voltar a por os pés no consultório do médico. Também já não há muito a fazer a não ser drunfar-me quando o pior chegar.  O Lucas estava comigo na  "leitura da sentença" mas passadas quase duas semanas ainda não acredita, vai contando a toda a gente até ele próprio estar convencido. Pelo menos  não me diz que a medicina está muito avançada, que a prima da cunhada de não sei quem estava no mesmo estado que eu e anda aí sã que nem um pêro, que isto não ha-de ser nada.

Agora todos os dias me perguntam o que quero comer, a toda a hora me questionam sobre o que me apetece fazer, se estou bem. Não, não estou bem. Antes de saber o que tenho estava melhor, quando a coisa começar a apertar estarei pior, mas agora não estou bem. São todos pessoas inteligentes; não precisavam de estar sempre a perguntar. Não me levem a mal, aprecio a vossa dedicação mas são quase tão invasivos quanto o meu mal.

Tenho apenas alguns meses de vida com plena consciência e não decidi o que fazer, estabelecer as minhas prioridades, fazer as minhas disposições, como é uso dizer-se, pois não consigo pensar, não me deixam  nem um minuto. Para além das amigas da casa do peito, que se fartam de chorar e dizer ternuras tonteiras, já cá esteve imensa gente, até vizinhos que mal conheço, a minha irmã que não me falava há 6 anos e o meu ex: — "Maria Armanda, se precisares de alguma coisa, é só dizeres!"

E eu preciso! Preciso tanto que me deixem chorar sozinha, ouvir os pássaros do jardim, andar descalça na relva, perder-me nos braços do Lucas, encontrar-me no mar e sentir o sol no rosto enquanto falo comigo mesma e decido se vou conhecer África, escrever as minhas memórias ou viver a vida de sempre, até sempre.


sábado, 1 de novembro de 2014

desgraça anunciada

Por favor, sr.ª dr.ª, meta-lhe juízo naquela cabeça senão qualquer dia há uma desgraça! É que ele sempre foi muito agarrado a mim e por isso custa-lhe a aceitar certas coisas ... quando era mais pequeno fugia lá para cima quando o pai chegava, sim, porque a gente só pelo meter a chave à porta já sabíamos se ele vinha para implicar... mas agora deu-lhe para fazer frente ao pai, mete-se à minha frente. A primeira vez que fez o gesto de levantar a mão ao pai, o Amândio tirou o cinto para lhe arrear mas até o cinto ele segurou e berrou que nunca mais! No dia seguinte, depois dele sair para a escola, eu é que as paguei! Ele não havia de se meter, eu já lhe disse mas ele não acata e qualquer dia há uma desgraça.  O meu marido não é mau homem mas está marcado pela vida, o pai era um homem à antiga, a vida dele não foi fácil,  depois eu engravidei assim que casamos, ele nunca teve grandes oportunidades ... Pois, eu sei que não tenho culpa, sr.ª dr.ª mas ele é assim: nervoso. Depois arrepende-se, às vezes até chora, coitado. Sim, sim, eu já saí de casa duas vezes mas ele foi-me buscar ... ele não tem mais ninguém sr.ª dr.ª e ele gosta de mim. Pois, à maneira dele ... mas não se preocupe comigo.

É com o meu Paulo que eu quero que a sr.ª dr.ª fale. Faça-lhe ver que ele não tem que se meter, são coisas nossas, minhas e do pai e a verdade é que o Amândio nunca faltou com nada lá em casa e quando o Paulinho era pequeno até era muito amigo dele, sim, antes do garoto lhe começar a ripostar. Eu já lhe disse que aquilo depois passa ... mas ele agora até liga para o 112 quando o Amândio me aleija mais, no hospital já andam desconfiados ... e eu digo-lhe que não se meta mas ele agora deu em gritar comigo também. Diz que eu não tenho personalidade nenhuma e que se gostasse dele como uma mãe de verdade tinha abalado com ele lá de casa, veja lá o que eu ainda tenho de ouvir. Diz que eu não me faço respeitar. No outro dia respondi-lhe que pelo menos ele que me respeite e não grite assim comigo que nessas alturas até se parece com o pai e sabe, sr.ª dr:ª que ele, com os nervos e de tão destrambelhado que anda, levantou-me a mão, o meu Paulo! Meta-lhe juízo naquela cabeça, peço-lhe, senão qualquer dia ainda há uma desgraça ...