quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

ano novo

Um ano feliz faz-se.
Constrói-se de pequenas coisas, decorre de gestos simples mas gentis, firma-se na intenção de resistir aos momentos menos bons e cresce à medida da nossa entrega ao que nos apaixona.
Faz-se também pela renúncia. Melhora com a firmeza em dizer não ao que nos intoxica corpo e alma, com a distância a quem nos nos merece, nos prende, nos asfixia.

Este ano temos 366 dias para estrear com o entusiasmo de quem tem uns sapatos novos e tem muito para oferecer: sorrisos, ternura, determinação.

Façamos um ano bom, feliz até!
Viva a vida!


domingo, 27 de dezembro de 2015

Fora das linhas

O fundo é branco.
Por vezes é branco vazio, frio.
Outras vezes é branco alvo, fresco, luminoso

Soltam-se as palavras do coração e pelo pensamento conjugadas
caem-me da mão, assim sem linhas, libertadas
no fundo que é branco

Contam de mim ou de ninguém
falam de saudades e de amores de todas as cores
no fundo, há sempre alguém

No branco permanece uma ilusão, um sonho
que o tempo desgasta ou torna grandioso
fora das linhas,  assim como o disponho

domingo, 20 de dezembro de 2015

amizade

Cresço
de palavras amenas
de conversas serenas
à distância de um coração

Cresço
de pequenos nadas
de histórias faladas
num tempo contado

Cresço
enquanto me apercebo
do tanto que recebo
numa breve atenção

Cresço
no muito que me dou
na mostra do que sou
ser de laços armado

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Quem vier por bem

Quem me diga que sim
quem me diga que não
venha ...

traga asas para os meus sonhos
braços que me poisem no chão

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

outonos

São quase seis da tarde e estou no meu canto, aquele onde faço as pazes comigo e com Deus. Caem as folhas cor de outono diante de mim e não consigo evitar a corrente analogia entre as estações do ano e as da vida; seria agora outono para mim. E no entanto, eu sinto-me em todas as estações, sim, até no inverno quando a saudade se tinge de cinzento e me chovem os olhos. Mas logo mais renasço a uma lembrança tua e danço na relva verde, com a lua.

Hoje, a  minha alma veste-se deste outono incerto, ameno, lindo.
Penso em ti.


domingo, 15 de novembro de 2015

Laços


Temos laços que não  sabemos onde começaram, simplesmente se fizeram como mãos que dão a volta ao coração. Aproximam-nos sem nos prender e por pequenos gestos mostram o quanto estamos ligados: gostos e desgostos partilhados; cumplicidades; generosidades;  quase nadas que se tornam preciosidades.

Atamos os laços com cuidado para que não se façam em nós, mas, quase sem sabermos como, a cada dia passado mais umas laçadas foram dadas e agradecidas. Acariciamo-las, então, e desembrulhamos os sentimentos como grandiosos presentes. Rimos a uma só voz, brincamos, sonhamos, abraçamos, por vezes choramos. Sobretudo gostamos, amamos.
E novos laços se fazem no acontecer das vidas.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

vinte e tal anos

Temos vinte e tal anos anos e alguns enganos. Olhamo-nos docemente sempre que apanhamos os outros distraídos e procuramos-nos com pressa depois de todos saídos. Tu mimas-me como a uma princesinha e eu derreto-me, qual adolescente. Então tu tocas-me, já homem quente, e eu faço esvoaçar as borboletas para em ti me entrelaçar com sentidos de mulher. Mais tarde sonhas comigo e eu embalo-me no perfume de todas as rosas com que coloriste este querer.

Temos vinte e tal anos e, sem promessas, acreditamos.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

aniversário da migamana ... outra vez!

Maria Sãozinha:

Aposto que estás a espera que eu te escreva uma data de coisas bonitas, e até já puseste maquilhagem a prova de água, mas tira o cavalinho da chuva que este ano até de palavras ando pouca. Lá porque fazes anos e eu sou tua amiga, não penses que me vou por praqui a dizer que gosto muito de ti e que és a melhor amiga algarvia que tenho. Isso é tudo verdade mas este ano não me dá pra isso ...  até porque ando com saudades tuas, de andar e falar, fazer compras só de "olho", como tu dizes, gozar com as tuas tricotagens que depois imito, comer dos teus bolos cheios de canela e amêndoas, enfim ... coisas de comadre com quem se partilha a vida há mais de 30 anos e ... não, não falo das partilhas do facebook que lá é só pra cascar uma da outra.

Desta vez é só Parabéns migamana e vai preparando a festa que fazendo anos à 6ª feira é outro asseio pra fazer os bolinhos com calma e com alma (e açúcar também). Já me disseste que não é esta sexta, a festa, mas a gente espera pela outra, se calhar até é melhor ao sábado que sempre tens mais tempo pra levedar os folares. Olha que não havendo festinha não há prendinha: guardo para dar à minha tia no natal, a jarra de loiça que já comprei. Não te queixes depois ... ah! e tenho umas cenas para te contar sobre os outros compadres que se passar muito tempo depois esquece-me, que isto deve ser das porcarias que agora põe na comida, mas ando muito esquecida.

Um beijo, vá ... dois, já que é dia de aniversário
desta tua sempre ou sempre tua ou assim ...

Maria Ana Paula

PS: olha, esqueceu-me (vês?) de dizer qualquer coisa com "e tudo e tudo e tudo" que tu dizes que já é minha imagem de marca ou lá o que é ... mas fica pró ano, quando eu disser umas palavrinhas sobre o teu aniversário está bem?

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

encanto

Tenho tanto e no entanto
tomara que o meu verde tocasse o azul do mar
aquele mesmo que vou buscar
quando desmaia o colorido de estar
sonhando só no meu canto

Sonho tanto e no entanto
quisera que meus pés fossem da relva à areia
numa inebriante dança brasileira
quando esmorece a música que trauteia
as memórias  de um  encanto

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

pássaros feridos

Desgasta-se em cinzentos pardos
das paredes bafientas, baças
em se deixa ensombrar

Já não os estreia, os dias novos
veste-os sem brio, sem o preceito
que vindo da alma se põe ao peito

Aprisionados, são os pássaros
que em si habitam e cujo canto
no meu canto, desisto de escutar

domingo, 27 de setembro de 2015

momento - estação

Levantou-se a meio da conversa, caminhou.
Deixada ali, ela entendeu, finalmente, que há coisas que só se perdem uma vez.
Porque só as temos uma vez.
Agarrou na bagagem que conseguia carregar e seguiu; desta feita foi ela quem comprou os bilhetes.

sábado, 26 de setembro de 2015

Ternura madura

Chamada ternura dos quarenta, é afinal nos cinquentas que ela me nasce mais doce e me chega em arrufadas.

Temos mais ternura, mas mais madura também. Ao entusiasmo adolescente dos cinquentas mais "juvenis", tempera-o a confiança e a segurança de quem já passou pela vida, atendendo a prioridades menos sentimentais e que agora as sabe valorizar.  Elogiamos, perdemos o medo de dizer que gostamos dos amigos, que amamos nas múltiplas facetas de que se reveste o amor, que temos paixões! E paixões diversas, não só de caracter romântico (essas também)  mas de outras formas que descobrimos e pelas quais nos agarramos à vida. Arriscamos! Mostramos quando corre bem sem o pudor da imodéstia, mostramos quando corre mal sem o receio da crítica e até fazemos humor com as partidas que o corpo, um pouco desgastado, nos vai pregando. Rodamos óculos em grupo com a mesma facilidade com que partilhávamos cigarros (sim, nós já fumamos e perdíamos a conta aos cafés) e rimos, hilariantes,  com as memórias baralhadas de quem já tem a cabeça atafulhada de recordações.

Facilmente soltamos as lágrimas e misturámo-las com sorrisos: chamamos-lhe vida ...

Claro que, qual ying yang, a emoção à flor da pele torna-nos mais acutilantes na crítica e, se mais compreensivos com os erros humanos, somos muito menos tolerantes com birras, trapaças e maus feitios gratuitos. Não gostamos que queiram deitar mão aos nosso feitos e que tomem conta das nossas decisões. Talvez por isso vamos ganhando fama de rezingões ...

assina uma rezingona, com uma mão cheia de ternura madura

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

tempos

deixei de te procurar as horas
temos tempos ...
os meus minutos perdem-se
por entre as tuas demoras
os teus amanhãs atrasam-se
a atender os meus agoras
há tempos ...

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

às vezes ligo-te para casa

Às vezes ligo-te para casa, sei que não estás mas deixo tocar, tocar ... como se estivesses a estender uma roupa e não pudesses vir logo ... ou então estarias a ver o programa da Fátima Lopes e não se ouviria o telefone na sala ao pé da cozinha.

Às vezes ligo-te, sei que não estás mas ... é só para fazer de conta de que não fiquei órfã antes do tempo. E deixo tocar, tocar, tocar: qualquer dia atendes. Não serás, nunca,  a mesma a falar, mas eu espero saber encontrar, no profundo da tua voz, uma nesga do nosso amar.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

agosto posto

agosto, gosto e desgosto
como qualquer malmequer
desfolhado, flor e página
retira-se quase sem querer

é pois agosto posto
a banda segue viagem

sábado, 22 de agosto de 2015

pequenos nadas

de nada em nada cresce a ternura
de beijo a beijo entardecemos
recomeçamos no ponto onde paramos
quantos passos andamos, não sei
mas é nosso aquele azul do mar
é tua a canção na minha voz
lugar no coração, já o guardei

domingo, 16 de agosto de 2015

águas de luz

mergulhei num azul de todas as águas
passadas, paradas, renovadas, desejadas,
no mar das nossas lágrimas, também
emergi para a luz do teu último sorriso
amado, guardado, lembrado, abraçado
sigo caminho, agora de bem comigo

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

férias

Balanceio para o sol
quente, irreverente
desnorteio
amareio

Das mãos soltam-se palavras em azul e verde: férias!



quarta-feira, 22 de julho de 2015

ser da noite

ser da noite
adio o adormecer
até me embriagar de estrelas

correm velozes,  pensamentos 
que de manhã se atropelam
aquecem sentimentos 
que na tarde amedrontados
aconcheguei no regaço

Repouso, então, nos sons do azul
que antecede os sonhos acordados
aqueles, que no espreguiçar abraço 



terça-feira, 21 de julho de 2015

Gosto que gostes de mim

Gosto
que me irrompas do nada para o dia
que me interrompas por uma alegria
ou apenas porque o coração te batia

Gosto
que me toques com a palavra saudade
como se não tivesse havido madrugada
nem anoitecer, estrelas, nem mais nada

Gosto
que me olhes sem motivo, quieto, calado
tentando adivinhar o que tenho guardado
no pensamento ou num verso rabiscado

Enfim,
Gosto que gostes de mim.

domingo, 12 de julho de 2015

sonhos a quatro corações

São assim, os sonhos...

Em ondas vão e vem...
E se renovam a cada avanço ou recuo
Transparentes, límpidas, oscilando entre o azul e o verde
Às vezes cor de fogo, se chegam em turbilhão

Maravilhoso, escutar assim, 
as mil e uma cores dos sonhos de verão


quinta-feira, 25 de junho de 2015

é desta que me vou

É desta que me vou, D. Isaura!

Privaste-me da infância descontraída a que por nascença tinha direito, tornando-me tua confidente antes ainda de me caírem os dentes de leite. De início eu não entendia nada das aflições que me contavas mas ficava de coração amassadinho por te ver desgostosa, desfeita em lágrimas e gritos. Mais tarde, sinceramente, mais tarde eu teria preferido não saber das alegadas traições do papá e das tuas vinganças e muito menos queria ouvir o barulho de cama quando ele voltava. De manhã segredavas-me: - "fizemos as pazes!", como se eu não tivesse ouvido a chinfrineira e ele não percebesse o cochicho. Nessas alturas o papá nem olhava para mim, envergonhado por todos os bateres de porta e regressos quase pornográficos.

Foi nessa altura que decidi que nunca me casaria e tenho mantido firme a decisão. Mas nunca é uma dimensão volátil para uma criança ... 

Acho que perdi o papá quando ele começou a ver em mim não tanto a filha, mas a confidente da mulher, aquela que não se consegue enfrentar nos olhos, aquela que sabe demais. Entretanto tu puxavas-me cada vez mais para ti. Exigias todas as minhas confidências, não porque me quisesses ver feliz, mas por um vício mórbido de controlar. Tinhas uma habilidade especial para me extorquir coisas das quais me arrependia logo em seguida de ter contado. Depois davas a indesejada opinião sobre tudo e todos, concluindo sempre com um aviso para não me meter com rapazes: -"não viste o que eu tenho passado com o teu pai, Guida?" Agora falas em homens, que ao fim ao cabo eu já passei dos 40 e acrescentas que Deus tenha, quando aludes ao falecido.

Quase não sais de casa para não teres de enfrentar o mundo com medos, rugas e maldades estampadas no rosto, e é em casa que me esperas exatamente 45 minutos depois de eu sair do trabalho. Se me atraso sem aviso e justificação tens um dos teus achaques (ou ataques?) e eu juro que é desta que me vou. Mas nunca fui, acabo sempre a acalmar-te a a tratar-te como uma raínha. Até hoje.

Reencontrei o César e contra vinte anos das memórias dele eu nada tinha para contar, para além dos fios de cabelo branco. O César, lembras-te? Aquele que deixei escapar por não te poder deixar só e doente ... Depois de nos despedirmos com o clássico havemos de nos encontrar de novo, eu jurei, e desta vez é a sério, que haja ou não próxima vez, eu terei algo para contar. 

Já não vou a casa, telefono depois, quando o meu coração já estiver longe de mais para ceder às maleitas do teu.  Vou começar a minha vida: é mesmo desta que me vou!

segunda-feira, 22 de junho de 2015

malditas

Tanto que eu gosto do verão
e no entanto eis as datas da minha perdição
feitos que arrastaram minha alma pelo chão
atos sem contrição que mataram a confiança
a alegria de acreditar sem questionar a razão

Pudesse eu passar por elas sem esta dor, este rancor
pudesse eu ser superior às mágoas de traição
que tantos me infligiram em tão pouco tempo!
Mas não, não sou, nem disso tenho esperança
pelo menos nesta estação

Pudesse eu, um dia,  para todos ter perdão
e então sim, seria o verão de que tanto gosto

quarta-feira, 17 de junho de 2015

despedida

Eram as últimas flores
que recebi da tua mão
soube-o então ...

Agradeci com os olhos
pois a garganta dorida
fazia em nó uma oração
uma doce despedida

sempre nunca mais

ainda dói tanto, este faltar de colo e de um sorriso
de olhos nos olhos, verde em azul
da doçura da voz
de ti

a cada ano que marco
o sempre vai caindo em nunca mais


sexta-feira, 12 de junho de 2015

reencontro

Li a desilusão no olhar. Ainda tentaste disfarçar mas percebi que preferias teres-te enganado a encontrar-me assim, neste estado. Exatamente como tu predisseste trinta e cinco anos atrás. Abateu-me, então, o peso dos pedregulhos em que enterrei os sonhos que um dia te confessei.

Os teus, aqueles que me segredaste, estão na luz do teu sorrir. Cada ruga (e tens muitas) é a linha de uma qualquer rota que tomaste quando te fizeste à vida. Acusaste-me, então, de não amar o suficiente para partir e sei, hoje,  que tens razão: eu saltava janelas para ir ter contigo mas tu pulaste meio continente por um sonho e depois outro e logo outro a seguir.

Prometeste que nos veríamos de novo. Isso não sei mas dou graças ao destino teres vindo hoje até mim;  fui procurar uma pá para começar a desenterrar uma vida.



domingo, 7 de junho de 2015

ilusão

Estendeu a mão
encontrou ternura
onde procurava paixão

Não disse que não
sorriu, assim iludiu
a adocicada desilusão

quinta-feira, 21 de maio de 2015

imensidão pequena

A  janela abre-se para o imenso num rio que me leva em memórias e desejos. São incontáveis os apontamentos de verde que dançam no vento que hoje se faz muito, à minha roda. 

E, no entanto, este tanto é tão pouco quando imensa é também a espera de um pequeno momento


terça-feira, 19 de maio de 2015

instante

das mãos saem-me flores e riscos
coloridos, todos, de luz e de azuis
voam beijos, risos, trauteios felizes
só porque estou aqui e tu existes


colo macio

calo no colo macio
as desfeitas do dia
faço-me pequenina
para nele caber
sem magoar

durmo no colo macio
sonhos enovelados
fragmentos desejados
sem deles saber
se vou acordar

nasço no colo macio
em cada madrugada
faço-me pequenina
para nele crescer
sem ancorar

segunda-feira, 18 de maio de 2015

marés vazas

Procuras-me no meu vazio
quando anseio a maré cheia
arrastas-me na corrente, forte
desenterras-me da solidão
fria, dura, amarga, feia
e que  já não escondo
Voo para essa imensidão
de marés que desconheço
e que  já não repudio



domingo, 10 de maio de 2015

dias perfeitos

Em demandas tenho partido em busca de relações perfeitas, ou quase. Não as há, sei-o agora e sei-o desde sempre. E no entanto tenho continuado a exigir a mim própria e a todos os que em mim habitam, que saia tudo perfeito, pelo menos nos dias de festa. E no fim do dia ha sempre um gosto na boca a qualquer coisa que faltou.

E há sempre qualquer coisa que falta, qualquer coisa que falha, pois de todos espero demais, de mim também.

Amanhã quero fazer um dia perfeito mas desta vez cheio de imperfeições patetas e receber o que o vento vier semear.

tanto

tanto que ficou por se dar, hoje: beijos, abraços, sorrisos, palavras doces
afastam-nos os segredos, o receio do que fica por dizer
o medo de te perder antes de ter de te perder

tanto que temos dissipado, mãe
tu cada vez mais só, eu cada vez mais longe

quarta-feira, 29 de abril de 2015

momento

Era a relva molhada debaixo da dança
era o sol de verão a esconder-se da praça
era teu o olhar quente que trouxe pra valsa
era eu que vestia o verde da esperança


por onde andas tu?

dançam palavras nas mãos
falam músicas ao coração
estrondam gargalhadas
fazem-se conversas fiadas
ainda há sonhos prometidos
vidas confessadas ...
beijos abraçados

mas os assentos estão sujos
e os vidros embaciados
não me vês, não te encontro
por onde andas tu?


terça-feira, 28 de abril de 2015

Rosarinha desenganada

Dias atrás, como tantas vezes me acontece, lembrei-me da Rosarinha.

Era a mulher mais moça que por lá aparecia, apesar de ter mais anos do que a maioria. Vestia um sorriso delicioso e calçava sapatos de salto alto. Era uma mulher apaixonada, lia-se nos olhos quentes e na alegria com que começava o dia.

Certa vez chegou tarde, sem brilho. Estaria doente? abeiravam-se as amigas. Ela sorria, esforçava-se por parecer a nossa Rosarinha mas não conseguia. Contou-me depois: enganada! ou melhor desenganada, que o marido tinha-lhe dito o que por ela não sentia.

Dois anos se passaram e Rosarinha alternava épocas de grande euforia com períodos de dorida resignação.

Abeirou-se de uma outra vez da minha companhia. Estava com medo, lia-lhe no torcer das mãos enquanto me dizia que nada seria, ia ao médico apenas porque a irmã lhe pedia. Voltou ainda pior que da vez anterior. Desenganada, desta vez pelos médicos: tinha cancro, urgia a quimioterapia. Mas não, não achou que valia a pena, contou-me, e nunca consegui demovê-la da sua decisão.

"Viver sem paixão, sem me dar apaixonadamente e saber que o que dou é recebido por alguém que assim não me quer... não quero eu mais. Nem vou mais enganar-me com paixonetas  que me afagariam o ego,  caso me curasse, mas que não levaria por diante, como anos atrás, porque paixão não seriam. Nem amor, sequer, que amor só tenho um. Prefiro morrer e é o que deixarei esta doença maldita, agora bendita, fazer por mim. Não quero médicos, quero paz. Apenas algo para as dores, quando chegar a altura, para que se lembrem de mim com serenidade"

Escreveu aos filhos, já adultos, dizendo que só por eles, "miúdos", tinha pena de não resistir mas acreditava que seria melhor assim. Tal como para o pai, liberto das grilhetas de uma mulher doente. O que lhe disse a ele, ao marido, não sei.

Veio trabalhar quase até morrer e, embora não fosse rapariga de dar conselhos, dizia-nos inúmeras vezes para procurarmos a nossa felicidade: "vão atrás dela que ela não vem ter convosco! Eu já não tenho forças para ir mas vou fazendo por andar bem enquanto puder."


segunda-feira, 27 de abril de 2015

beijos soltos

beijos soltos
Soltam-se beijos desejados
suspensos numa vontade
para os lábios idealizados
que os acolhem parados
No ar paira a intenção
cai por terra a desilusão
e eles, em vôos beijados
tal com chegam, se vão
Voltam sozinhos, ou não



quinta-feira, 9 de abril de 2015

ternura imensa

Amparo
a ternura imensa
não me cabe já no regaço
Ofereço a quem precisar
dela tanto,  quanto
eu preciso de a dar


terça-feira, 7 de abril de 2015

sussurro de alerta

Um grito preso
para que não se solte a enxurrada
das lágrimas que teimo em conter
Do grito encarcerado
solta-se um sussurro
um quase dizer de um quase nada
um canto em que me tento esconder

segunda-feira, 6 de abril de 2015

conversas com idos

Às vezes converso com os meus idos. É diferente de falar sozinha pois os pensamentos incorporam as questões que imagino que iriam por e as palavras que sei que me diriam. Sinto qualquer franzir de sobrolho, um olhar azul por cima dos óculos, um sorriso, e ali estamos num conversar silencioso.

Talvez porque todos se amaram, há uma cumplicidade entre eles que me favorece e saio destas conversas mais sábia e mais tranquila. No ar sobra um aroma a colónia de alfazema, aftershave Agua Brava ou perfume 4711. Por vezes uma mistura dos três.

Isto nada tem de esotérico; apenas o quanto preciso deles. 



domingo, 5 de abril de 2015

azul de sal

Leva-me o marulho das ondas
traz-me de volta o sal na boca
da maresia que me incendeia
me faz gaivota ...
No meio
todo este azul que me norteia


quinta-feira, 2 de abril de 2015

Ficaram os livros

Ficaram os livros, pedaços de vida sonhada. Todos têm aquele cheiro a livro velho de que sempre ambos gostámos, aquele que nos faz comichão no nariz e um olhar de vôo. Por fora têm pó, por dentro nunca se sabe quando aconchegam um envelope rabiscado em poema. Escrevias naquele azul permanente, como se quisesses que os encontrasse, um dia ...


quinta-feira, 19 de março de 2015

Ergui-me para o dia mas faltou-me chão.  Seria agora o momento de te ligar e dizer que gosto de ti, gosto muito de ti. Mas a hora fica vazia de palavras e os pensamentos escorrem-me pela cara, salgados, até ao peito onde te guardo.


sábado, 14 de março de 2015

primeiro plano

a minha saudade é maior
maior que a questão
que a raiva
que tudo

sobrepõe-se, esta saudade
ao silêncio, à desilusão
toma primeiro plano
sem pedir licença
 
eu deixo-a tomar vontade
conduzir a minha mão
procurar quem amo
levar a melhor


sexta-feira, 13 de março de 2015

marés

Estreaste-me momentos
desencantaste sentidos idos
renovaste palavras
ternura, carinho, cuidados

Aproximaste-te boa onda
como as vagas te desfazes
em espuma fina
desapareces em tons calados

Que te aportem boas maresias
a encantar novas manhãs


quarta-feira, 11 de março de 2015

viragem


Um momento
estremecimento
breve hesitação

eis que respondo que sim
ao que antes disse que não



terça-feira, 10 de março de 2015

uma palavra

Há palavras que gostava de ouvir uma vez na vida.
Uma que seja: uma palavra; uma vez.


segunda-feira, 9 de março de 2015

momentos

o manto negro sobre as almas a inquietar
o silêncio de quem não tem paz
o diálogo com os pecados
à noite é pior

dessas noites
em que dormitamos acordados
levantam manhãs do limbo onde jaz
a difícil luta entre o viver e o infernizar

de manhã é pior

domingo, 8 de março de 2015

deserto

Os pés na relva estranham
a falta de vontade de dançar
a alma endurecida, amarga
que os olhos tentam disfarçar
e nem o sol da tarde morna
acalma o deserto incerto
em que se transforma

sexta-feira, 6 de março de 2015

portas abertas

Visitei ruas antigas, ou antes
ruas que percorri antigamente
olhando em frente, sem parar
nas portas onde entrando
me demorava dantes

Sempre estiveram abertas
algumas, outras a abrir
porque me ouviam passar
voltasse, pareciam dizer
seria doce o permanecer
mas não, segui chorando
para não ter de fugir
outra vez


quarta-feira, 4 de março de 2015

março

Ontem, o aroma das mimosas
hoje, a cor do sol no pensamento
logo, um mar de folhas soltas
e no abrir de março, o recomeço

domingo, 22 de fevereiro de 2015

fingimentos

Tantas vezes finjo que não sei ler
o que não querem que entenda
disfarço assim a mágoa
calo a desilusão
choro depois
o sonho


sexta-feira, 30 de janeiro de 2015


Embrulhei a lua em papel pardo e no desencantamento ajaneirado,
do pior de mim, me resguardo.


quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

faz de conta


Vai janeiro a meio, o mês em que no desencanto me demoro
Agarro-me a momentos mas os sorrisos esmorecem em desilusões de olhares
Calo pressentimentos, fecho os olhos, faço de conta que aqui não moro


domingo, 4 de janeiro de 2015

nostalgia de ano novo

Votos, desejos, autopromessas ... entusiasmos de ano novo a que agora sou alheia.

Janeiro é um mês duro. Sempre foi, desde que me conheço, e cada vez mais lhe sinto o pendor triste, maior do que o sentimento de renascer.