quarta-feira, 29 de abril de 2015

momento

Era a relva molhada debaixo da dança
era o sol de verão a esconder-se da praça
era teu o olhar quente que trouxe pra valsa
era eu que vestia o verde da esperança


por onde andas tu?

dançam palavras nas mãos
falam músicas ao coração
estrondam gargalhadas
fazem-se conversas fiadas
ainda há sonhos prometidos
vidas confessadas ...
beijos abraçados

mas os assentos estão sujos
e os vidros embaciados
não me vês, não te encontro
por onde andas tu?


terça-feira, 28 de abril de 2015

Rosarinha desenganada

Dias atrás, como tantas vezes me acontece, lembrei-me da Rosarinha.

Era a mulher mais moça que por lá aparecia, apesar de ter mais anos do que a maioria. Vestia um sorriso delicioso e calçava sapatos de salto alto. Era uma mulher apaixonada, lia-se nos olhos quentes e na alegria com que começava o dia.

Certa vez chegou tarde, sem brilho. Estaria doente? abeiravam-se as amigas. Ela sorria, esforçava-se por parecer a nossa Rosarinha mas não conseguia. Contou-me depois: enganada! ou melhor desenganada, que o marido tinha-lhe dito o que por ela não sentia.

Dois anos se passaram e Rosarinha alternava épocas de grande euforia com períodos de dorida resignação.

Abeirou-se de uma outra vez da minha companhia. Estava com medo, lia-lhe no torcer das mãos enquanto me dizia que nada seria, ia ao médico apenas porque a irmã lhe pedia. Voltou ainda pior que da vez anterior. Desenganada, desta vez pelos médicos: tinha cancro, urgia a quimioterapia. Mas não, não achou que valia a pena, contou-me, e nunca consegui demovê-la da sua decisão.

"Viver sem paixão, sem me dar apaixonadamente e saber que o que dou é recebido por alguém que assim não me quer... não quero eu mais. Nem vou mais enganar-me com paixonetas  que me afagariam o ego,  caso me curasse, mas que não levaria por diante, como anos atrás, porque paixão não seriam. Nem amor, sequer, que amor só tenho um. Prefiro morrer e é o que deixarei esta doença maldita, agora bendita, fazer por mim. Não quero médicos, quero paz. Apenas algo para as dores, quando chegar a altura, para que se lembrem de mim com serenidade"

Escreveu aos filhos, já adultos, dizendo que só por eles, "miúdos", tinha pena de não resistir mas acreditava que seria melhor assim. Tal como para o pai, liberto das grilhetas de uma mulher doente. O que lhe disse a ele, ao marido, não sei.

Veio trabalhar quase até morrer e, embora não fosse rapariga de dar conselhos, dizia-nos inúmeras vezes para procurarmos a nossa felicidade: "vão atrás dela que ela não vem ter convosco! Eu já não tenho forças para ir mas vou fazendo por andar bem enquanto puder."


segunda-feira, 27 de abril de 2015

beijos soltos

beijos soltos
Soltam-se beijos desejados
suspensos numa vontade
para os lábios idealizados
que os acolhem parados
No ar paira a intenção
cai por terra a desilusão
e eles, em vôos beijados
tal com chegam, se vão
Voltam sozinhos, ou não



quinta-feira, 9 de abril de 2015

ternura imensa

Amparo
a ternura imensa
não me cabe já no regaço
Ofereço a quem precisar
dela tanto,  quanto
eu preciso de a dar


terça-feira, 7 de abril de 2015

sussurro de alerta

Um grito preso
para que não se solte a enxurrada
das lágrimas que teimo em conter
Do grito encarcerado
solta-se um sussurro
um quase dizer de um quase nada
um canto em que me tento esconder

segunda-feira, 6 de abril de 2015

conversas com idos

Às vezes converso com os meus idos. É diferente de falar sozinha pois os pensamentos incorporam as questões que imagino que iriam por e as palavras que sei que me diriam. Sinto qualquer franzir de sobrolho, um olhar azul por cima dos óculos, um sorriso, e ali estamos num conversar silencioso.

Talvez porque todos se amaram, há uma cumplicidade entre eles que me favorece e saio destas conversas mais sábia e mais tranquila. No ar sobra um aroma a colónia de alfazema, aftershave Agua Brava ou perfume 4711. Por vezes uma mistura dos três.

Isto nada tem de esotérico; apenas o quanto preciso deles. 



domingo, 5 de abril de 2015

azul de sal

Leva-me o marulho das ondas
traz-me de volta o sal na boca
da maresia que me incendeia
me faz gaivota ...
No meio
todo este azul que me norteia


quinta-feira, 2 de abril de 2015

Ficaram os livros

Ficaram os livros, pedaços de vida sonhada. Todos têm aquele cheiro a livro velho de que sempre ambos gostámos, aquele que nos faz comichão no nariz e um olhar de vôo. Por fora têm pó, por dentro nunca se sabe quando aconchegam um envelope rabiscado em poema. Escrevias naquele azul permanente, como se quisesses que os encontrasse, um dia ...