quinta-feira, 25 de junho de 2015

é desta que me vou

É desta que me vou, D. Isaura!

Privaste-me da infância descontraída a que por nascença tinha direito, tornando-me tua confidente antes ainda de me caírem os dentes de leite. De início eu não entendia nada das aflições que me contavas mas ficava de coração amassadinho por te ver desgostosa, desfeita em lágrimas e gritos. Mais tarde, sinceramente, mais tarde eu teria preferido não saber das alegadas traições do papá e das tuas vinganças e muito menos queria ouvir o barulho de cama quando ele voltava. De manhã segredavas-me: - "fizemos as pazes!", como se eu não tivesse ouvido a chinfrineira e ele não percebesse o cochicho. Nessas alturas o papá nem olhava para mim, envergonhado por todos os bateres de porta e regressos quase pornográficos.

Foi nessa altura que decidi que nunca me casaria e tenho mantido firme a decisão. Mas nunca é uma dimensão volátil para uma criança ... 

Acho que perdi o papá quando ele começou a ver em mim não tanto a filha, mas a confidente da mulher, aquela que não se consegue enfrentar nos olhos, aquela que sabe demais. Entretanto tu puxavas-me cada vez mais para ti. Exigias todas as minhas confidências, não porque me quisesses ver feliz, mas por um vício mórbido de controlar. Tinhas uma habilidade especial para me extorquir coisas das quais me arrependia logo em seguida de ter contado. Depois davas a indesejada opinião sobre tudo e todos, concluindo sempre com um aviso para não me meter com rapazes: -"não viste o que eu tenho passado com o teu pai, Guida?" Agora falas em homens, que ao fim ao cabo eu já passei dos 40 e acrescentas que Deus tenha, quando aludes ao falecido.

Quase não sais de casa para não teres de enfrentar o mundo com medos, rugas e maldades estampadas no rosto, e é em casa que me esperas exatamente 45 minutos depois de eu sair do trabalho. Se me atraso sem aviso e justificação tens um dos teus achaques (ou ataques?) e eu juro que é desta que me vou. Mas nunca fui, acabo sempre a acalmar-te a a tratar-te como uma raínha. Até hoje.

Reencontrei o César e contra vinte anos das memórias dele eu nada tinha para contar, para além dos fios de cabelo branco. O César, lembras-te? Aquele que deixei escapar por não te poder deixar só e doente ... Depois de nos despedirmos com o clássico havemos de nos encontrar de novo, eu jurei, e desta vez é a sério, que haja ou não próxima vez, eu terei algo para contar. 

Já não vou a casa, telefono depois, quando o meu coração já estiver longe de mais para ceder às maleitas do teu.  Vou começar a minha vida: é mesmo desta que me vou!

segunda-feira, 22 de junho de 2015

malditas

Tanto que eu gosto do verão
e no entanto eis as datas da minha perdição
feitos que arrastaram minha alma pelo chão
atos sem contrição que mataram a confiança
a alegria de acreditar sem questionar a razão

Pudesse eu passar por elas sem esta dor, este rancor
pudesse eu ser superior às mágoas de traição
que tantos me infligiram em tão pouco tempo!
Mas não, não sou, nem disso tenho esperança
pelo menos nesta estação

Pudesse eu, um dia,  para todos ter perdão
e então sim, seria o verão de que tanto gosto

quarta-feira, 17 de junho de 2015

despedida

Eram as últimas flores
que recebi da tua mão
soube-o então ...

Agradeci com os olhos
pois a garganta dorida
fazia em nó uma oração
uma doce despedida

sempre nunca mais

ainda dói tanto, este faltar de colo e de um sorriso
de olhos nos olhos, verde em azul
da doçura da voz
de ti

a cada ano que marco
o sempre vai caindo em nunca mais


sexta-feira, 12 de junho de 2015

reencontro

Li a desilusão no olhar. Ainda tentaste disfarçar mas percebi que preferias teres-te enganado a encontrar-me assim, neste estado. Exatamente como tu predisseste trinta e cinco anos atrás. Abateu-me, então, o peso dos pedregulhos em que enterrei os sonhos que um dia te confessei.

Os teus, aqueles que me segredaste, estão na luz do teu sorrir. Cada ruga (e tens muitas) é a linha de uma qualquer rota que tomaste quando te fizeste à vida. Acusaste-me, então, de não amar o suficiente para partir e sei, hoje,  que tens razão: eu saltava janelas para ir ter contigo mas tu pulaste meio continente por um sonho e depois outro e logo outro a seguir.

Prometeste que nos veríamos de novo. Isso não sei mas dou graças ao destino teres vindo hoje até mim;  fui procurar uma pá para começar a desenterrar uma vida.



domingo, 7 de junho de 2015

ilusão

Estendeu a mão
encontrou ternura
onde procurava paixão

Não disse que não
sorriu, assim iludiu
a adocicada desilusão