domingo, 27 de setembro de 2015

momento - estação

Levantou-se a meio da conversa, caminhou.
Deixada ali, ela entendeu, finalmente, que há coisas que só se perdem uma vez.
Porque só as temos uma vez.
Agarrou na bagagem que conseguia carregar e seguiu; desta feita foi ela quem comprou os bilhetes.

sábado, 26 de setembro de 2015

Ternura madura

Chamada ternura dos quarenta, é afinal nos cinquentas que ela me nasce mais doce e me chega em arrufadas.

Temos mais ternura, mas mais madura também. Ao entusiasmo adolescente dos cinquentas mais "juvenis", tempera-o a confiança e a segurança de quem já passou pela vida, atendendo a prioridades menos sentimentais e que agora as sabe valorizar.  Elogiamos, perdemos o medo de dizer que gostamos dos amigos, que amamos nas múltiplas facetas de que se reveste o amor, que temos paixões! E paixões diversas, não só de caracter romântico (essas também)  mas de outras formas que descobrimos e pelas quais nos agarramos à vida. Arriscamos! Mostramos quando corre bem sem o pudor da imodéstia, mostramos quando corre mal sem o receio da crítica e até fazemos humor com as partidas que o corpo, um pouco desgastado, nos vai pregando. Rodamos óculos em grupo com a mesma facilidade com que partilhávamos cigarros (sim, nós já fumamos e perdíamos a conta aos cafés) e rimos, hilariantes,  com as memórias baralhadas de quem já tem a cabeça atafulhada de recordações.

Facilmente soltamos as lágrimas e misturámo-las com sorrisos: chamamos-lhe vida ...

Claro que, qual ying yang, a emoção à flor da pele torna-nos mais acutilantes na crítica e, se mais compreensivos com os erros humanos, somos muito menos tolerantes com birras, trapaças e maus feitios gratuitos. Não gostamos que queiram deitar mão aos nosso feitos e que tomem conta das nossas decisões. Talvez por isso vamos ganhando fama de rezingões ...

assina uma rezingona, com uma mão cheia de ternura madura

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

tempos

deixei de te procurar as horas
temos tempos ...
os meus minutos perdem-se
por entre as tuas demoras
os teus amanhãs atrasam-se
a atender os meus agoras
há tempos ...

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

às vezes ligo-te para casa

Às vezes ligo-te para casa, sei que não estás mas deixo tocar, tocar ... como se estivesses a estender uma roupa e não pudesses vir logo ... ou então estarias a ver o programa da Fátima Lopes e não se ouviria o telefone na sala ao pé da cozinha.

Às vezes ligo-te, sei que não estás mas ... é só para fazer de conta de que não fiquei órfã antes do tempo. E deixo tocar, tocar, tocar: qualquer dia atendes. Não serás, nunca,  a mesma a falar, mas eu espero saber encontrar, no profundo da tua voz, uma nesga do nosso amar.