segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

ausência

Ausência
é a palavra do momento.

Há vazios onde outrora algo sorriu
ausência do carinho de quem se foi
ausência da ternura de quem partiu
a ausência do amor de quem faltou

Ausência ...
E a vida vai-se fazendo.

domingo, 16 de outubro de 2016

São, de todas as cores

São:
como as nossas histórias, tretas e outras conversas
como novelos de lã, trapos e livros que escolhemos
os olhares, os sorrires, os gostares que nos damos
como os sonhos lindos e o mundo todo às avessas
são de todas as cores, são as folhas e flores
que na tua rua escolhi para ti


sábado, 15 de outubro de 2016

de novo

cai.
o verbo é cair

a primavera floresce, o verão chega
.... o outono cai

caem as folhas, as flores, os tons das cores
cai o cabelo, o brilho do olhar, cai a figura
caem ilusões, sonhos de estio, caem amores
cai a noite cedo, cai a chuva e a temperatura

caem deveres, segundas-feiras, caem as horas
cai o pano, o nevoeiro, a escuridão, o coração
caio em mim, caem-me também as palavras
dos pensares à mão caem linhas de emoção

a castanha amadurece, o frio chega
... o outono cai

que o verbo seja agora
colorir.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

saudade simples

hoje a saudade gritou o teu nome
pelas mãos me escorre o lamento
do vazio que agora mora em mim

hoje a minha saudade lembrou-te
no vago frio caído no  teu assento
à mesa, na casa, nesta vida assim

hoje a saudade de ti magoou-me
saber que o sentir desse momento
é deste não estar que não tem fim

quarta-feira, 20 de julho de 2016

neurose


para ninguém estranhar
para que não se diga que me perco nas teclas
que se mantenha a imagem de que escrevo histórias
a história de que um dia serei escritora
escrevo, escrevo sem parar

escrevo, escrevo e não digo nada
porque o que tenho para dizer aqui não cabe
é grande, é imenso, mal me cabe no pensamento
assim, debito frases contra o tempo
Escapam-se-me das mãos, as palavras

escrevo, digo, conto sem falar
como não entendem abro mão do sentimento
sei que nada mais será como antes
mas tudo pode ser alguma coisa
depois de lido o que deixo por contar



sábado, 9 de julho de 2016

uma vida

uma vida
vida esperançada
em abraço oferecida
em repúdio renegada

ontem pétala querida
amanhã flor enjeitada
é a vida ...
a vida não cuidada

terça-feira, 21 de junho de 2016

aniversários

há datas que me fazem parar
vezes sem conta no dia

há dias que me fazem pairar
vezes sem conta na vida

há vezes que são de alegria
outras só vida acontecida


noites caladas

Feita de rostos queridos
enche-me de um vazio
que me sufoca o respirar
Tem muitos nomes
a minha saudade ...
uns idos, outros partidos
os que têm fome de chegar

Surgem de pequenos nadas
um a um, fazem-se lembrar
nas noites mais caladas
E com todos os sentidos
os abraço sem idade
faço momentos desaguar
em lembranças salgadas

Tomara que ao menos
fossem de mar!

terça-feira, 7 de junho de 2016

as meninas

Pequenina, a boneca
apresentaram-te franzina
mas o olhar desmentiu
o que te davam por sina
A voz confirmou:
determinada, a menina!

E foram cores-de rosa
imensos, por tua demanda
sapatos, cetins, tules, rendas
prendas para teu contento
E em gargalhadas francas
te davas tu, princesa!

Eis que te fizeste mulher
e pequenina, boneca
apresentas a tua menina
Pressentimos-lhe o ser:
parecida com a mãe
será de todos rainha!

quinta-feira, 19 de maio de 2016

o colo

Aquele colo
apenas sustentado com o olhar
já não mo podes dar

Aprendi a abraçar-me sem mais
para embalar a tristeza
afago a saudade mais urgente
num etéreo enlace
a lágrima que se solta, quente
rende-se face à firmeza
de cumprir a promessa que te fiz
recordar-te e escolher ser feliz

Aquele colo
apenas sustentado com o olhar
cabe-me, agora,  a vez de o dar

quinta-feira, 12 de maio de 2016

palavras de coração

escrevo e descrevo
teço palavras no coração
conto? não conto?
apago, calo ou canto?
umas vezes não me atrevo
outras, logo delas abro mão

sexta-feira, 25 de março de 2016

a magia

Ensinei-te a ver as estrelas mesmo quando não havia céu aberto
segurei a tua mão para que escolhesses a tua, ali, ao pé da lua
seria a tal da boa sorte, que te guiaria para além  do destino
apontaste-a logo, bem seguro, e mandaste-lhe beijos

Contei-te aquele meu segredo de lhe pedir três desejos
a cada ano que começa, a cada etapa que se inicia
depois, ainda pequenino, descobriste sozinho
no caminho para o futuro, a magia da vida!

terça-feira, 22 de março de 2016

Morres-Te

Morres-Te
a cada novo dia que não estreias
sabendo que nunca se repete

Morres-Te
no sonho alcançado que não premeias
porque já almejas qualquer outro

Morres-te
quando nos teus enredos te enleias
e não te endireitas no presente

Morres-te
preso entre um ontem que desfeias
e um amanhã sempre adiado

Morres-te
e sabes ... e deixas-te agastado
nesse limbo onde te morres
de onde não há ressureição

sábado, 19 de março de 2016

Faltas-me.
Vais faltar-me sempre.
Mas saí-me bem da embrulhada que é viver sem a tua presença.
Não é o mesmo que viver sem ti, eu sei,  vives comigo de incontáveis maneiras.
E terias orgulho porque não desisti, dei um passo à frente, aquele que nunca deste.

Hoje é o dia em que desde que me conheço, me abeiro de ti pela manhã e anuncio:
_ Gosto muito de ti, pai!

Ainda navego no azul quente do teu olhar.

sábado, 5 de março de 2016

tempos azuis

há tempos ...

quase esqueço de evocar
aquele azul do teu olhar
a cor de todos os mares
de todos os teus amares
calados eternamente
em azul permanente

há tempos ....

renovo-me a invocar
desejo de outro estar
cores de outros olhares
tons de novos pulsares
num sonho recorrente
escrito a azul ardente

há tempos ...

domingo, 28 de fevereiro de 2016

rés-do-sorriso

Nas casas grandes os sorrisos são menores
Falta-lhes o eco cristalino e quente, consumido pelos grandes pilares
Sorrisos grandes são coisa de gente simples
de pessoas que se sabem fazer amadas em vez de se empenharem em fachadas
Risos felizes, gargalhadas, vidas alegres, olhar pequenino de prazer
moram mesmo ali, naquele aconchegado rés-do-chão amarelinho.

oração dos infiéis

senhor
tentamos de todas as maneiras
agradar-te
por amor
ou por temer
perder o lugar neste teu reino

perdemo-nos de nós
por essas vidas
a adorar-te
senhor
e nunca nada foi suficiente
para te satisfazer

desistimos
senhor
e já não temos medo
continuamos a amar-te
está no nosso ser
mas será ao jeito dos infiéis
não acima de todas as coisas

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

vôo

meu coração pequenino abalou do ninho
cresceram-lhe as asas e voou
cresceram-lhe as pernas e pôs-se a caminho

Estou com um cheio de vazio
aqui, onde um dia poisou de mansinho

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

sentido magoado

o burro amarrado
o jugo apertado
o fogo apagado
o jogo forjado

olhar desviado
silêncio calado
afago sossegado
sentido magoado

domingo, 7 de fevereiro de 2016

liberto-te

liberto-te alma inquieta
em sofrimento
aprisionada
entre o ser e o dever

Que te mova o prazer
quase mais nada
aquele sentimento
que a felicidade acarreta

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

ido

Foi o abismo; o chão a ruir. Foi a dúvida, a incompreensão, a culpa, o luto.
Foi o mundo a convergir para diminuir o vazio. Foi a vida que continuou a fazer-se.
É a marca indelével de quem morou na vida connosco e por cá vai aparecendo em memórias amigas.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

das cinzas

Porque um dia me consumi 
imolei-me no fogo traiçoeiro
que destruía já o meu ser
fui chamas, fumo, nevoeiro
mas ali havia vida, percebi
nas cinzas daquele arder

Porque um dia me consumi
apagaram-se as memórias
da caixa de Pandora que abri
inarráveis, aquelas histórias
mas da nebulosa presença
vingou-me a esperança

Porque um dia me consumi
inventei-me de mim, renasci 
que é, afinal, continuar a viver
de alma pelas cinzas lavada
e toda uma força ancorada
apenas no meu querer

sábado, 23 de janeiro de 2016

janela do dia

abro uma janela do dia
mar de cinzento sem fim
abro outra e outra ainda
e pela manhã, a alegria
descobrir que o sol, afinal
mora cá dentro de mim

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

até

até...
um breve instante
uma hora mal contida
um amanhã ansiado
uma promessa de vida

nas reticências
o regresso prometido
o reencontro desejado
com um conhecido
um amigo, um amado

até...
a despedida leve
um volto quase logo
ou a máscara dorida
de um eterno adeus

sábado, 9 de janeiro de 2016

à luz de janeiro

Eis-me em pleno janeiro do nosso descontentamento! Aquele mês em que, após a folia das festas natalícias e saudações ao novo ano, nos confrontamos com a bancarrota de energias, fantasias, alegrias, economias e outras ias. O frio agrava este esgotamento e o isolamento afetivo a que nos remetemos e lembramos, envergonhados, as então sólidas intenções declaradas às zero horas do ano.

Raras são, de entre as pessoas que conheço, as que agarram a ideia de recomeço proporcionada por um ano que se estreia, a oportunidade de se fazer renascer das cinzas, qual fénix, ou simplesmente de continuar a vida como se fazia em dezembro e antes deste. Não!  É o cinzento para a maior parte de nós.

Costumo contar-me entre esta enregelada e desmotivada maioria triste. Tento passar por entre as pingas da nostalgia e esquivar-me às mágoas de janeiros antigos, suspirando de alívio quando fevereiro desponta sem que nada de mal me tenha caído na cabeça. Nessa altura como que alivio o luto dos cinzentos pardacentos e vou então crescendo para a primavera que se seguirá.

Dou-me conta, hoje, que conto mais janeiros dos que os que contarei. Reparo que há nuances luminosas no cinzento lá de fora e que cá por dentro sou da cor da paz. E viver em janeiro, é afinal só um pouco mais frio.