terça-feira, 26 de janeiro de 2016

ido

Foi o abismo; o chão a ruir. Foi a dúvida, a incompreensão, a culpa, o luto.
Foi o mundo a convergir para diminuir o vazio. Foi a vida que continuou a fazer-se.
É a marca indelével de quem morou na vida connosco e por cá vai aparecendo em memórias amigas.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

das cinzas

Porque um dia me consumi 
imolei-me no fogo traiçoeiro
que destruía já o meu ser
fui chamas, fumo, nevoeiro
mas ali havia vida, percebi
nas cinzas daquele arder

Porque um dia me consumi
apagaram-se as memórias
da caixa de Pandora que abri
inarráveis, aquelas histórias
mas da nebulosa presença
vingou-me a esperança

Porque um dia me consumi
inventei-me de mim, renasci 
que é, afinal, continuar a viver
de alma pelas cinzas lavada
e toda uma força ancorada
apenas no meu querer

sábado, 23 de janeiro de 2016

janela do dia

abro uma janela do dia
mar de cinzento sem fim
abro outra e outra ainda
e pela manhã, a alegria
descobrir que o sol, afinal
mora cá dentro de mim

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

até

até...
um breve instante
uma hora mal contida
um amanhã ansiado
uma promessa de vida

nas reticências
o regresso prometido
o reencontro desejado
com um conhecido
um amigo, um amado

até...
a despedida leve
um volto quase logo
ou a máscara dorida
de um eterno adeus

sábado, 9 de janeiro de 2016

à luz de janeiro

Eis-me em pleno janeiro do nosso descontentamento! Aquele mês em que, após a folia das festas natalícias e saudações ao novo ano, nos confrontamos com a bancarrota de energias, fantasias, alegrias, economias e outras ias. O frio agrava este esgotamento e o isolamento afetivo a que nos remetemos e lembramos, envergonhados, as então sólidas intenções declaradas às zero horas do ano.

Raras são, de entre as pessoas que conheço, as que agarram a ideia de recomeço proporcionada por um ano que se estreia, a oportunidade de se fazer renascer das cinzas, qual fénix, ou simplesmente de continuar a vida como se fazia em dezembro e antes deste. Não!  É o cinzento para a maior parte de nós.

Costumo contar-me entre esta enregelada e desmotivada maioria triste. Tento passar por entre as pingas da nostalgia e esquivar-me às mágoas de janeiros antigos, suspirando de alívio quando fevereiro desponta sem que nada de mal me tenha caído na cabeça. Nessa altura como que alivio o luto dos cinzentos pardacentos e vou então crescendo para a primavera que se seguirá.

Dou-me conta, hoje, que conto mais janeiros dos que os que contarei. Reparo que há nuances luminosas no cinzento lá de fora e que cá por dentro sou da cor da paz. E viver em janeiro, é afinal só um pouco mais frio.