terça-feira, 16 de maio de 2017

Gracias a la vida ... quase sempre.

Acordei, pestanejei e senti-me cansada demais para ser feliz.
Olhei-me no espelho mas sinceramente não consegui sorrir, por muito que tenha insistido sobre os efeitos benéficos de sorrir a nós mesmos. Aquela eu não inspirava sorrisos, pensamentos positivos, nada. Apenas queria descansar.

Tens muita sorte, Maria Isaura, dizem os que não precisam de pesar o quanto me chateiam tantos, colegas, funcionários das finanças, mãe, ex-marido, companheiro, filhos ... (sim, são 4 as minhas alegrias que dizem até logo mãe, como se eu fosse a vizinha do 5º andar). Tens muita sorte, dizem os que não têm de lavar e passar e domesticar uma prole enquanto vê chegar trabalho à sua mesa de tal forma desmedida que sabe que não vai conseguir fazer tudo.  Dizem os que não andaram doentes desde o S. Martinho até às vésperas de S. João, dopados de tal forma que lhes exigiu o dobro do esforço para qualquer tarefa, dizem os que não ficaram sem carro porque uma louca destravada os abalroou num semáforo, dizem ...

Não vos conto tudo, queridas amigas que, na ânsia de me verem animada, me diriam baboseiras que de vocês não quero ouvir, que temos de ver o lado positivo de tudo, que há quem esteja bem pior,  e é tudo verdade mas não preciso disso agora. Amigas, para me darem força dir-me-iam mas Maria Isaura, isso nem parece teu! Lembra-te do que me dizes quando estou em baixo, agora é a tua vez de te ouvires sensatamente ...

E eu não quero ser sensata, estou cansada para festejar a vida, eu só quero que uma vez alguém me diga que é verdade, que a minha vida está uma bosta, que eu estou a ser negativa, chata, má onda e que só preciso de um colo. E um abraço. E enquanto isso, assegurarem-me que vai ficar tudo bem sem paternalismos escusados.

Anda cá, Maria Isaura, senta-te aqui e conta-me tudo que eu depois faço-te uma canjinha. E eu ia.

sábado, 4 de março de 2017

Tasaí Mari Alberta?

_ Tasaí Mari Alberta?
Foi o início do meu fim de semana.
Não me chamo Mari, nem sequer Maria, e entre Alberta e o meu nome são escassas as afinidades. Mas estava lá. As agruras da semana converteram-se a um sorriso: é bom ser a Mari Alberta de alguém! Lá nos pusemos a falar de tudo e de nada, como é do nosso jeito de falar das nossas vidas: sem véus. Às vezes partilhamos impropérios lançados à chuva para acabar a conversa com um "pois, precisamos da chuvinha para as nossas hortas" ou, se estivermos em dia de maior intelectualidade, lá sai uma tirada digna de publicação numa qualquer rede social: " se não houvesse dias de chuva, não saberíamos apreciar o sol!". Rimo-nos dos nossos disparates e depois fazemo-nos ao dia de alma lavada.

Depois de fazermos planos para sábado sabendo que pelo menos metade  não passará de boas intenções, ela tinha de ir e eu resolvi dar por feita aquela interminável tarde de sexta. Por momentos apeteceu-me assinar Mari Alberta no documento acabado de imprimir.

Lembrei, então, das outras pessoas que me pairam no coração e na vida e de quem frequentemente tomo o nome de Xica, Maria Ana, Engrácia, Paula Maria, Aninhas, Mariazinha, Alberta, Genoveva ou, em alturas de pretenso mau humor, outros nomes menos cristãos mas que apesar de tudo figuram na bíblia.

Podemos estar uns dias sem falar mas estamos presentes, fazemos uma rede invisível que tanto pode servir de suporte quando caímos como de impulso para o salto que precisamos dar. Às vezes embala-nos, tão somente. Podem chegar em forma de flores, receitas de caramelos, beijos, snoopys, tareia nas orelhas, mimos infinitos ou conversas sérias pela noite dentro; são as pessoas que fazem de mim uma pessoa melhor.

_Tou aqui, Maria Francisca! Tou aqui Maria Papoila, Ternura, Paixão, Riqueza, Ceriquinha, Salafrário e tantos outros que correria o risco de envergonhar se aqui colocasse os nomes dos nossos batismos molhados de forma mais espiritual.

Estou aqui. Vossa.

domingo, 29 de janeiro de 2017

agora é quase sempre janeiro

Há um rumor de nostalgia onde dantes havia magia. Esconderam-se os santos em jornais de notícias velhas, ofuscaram-se os brilhos com papel pardo, apagaram-se as luzes. Agora é quase sempre escuro.

Batem à porta,  batem-me à porta muita vezes, mas a aldraba tem pronúncia de desgraça. Por entre vidros embaciados e olhos toldados chegam as vozes do desgosto. A ceifeira, matreira, anda à solta apontando sem critério. Encontro-me de novo num cemitério. Tremo, agora é quase sempre frio.

Caem  da noite lembranças sem estrelas  de janeiros passados.  Tento passar despercebida enquanto espero. Agora estou quase sempre à espera.